Europa: a curiosa exceção portuguesa

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os "socialistas" franceses aprenderão algo?

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os “socialistas” franceses aprenderão algo?

Um governo à esquerda rejeita as políticas de “austeridade”, amplia seu apoio popular e atrai a atenção dos Partidos “Socialistas” da França e Alemanha. Por que?

Dois pesos pesados da família europeia de partidos “socialistas” prestaram, nos últimos dias, homenagens ao PS português a ao primeiro ministro do país, Antonio Costa. Primeiro, foi a vez do francês Benoit Hamon, que disputará em abril a presidência de seu país. “Fazer minha primeira viagem política a Lisboa foi uma decisão política”, disse ele: “é um país governado pela esquerda, apoiado por uma frente de esquerda, e que abandonou as políticas de ‘austeridade'”. Dias depois, Hamon foi seguido pelo alemão Martin Schulz, que liderará o Partido Social Democrata (SPD) nas eleições parlamentares para formar novo governo, em setembro. Costa é “um excelente amigo”, afirmou, sugerindo que considera a experiência portuguesa uma eventual alternativa à “grande coalizão” que o SPD forma hoje com os conservadores de Angela Merkel. É instrutivo examinar as causas do charme português.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

A Grécia decide não retroceder

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

Pressionado pela União Europeia, primeiro-ministro Tsipras anuncia ao Parlamento que implementará “integralmente” programa que o elegeu — a começar da Reforma Tributária

No Ekathimerinide Atenas | Tradução: Vila Vudu

Com semana difícil pela frente para a Grécia, e sob pressão crescente dos credores, o primeiro-ministro Alexis Tsipras apresentou ontem ao Parlamento seu programa político de governo, prometendo implementar as promessas pré-eleitorais de revogar medidas de austeridade, embora não todas ao mesmo tempo. “Temos um único compromisso – servir aos interesses do povo e ao bem da sociedade” – disse Tsipras, acrescentando que é decisão irrevogável de seu governo implementar “integralmente” as promessas de campanha.

O premiê disse que o governo não tentará qualquer prorrogação do “resgate” da Grécia. Disse que seria “prorrogar os mesmos erros e o mesmo desastre”; reiterou que os gregos exigem um acordo “ponte” a ser firmado até que se alcance “acordo mutuamente aceitável” com os credores. “Não temos nenhuma intenção de ameaçar a estabilidade na Europa”, disse ele, acrescentando que, contudo, não “negociaria” a soberania do país. Continuar lendo

Inglaterra: governo amplia “caça” aos imigrantes

130802-Imigrantes

Suspeitos são detidos e têm fotos divulgadas, para provocar temor. Parte da população começa a reagir, nas redes sociais

home office (espécie de ministério do Interior) do governo inglês levou aina mais adiante as práticas de discriminação anti-imigrantes, já relatadas por Outras Palavras em 30/7. Desde quarta-feira, as detenções de estrangeiros suspeitos de não terem documentos passaram a ser fotografadas e divulgadas amplamente pela polícia (inclusive nas redes sociais…). Só nesta quinta-feira, orgulha-se o home-office, 139 pessoas foram presas. O objetivo é aterrorizar os imigrantes considerados “ilegais”. Ao mesmo tempo, circulam em Londres e arredores out-doors sobre rodas, que incitam a população a denunciar não-britânicos indocumentados em sua vizinhança.

Felizmente, cresceu, entre setores da população, a resistência a tal tipo de barbárie. A edição de hoje do Guardian relata uma batalha no Twitter, entre os partidários do preconceito e os que defendem posturas humanistas.  Um jornalista do Daily Mirror sugeriu a seus leitores: “Se todos denunciarmos o @ukhomeoffice como spam, não poderão nos deportar. FAÇAM ISSO. Pelo menos, acho que não poderão nos deportar. Certamente tentarão. Especialmente, se você for meio escurinho”…

Os britânicos agora caçam… imigrantes!

130730-UK

Começa em Londres campanha publicitária estatal para estimular população a denunciar estrangeiros sem documentos

Numa Europa cada vez mais contaminada por ideias xenofóbicas, até o proverbial humor britânico parece, às vezes, atirado à lata do lixo, quando entram em cena as relações com estrangeiros. Há alguns dias, seis municípios da zona metropolitana de Londres passaram a promover, em caráter de “teste” uma campanha publicitária que visa espalhar terror entre imigrantes sem documentos. Consiste em fazer circular, pela cidade, out-doors móveis com os seguintes dizeres: “[Está] no Reino Unido ilegalmente? Volte para casa, ou se arrisque à prisão”. Para tornar a mensagem mais realista, informa-se aos não-britânicos o telefone que devem acionar, caso tenham interesse em ser repatriados “voluntariamente”; e anuncia-se, bairro por bairro, o número de “clandestinos” presos pela polícia, até o momento.

Continuar lendo

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

130402-Chipre

Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

Continuar lendo

Europa: ataque a direitos continua a aprofundar crise

Grécia avisa que será incapaz de cumprir metas fixadas pela “troika”. Portugal pode ser forçado a pedir novo “resgate”. Hipótese de Noam Chomsky sobre sentido da recessão parece ter base real

Enquanto a China sonda caminhos para reduzir a exposição de sua economia aos países ocidentais em crise, na Europa voltam a surgir sinais de que as políticas de ataque aos direitos sociais e serviços públicos mergulharão o continente em novas dificuldades. As más notícias dos últimos dias vêm de Grécia e Portugal.

Em Atenas, o primeiro-ministro conservador, Antonis Samaras, encontrou-se quarta-feira passada com o presidente do “eurogrupo” Jean-Claude, Trichet, e alertou que não será possível alcançar, no prazo previsto, a redução do déficit esperada pelos credores de seu país. Embora comprometido com as exigências da Alemanha e da chamada troika (União Europeia, FMI e Banco Central Europeu), Samaras propôs que estes aceitem postergar por ao menos dois anos as metas que exigem da Grécia. Além disso, advertiu os demais governantes europeus para que deixem de fazer “declarações tóxicas” sobre Atenas — lembrando que elas tornam ainda mais difícil vender, para a opinião pública grega, novas propostas de privatização de redução de direitos sociais. Continuar lendo

Xenofobia à moda grega

Afundado em dificuldades econômicas crescentes, governo de Atenas prende milhares de imigrantes africanos e asiáticos — e os mantém em condições desumanas

Pelo menos 6 mil pessoas foram detidas no final de semana em Atenas e nas principais cidades gregas, numa vasta operação policial que reforça os sinais de xenofobia crescente na Europa. Pelo menos 1.600 foram aprisionadas em condições precárias e deverão ser deportadas. Não são acusadas de crime algum — apenas serem estrangeiras sem documentos de permanência no país. Anunciada com alarde na TV, pelo ministro da Ordem Pública, Nikos Dendias, a operação teve nítido caráter racista, segundo denúncia da Anistia Internacional (AI): a polícia escolheu quem prender de acordo com a cor da pele.

As detenções em massa ocorrem em meio a crescentes dificuldades do governo. Ao contrário do que prometeu em campanha eleitoral, a coalizão de centro-direita que venceu as eleições em abril (ler “A Grécia revive uma vitória de Pirro“) não renegociou, as bases do programa de corte de direitos sociais imposto pela União Europeia. Um novo pacote de medidas deverá ser anunciado nos próximos dias. Prevê a demissão de mais 40 mil servidores públicos e uma ampla lista de privatizações.

Continuar lendo

A Espanha prepara o grande protesto

Manifestações prévias à jornada de quinta-feira espalham-se pelo país. Sindicatos e “indignados” do 15-M aparam divergências para lutar juntos contra pacote do governo

Por Pep Valenzuela, correspondente em Barcelona

(Texto atualizado em 18/7. às 11h20)

A Espanha, que surpreendeu o mundo em 2011, com as gigantescas manifestações de indignadospode converter-se outra vez em pólo de criação política. Faltando um dia para uma jornada de protestos convocada pelos sindicatos, para reagir ao ataque maciço do governo contra os direitos sociais, multiplicam-se os sinais de que a ação será, além de imensa, inovadora.

No início da semana, centrais sindicais e indignados sinalizaram, de parte a parte, que vão somar forças em todo o país na quinta-feira, relevando diferenças. Em Madri, uma assembleia extraordinária do 15-M decidiu participar sem ressalvas das marchas de trabalhadores, apesar de o movimento se opor à estrutura hierarquizada dos sindicatos. “As medidas tão bestiais do governo estão revelando que não vale a pena rebelar-se para pouco”, afirmou ao jornal Público uma integrante do Grupo de Moradia do 15-M, que se identificou como Violeta.  Continuar lendo

Da Grécia ao Reino Unido, Europa volta a andar para trás

Grã-Bretanha: o nobre "Chancellor of the Exchequer" afunda na crise e não vê alternativa

Dados confirmam que “austeridade” deprime o continente, mas governantes insistem em prolongar sacrifícios

Paul Krugman, Nobel de Economia, escreveu certa vez que a lógica oculta nas políticas de “austeridade” é idêntica à dos sacrifícios humanos praticados pelos maias. Eles não evitavam nem os eclipses, nem perda de colheitas, mas os sacerdotes argumentavam que sua receita estava certa — apenas não havia sido seguida com a intensidade necessária… Duas estatísticas divulgadas ontem, e as reações das autoridades a elas, dão novas razões à comparação de Krugman.

Na Grécia, o Banco Central anunciou que a queda no PIB será maior que se previa: -5%. Há cinco anos, a produção declina sem parar. Quase todos os ativos do Estado foram vendidos; o desmonte dos serviços públicos degenera até em saque de tesouros arqueológicos; houve redução do salário mínimo, eliminação de direitos, explosão do desemprego. Analistas não-alinhados a estas políticas anteciparam que elas seriam incapazes de reimpulsionar a economia — exatamente porque deprimem a capacidade de consumo da população. Ainda assim, o presidente do BC “advertiu”: o país precisa de “estrita adesão aos ajustes”; eles não pode ser ameaçados pelas eleições do próximo 6/5…

Continuar lendo

Como oligarquia financeira mantém Europa submissa

Ângela Merkel (Alemanha) e Nicolas Sarkozy (França), a dupla "Merkozy": imagem de um regime decadente

Estudo revela complexo mecanismo usado para impor, “democraticamente”, medidas condenadas por ampla maioria das sociedades

Na Europa, não faltam recursos financeiros contra a crise: Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE) estão agindo desde a virada do ano para transferir, ao sistema bancário privado, cerca de 3 trilhões de euros, a juros negativos. A atitude é outra em relação aos Estados ameaçados por fuga maciça de divisas. Negam-se recursos. Exige-se, para liberá-los, corte de direitos sociais, privatizações, redução drástica das proteções previdenciárias. Tais medidas são rechaçadas, revelam as sondagens, pela vasta maioria da opinião pública, em todos os países. No entanto, os Parlamentos as adotam sem resistir. Como é possível esta democracia contra as sociedades?

Acaba de sair um texto revelador a respeito. O original, em francês, foi publicado no site Memoire des Lutes, dirigido por Ignacio Ramonet e Bernard Cassen O autor é Christophe Ventura, um jovem colaborador destes antigos editores do Le Monde Diplomatique. Ele descreve os meandros institucionais do processo de chantagem política que garantiu até agora a submissão do continente aos projetos da oligarquia financeira.

Continuar lendo