A alternativa das grandes reformas

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Milhares protestam contra aumento das passagens de ônibus na avenida paulista, em junho de 2013. Será possível uma nova onda de mobilizações sociais?

Diante de uma direita radicalizada e das hesitações do governo Dilma, MTST parece apostar nos ecos de Junho – e promete reunir 15 mil em São Paulo, esta tarde

Por Antonio Martins

No novo cenário político brasileiro, que parece cada vez mais incerto e surpreendente, entrará um novo ator, às 17h de hoje. Uma mobilização “contra a direita e por direitos”, convocada pelo MTST mas já engrossada por um leque amplo de organizações e pessoas, partirá do vão livre do MASP, em São Paulo. Os organizadores preveem que reúna15 mil pessoas, e desfile pelas principais avenidas da cidade. Tanto a velha mídia quanto os sites e blogs alinhados com o governo Dilma estão silenciosos. Mas há potência na iniciativa. Ela busca forças nos ecos das imensas manifestações de Junho de 2013. Procurando captá-los, construiu, num notável exercício de criação política, uma pauta de cinco grandes reformas. Foi capaz de abrir diálogos com novos e velhos movimentos. Crescerá? A resposta será construída a partir desta tarde.

Três incógnitas essenciais merecem ser observadas. A primeira é a própria capacidade de mobilização do MTST. Pouco conhecido até 2013 (apesar de existir desde 1997), o movimento reintroduziu, no imaginário das metrópoles brasileiras, o signo da luta das maiorias por igualdade e por direitos. Há cerca de um ano, mobilizou 30 mil pessoas, na ocupação de um imenso terreno, reservado à especulação imobiliária, na periferia Sul de São Paulo. O local foi chamado, emblematicamente, de Nova Palestina – e o MTST continuou a causar. Realizou outras ocupações gigantes, entre as quais a Copa do Povo, que denunciava a desproporção entre os recursos públicos oferecidos a “mega-eventos” e os destinados à garantia de vida digna. Pressionou a Câmara de Vereadores por mudanças importante no Plano Diretor de São Paulo – exercendo papel mais ativo que o dos movimentos da classe média intelectualizada.

Guilherme Boulos, sua principal referência, nunca escondeu o objetivo por trás de tais atos. Muito mais que o direito a um teto, o MTST luta pela emancipação das periferias, por algo como uma Revolução Urbana, suficiente para desfazer a divisão das metrópoles brasileiras entre pequenas Casas Grandes e enormes Senzalas. Agora, Boulos e seus companheiros parecem ter encarado um desafio maior. Na manifestação de hoje, o MTST pretende lançar um conjunto de grandes reformas: Política, Tributária, Urbana, Agrária e Democratização da Mídia. A proposta suscita questões que foram esquecidas, mas dialogam com dramas reais de diversos setores. Reforma Urbana inclui controle do preço dos aluguéis. Reforma Agrária aponta uma saída não-ortodoxa para o aumento dos preços da cesta básica. A pergunta é: os sem-teto manterão, em torno desta pauta muito mais ampla (e, em certo sentido, abstrata) a mesma capacidade de manter unida sua base?

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A segunda incógnita remete ao cenário político geral. Em condições normais, uma grande mobilização popular, em torno de uma pauta ousada de reformas, seria motivo para manchetes. Nos protestos contra a Copa do Mundo, quando interessava aos conservadores desgastar o governo Dilma, reuniões de 300 pessoas iam à capa dos jornais e recebiam muitos minutos na TV. Agora, silêncio: a mídia busca criar escândalo em torno de questiúnculas, com o novo cálculo do superávit primário proposto pelo governo. Mas… e a própria esquerda histórica, no Palácio do Planalto: dialogará com a pauta das cinco reformas? Qual a presidente em exercício? A que assumiu, no discurso de vitória, o compromisso com as mudanças (em especial, a Reforma Política)? Ou a que sinalizou, dias depois, estar disposta a concessões à direita, como elevação dos juros, corte dos gastos públicos e “ajuste fiscal”? Quais as probabilidades de o governo – pressionado pelos grandes interesses econômicos mas ao mesmo tempo ligado a eles – apoiar-se na nova mobilização social e assumir uma postura menos ambígua?

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A terceira incógnita tem a ver com resgatar os ecos de Junho de 2013. Para estimular mobilização social autônoma, o MTST não pode apostar apenas nos sem-teto. Precisa dialogar com outros movimentos, num leque social e ideológico muito mais amplo. Os grandes protestos de há um ano fizeram história porque foram capazes disso. Há indícios de que um processo semelhante está em curso. A mobilização de hoje atraiu a CUT (ligada ao PT), diversos sindicatos urbanos e também o Juntos (que reúne a juventude do PSOL). Entre as pessoas que confirmaram presença estão Luciana Genro, Leci Brandão (cantora a deputada pelo PCdoB) e Leonardo Sakamoto (blogueiro contra o trabalho escravo e as pequenezas de certa classe média). O MTST parece ter ido além do círculo a que a velha mídia procurava restringi-lo.

Até que ponto este esforço poderá mudar o cenário brasileiro? Talvez seja a hora de seguir a recomendação de um velho filósofo. Não basta interpretar a História – há momentos em que é preciso transformá-la…

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras