Como foi a tarde de terror na USP

Duas professoras vítimas da brutalidade policial descrevem as provocações e violência gratuitas da PM. Elas frisam: não basta culpar soldados; repressão é responsabilidade da reitoria

Por Priscila Figueiredo e Paula Marcelino

Que fique claro: o primeiro ataque foi da polícia. O que os estudantes, funcionários técnico-administrativos e professores enfrentaram ontem (7/3) na frente de uma reitoria completamente cercada por grades e polícia — foi brutal.

Cremos que não era claro para ninguém o que exatamente ia acontecer ali. Mas o fato de a reitoria ter sido toda cercada por grades e ter apenas duas entradas transformou o ingresso  nela em algo simplesmente impossível.

Palavras de ordem foram ditas, de maneira mais ou menos espontânea, desordenada, para o reitor e para a polícia: Fora Zago! Fora PM! Essa foi a “provocação”…

A polícia fez diversas demonstrações de terrorismo. Somos testemunhas de que a tropa de choque começou a atirar bombas sem que houvesse nenhuma das condições extremas que havia pouco alguns policiais —  um dos quais viemos a saber depois que era um dos comandantes  — tinham apresentado como situações nas quais eles poderiam agir com alguma violência. Eles conversavam com conselheiros do CO, André Singer, Eugenio Bucci, Paulo Martins e Alexandre Magrão, e com Tercio Redondo, os quais tinham ido até eles para pedir que não agissem de forma violenta. Estando perto, perguntei o que era uma situação extrema. Jogar pedras. Depois de uns segundos, a segunda condição aparecia: ora, desacato. O que o senhor considera desacato? Se um grupo de manifestantes furar o bloqueio e tentar impedir a reunião — essa seria uma condição extrema? Invasão, você quer dizer? Invasão é crime.

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Nos 50 anos da ECA-USP, o redator do AI-5

1968: Gama e Silva, à esquerda, acompanha leitura da decretação do AI-5, em cadeia de rádio

1968: Gama e Silva, à esquerda, acompanha o locutor Alberto Curi no anúncio, em cadeia de rádio, da decretação do AI-5.

Gama e Silva, que ajudou a criar a escola, aparece em vídeo festivo, que omite seu papel na edição do Ato. Sinais de que instituição precisa rever sua trajetória política e cultural

Por Jean-Claude Bernardet

Ontem (19/10) a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP festejou seus 50 anos.
Foi apresentado um vídeo que destaca o papel do reitor Gama e Silva na sua fundação.

O vídeo informa que o reitor foi nomeado ministro da Justiça. Mas não informa que Gama e Silva foi o redator da primeira versão do AI-5, considerada excessiva até pelo general Costa e Silva, então presidente da República. Foi nesse ambiente sufocante de opressão cultural e política que a ECA iniciou sua trajetória.

O que areja o vídeo é a poderosa ironia da voz off do grande ator Luis Damasceno.
A diretora da escola e o reitor da universidade fizeram discursos protocolares que não abrem nenhuma perspectiva para professores e estudantes.

A ECA deveria aproveitar o cinquentenário para uma revisão crítica de sua trajetória política e cultural. Seria oportuno neste presente momento.

A riqueza dos quadrinhos, também na academia

150823-OutrosTraços-560x100pesquisahqAs HQs conquistam cada vez mais espaço na universidade, seduzida pela diversidade semântica e disposta e investigar múltiplas provocações deste gênero

Reportagem de Carolina Ito

A ideia de que as histórias em quadrinhos são destinadas apenas ao entretenimento e ao público infantil vem sendo desconstruída ao longo das últimas décadas e isso se deve, em parte, pelo desenvolvimento de pesquisas acadêmicas que têm as HQs como objeto de estudo. Elas crescem em número e qualidade a cada ano, mostrando que existe uma maior compreensão sobre a linguagem e seu potencial de representação da vida social.

Os pioneiros dos estudos de quadrinhos no Brasil, das décadas de 1960 e 1970, dedicaram parte de suas obras a justificar a análise desse tipo de produção, já que quadrinhos ainda eram vistos como um tipo de leitura alienante e até mesmo como responsáveis pela formação de “leitores preguiçosos” entre os jovens da época, como descreve Álvaro de Moya em “Shazam!”, livro publicado pela editora Perspectiva, em 1970.

Waldomiro Vergueiro, docente da Universidade de São Paulo e referência no estudo de HQs, comenta que “algumas barreiras para a pesquisa em quadrinhos deixaram de existir e mais alunos se atreveram – a melhor palavra talvez seja essa mesma -, a propor pesquisas enfocando esse tema” e, ao mesmo tempo, “muitos orientadores, que antes teriam de antemão recusado tais propostas, passaram a olhá-las com outros olhos”. Continuar lendo

Em simpósio internacional, a atualidade do debate sobre Censura

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Evento acadêmico em São Paulo discute a importância da liberdade de expressão, em uma sociedade que disputa cada vez mais seus sentidos

O Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM) da USP realiza, entre 13 e 14 de março, a segunda edição de seu Simpósio Científico, trazendo para a academia e para a sociedade em geral o importante debate sobre a censura e liberdade de expressão.

O evento irá abordar o papel da interdição nas áreas da arte, educação, literatura e jornalismo. Não faltarão também os questionamentos mais recentes no âmbito da liberdade de expressão, que envolvem a cena da mídia e seus poderes, as novas tecnologias, bem como o debate acerca do preconceito e da ação de minorias. Continuar lendo

SP: Aula pública sobre Tarifa Zero e mobilização popular

aula publica

Amanhã debate organizado pelo MPL, com Paulo Arantes e Lúcio Gregori, idealizador do projeto de lei. E hoje mais dois eventos sobre o tema

Por Redação

Tarifa Zero e mobilização popular estão em pauta em todo o país. Mas o que sabemos sobre tarifa zero? Quem vai pagar a conta? Como ela se liga à luta contra o aumento e às mobilizações que tem balançado o país?

O Movimento Passe Livre de São Paulo convida para uma aula pública que vai discutir essas e outras questões nesta quinta-feira, às 17h. Para falar sobre o assunto, dois ilustres convidados: Lúcio Gregori, engenheiro, músico, ex-secretário de Transportes da prefeitura Luiza Erundina (1989-1992) e idealizador do Projeto Tarifa Zero; e Paulo Arantes, filósofo, escritor, pesquisador e professor aposentado do Departamento de Filosofia da USP.

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Kabengele Munanga: vida e ideias de um pensador anti-racista

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

Por Jean Mello

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

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