Como foi a tarde de terror na USP

Duas professoras vítimas da brutalidade policial descrevem as provocações e violência gratuitas da PM. Elas frisam: não basta culpar soldados; repressão é responsabilidade da reitoria

Por Priscila Figueiredo e Paula Marcelino

Que fique claro: o primeiro ataque foi da polícia. O que os estudantes, funcionários técnico-administrativos e professores enfrentaram ontem (7/3) na frente de uma reitoria completamente cercada por grades e polícia — foi brutal.

Cremos que não era claro para ninguém o que exatamente ia acontecer ali. Mas o fato de a reitoria ter sido toda cercada por grades e ter apenas duas entradas transformou o ingresso  nela em algo simplesmente impossível.

Palavras de ordem foram ditas, de maneira mais ou menos espontânea, desordenada, para o reitor e para a polícia: Fora Zago! Fora PM! Essa foi a “provocação”…

A polícia fez diversas demonstrações de terrorismo. Somos testemunhas de que a tropa de choque começou a atirar bombas sem que houvesse nenhuma das condições extremas que havia pouco alguns policiais —  um dos quais viemos a saber depois que era um dos comandantes  — tinham apresentado como situações nas quais eles poderiam agir com alguma violência. Eles conversavam com conselheiros do CO, André Singer, Eugenio Bucci, Paulo Martins e Alexandre Magrão, e com Tercio Redondo, os quais tinham ido até eles para pedir que não agissem de forma violenta. Estando perto, perguntei o que era uma situação extrema. Jogar pedras. Depois de uns segundos, a segunda condição aparecia: ora, desacato. O que o senhor considera desacato? Se um grupo de manifestantes furar o bloqueio e tentar impedir a reunião — essa seria uma condição extrema? Invasão, você quer dizer? Invasão é crime.

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Violência: quem lucra, quem morre

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Um adolescente é assassinado a cada hora: 24 por dia, 42 mil até 2019. Excelente negócio para a indústria armamentista, que elegeu 21 deputados no último pleito

Por Celso Vicenzi

A violência toma conta das cidades. É o que se ouve, é o que se vê, é o que se lê, cada vez mais, nos principais veículos de comunicação. A tese não é equivocada, apenas é incompleta e mal explicada. Não faltam evidências empíricas, no dia a dia dos brasileiros, para concluí-la verdadeira. Tampouco as pesquisas e os estudos desmentem o que a mídia esforça-se por ampliar: a sensação de insegurança, de viver num cenário de permanente violência.

Somos, sim, um país violento. E não é caso recente. A população indígena foi praticamente dizimada no contato com portugueses e outros povos europeus, no início da colonização. Fomos o penúltimo país a acabar com a escravidão. Chegamos ao século 21 entre as cinco nações mais desiguais do planeta. E, até hoje, a tortura tem sido largamente empregada por forças policiais no dia a dia das delegacias e penitenciárias. Continuar lendo

Quem ameaça a liberdade de imprensa no Brasil?

Jornais calam-se, mas policiais e políticos agridem e matam jornalistas. Judiciário quase sempre garante impunidade. Documentário da ONG Artigo 19 conta caso emblemático do fotógrafo Alex Silveira

Ao cobrir para o jornal Agora São Paulo um protesto de professores diante do Masp, na avenida Paulista, em maio de 2000, o repórter fotográfico Alex Silveira viu a temperatura elevar-se e a Polícia Militar atacar com gás de pimenta, cassetete, bala de borracha, cachorros. Clicava um policial prestes a atirar contra um professor quando percebeu que o PM o havia notado e vinha em sua direção. Alex apagou o flash, abaixou a máquina e continuou clicando, até o policial sair de perto. Mas em seguida, logo depois da explosão de uma bomba de gás lacrimogênio, foi atingido por um tiro no olho e outro nas costas. “Cai todo ensaguentado, já praticamente cego; os professores me levaram pro Hospital das Clinicas e constatou-se que eu tinha tido descolamento de retina, talvez perdesse a vista esquerda. Após seis cirurgias, graças a Deus me sobraram 15%.”

As fotos feitas por Alex e outras tantas da violência policial em manifestações de rua podem ser vistas no minidocumentário “Impunidade cega”, de 16 minutos, que a ONG Artigo 19 realizou e é o primeiro de uma trilogia sobre a impunidade em crimes contra comunicadores no Brasil. Com o depoimento do fotógrafo pontuado por comentários de André Augusto Salvador Bezerra, presidente da Associação Juízes para a Democracia, e Rafael Custódio, coordenador do Programa de Justiça da ONG Conectas, o minidoc mostra o impacto da impunidade desses crimes no exercício da liberdade de expressão na sociedade. O Brasil é o 11º país em impunidade, em crimes contra comunicadores em exercício profissional. Dos assassinatos cometidos contra esses trabalhadores nos últimos 12 anos, 67% continuam impunes. Políticos e policiais correspondem a 74% dos autores suspeitos de crimes contra comunicadores. Continuar lendo

Saudável (e invisível) desconfiança diante das PMs

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São Paulo, 19/9: população pinta protesto no asfalto, depois do assassinato frio de um ambulante pela Polícia Militar

Dado ocultado pela velha mídia indica: 70% da população não confia nas polícias. Violência — constante nas periferias, agora visível no centro — pode ser causa principal

Por Maiara Barbosa

Desde as manifestações populares que varreram o país em junho de 2013, ficaram evidenciados os abusos cometidos pelas Polícias Militares. A repressão policial, antes vista com maior frequência em bairros periféricos, ganhou repercussão ao ser flagrada nos centros das grandes cidades brasileiras.

Os protestos, com uma ampla agenda de reivindicações, deixaram vários feridos e presos arbitrariamente. Apenas no dia 13 de junho, 240 pessoas foram encaminhadas à delegacia para esclarecimentos. Nem mesmo os profissionais da imprensa foram poupados. Continuar lendo

Luiz Eduardo Soares sintetiza absurdo das prisões de manifestantes

Uma cena comum nas ações do BOPE

Uma cena comum nas ações do BOPE

“Se Justiça, Ministério Público e Polícia Civil agissem com equidade, governador do Rio estaria preso, acusado de formação de quadrilha”

Por Luiz Eduardo Soares*

“Homens de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”. Essa estrofe foi cantada à luz do dia, diante de inúmeras testemunhas, nas ruas da cidade, por policiais militares uniformizados, comandados por oficial. Se a Justiça, o MP e a Polícia Civil agissem com equidade, aplicando às equipes do BOPE a mesma chave de interpretação que aplicaram às conversas telefônicas entre manifestantes, os membros do BOPE e seus superiores, inclusive o secretário de segurança e o Governador, estariam presos, acusados de formação de quadrilha armada.

Como, além de anunciar que o fariam, equipes do BOPE efetivamente mataram centenas de pessoas nas favelas, cumprindo a mórbida ameaça, a condenação por homicídio qualificado seria líquida e certa. Por que são diferentes, os pesos e as medidas?


Luiz Eduardo Soares é um antropólogocientista político e escritor. Considerado um dos maiores especialistas em segurança pública do país, foi Secretário Nacional de Segurança Pública no governo Lula, afastado por pressões políticas. É co-autor I Elite da Tropa e Elite da Tropa 2. Este comentário foi pastado em sua página do Facebook

Violência (2): “A origem do rojão”

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“É impossível defender uso de explosivos em manifestações. Mas a polícia agrediu tanto, e provocou tamanho ressentimento, que agora só um gesto dela poderá deter espiral de brutalidade”

Por Tadeu Breda

As imagens mostraram que foi um rojão – e não uma bomba de efeito moral – o que atingiu a cabeça e acabou matando o cinegrafista Santiago Andrade. Agora resta conhecer a origem do artefato. Culpado ou inocente, alguém será muito em breve preso e responsabilizado pelo crime, como tem que ser. Por isso, é melhor entender por quê alguns manifestantes levam explosivos para os protestos do que apenas crucificar quem acendeu o pavio. Vândalos, black blocs, baderneiros, arruaceiros, terroristas, infiltrados são expressões que dizem muito sobre quem as utiliza e pouco sobre as pessoas a quem pretendem se referir. E não ajudam a compreender as razões que estão levando cada vez mais cidadãos a reagir contra a violência policial, e com cada vez mais força, durante passeatas.

Qual é o papel da polícia nas manifestações? Segundo comandantes, secretários, governadores e ministros, a polícia está lá para garantir a lei, a ordem e a segurança dos manifestantes. Quem frequenta protestos sabe, porém, que a vocação prioritária dos policiais é tutelar a passeata. E reprimi-la na primeira oportunidade, conforme orientações superiores. Ninguém em sã consciência acredita que estará protegido por uma tropa que dali a alguns minutos possivelmente estará agredindo indiscriminadamente. A própria presença dos soldados inspira desconfiança. Todo brasileiro já sofreu – ou conhece alguém que sofreu – abuso policial. Desde uma agressão ou detenção descabida até má vontade no atendimento de uma ocorrência, passando por insinuações de suborno ou uma mera demonstração de pequeno poder. Continuar lendo

Violência (1): “Pronto. Santiago Andrade está morto”

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“Nenhuma jornada de lutas do século XX, com milhões de pessoas, valeu-se de violências. Do seu lado, estavam a razão e a vitória. Agora, black-blocs entram no jogo pesado que direita quer impor ao país” 

Por Gilberto Maringoni 

Santiago Andrade foi vítima da estupidez de arruaceiros infiltrados entre manifestantes, no Rio de Janeiro. Foi vítima dos marginais que se autointitulam black blocs. Estes nada têm a ver com democracia, com luta por direitos e muito menos com jovens da periferia que querem um lugar ao sol.

Diante da provocação montada por Eduardo Paes – que brincou com gasolina ao aumentar as passagens de ônibus de um sistema sucateado – os black blocs entraram no jogo pesado que a direita quer impor ao país.

O jogo do caos. Continuar lendo

URGENTE: governo Alckmin reage a bala contra nova terapia para dependentes de crack

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Polícia disparou há pouco contra participantes do programa Braços Abertos, em provocação aberta. Conservadores tentam calar projeto humanitário pela força

Por Bruno Torturra, em sua página no Facebook

Acabo de receber a informação de que o governo de São Paulo de Geraldo Alckmin mandou a Polícia Militar para dispersar através da força a Cracolândia.
A retomada da violência de estado para lidar com a questão está em curso nesse momento. Balas de borracha, bombas de gás e feridos.

Toda essa brutalidade no meio de um processo delicado, pacífico e baseado em reconquistar a confiança dos usuários no poder público e abrir uma janela para o diálogo com o programa “De Braços Abertos” que a prefeitura de Haddad mal começou a implementar.
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Na Itália, beijar policial é vandalismo

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Manifestante rebelde, simbolo de irreverência diante da polícia e da repressão aos protestos sociais, é acusada de “violência sexual”

Por Cauê Seingermartin Ameni

Protagonista de umas das melhores fotos do ano, imagem viralizada amplamente pelas redes como um simbolo pacifista dos protestos que se espalharam pelo mundo em 2013, a estudante italiana Nina De Chiffre voltou a chamar atenção esta semana. Não por questões estéticas, mas pela kafkiana situação em que se encontra. Seu ato pacifico, um beijo, virou sinônimo de vandalismo.

A estudante de 20 anos acaba de ser processada por “violência sexual”, depois de ter sido fotografada beijando o capacete do oficial da polícia Salvatore Piccione durante a manifestação mês passado em Susa, norte da Itália.

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Movimentos ocupam a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo

Secretário não comparece à Audiência Pública. Comitê de Luta Contra o Genocídio promete mais ações para frear violência contra a juventude

Por Douglas Belchior, da UNEAfro

Após quase quatro meses de negociações e diálogo junto à assessoria da nova gestão da Secretaria de Segurança Pública do Estado do SP, o Secretário Fernando Grela Vieira não compareceu à audiência pública marcada para o início da noite desta terça-feira, 19 de março. Compareceram cerca de 300 pessoas, que indignados e sentindo-se desrespeitados, marcharam na mesma hora à Secretaria de Segurança Pública, situada a alguns metros dali. Aos gritos de “Cadê o Secretário?”, os manifestantes ocuparam o hall de entrada do prédio, mas o secretário não apareceu. Continuar lendo