E se a União Europeia perder a Inglaterra?

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Faltando sete semanas para plebiscito crucial, há um quebra-cabeças a resolver: Londres quer “exceções” que nem a Alemanha, nem os países do Leste, parecem dispostos a aceitar

Marcado para 23 de junho próximo, o referendo em que os eleitores do Reino Unido decidirão permanecer na União Europeia (UE) ou abandoná-la, tem importância global. A eventual deserção britânica enfraquecerá gravemente o bloco econômico mais rico do planeta e terá consequências políticas e simbólicas profundas. A UE expressou, no passado, o ideal de uma Europa menos desigual e não-beligerante. Com o passar do tempo, passou a ser vista como uma estrutura burocrática, de dirigentes não submetidos aos votos, que assumem papeis e poderes antes concentrados nos Estados nacionais e tornam impotentes os governos e instituições eleitos democraticamente. Qual será seu futuro, após 23/6?

Um artigo de Bernad Cassen, publicado pelo Le Monde Diplomatique francês, ajuda a enxergar o quebra-cabeças britânico. Eis suas peças principais:

> A disputa está extremamente incerta e será resolvida por margem estreita (veja o gráfico acima, no qual permanecer é representado pela curva verde, sair é a vermelha e indecisos são os azuis);

> Em tal ambiente, pode ser decisiva a posição do primeiro-ministro conservador Deavid Cameron. Ele foi eleito, por larga margem, para um novo mandato no ano passado. Só pode fazê-lo, porém, porque comprometeu-se com o plebiscito sobre a eventual retirada da Grã-Bretanha (Brexit). Convocou a consulta o mais cedo que pôde, por temer que o tempo jogue a favor da saída.

> Cameron ainda não definiu sua posição. Mantém negociações intermináveis com os demais governantes europeus; Busca obter deles exceções que lhe permitam defender, junto ao eleitorado conservador, a permanência do bloco. As duas principais são: a) aumento da soberania relativa dos Estados nacionais, diante da UE, na definição das politicas internas; e b) direito de legislar sobre imigrantes, restringindo o ingresso inclusive daqueles proveniente de países europeus.

> Estas exigências chocam-se contra dois interesses poderosos: a) os da Alemanha, altamente interessada em impor, aos demais membros do bloco, as políticas de ataque aos direitos sociais (“austeridade”) que vitimam, por exemplo, a Grécia; de todos os governantes do Leste Europeu. Eles não teriam condições de defender, junto a suas populações, a permanência numa Europa que restringe a circulação, o trabalho e a busca de oportunidades por parte de seus habitantes mais pobres.

Em meio aos dilemas, Bernard Cassen avalia que Cameron hesita demais e enerva seus parceiros de UE. Esta vacilação pode corroer tanto as chances de evitar o Brexit quanto a própria sobrevivência política do primeiro-ministro.

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Vitorioso, Yanis Varoufakis deixa governo grego

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Leia carta de renúncia, na qual ele sustenta: “quem é de esquerda não pode se apegar a cargos”

Por Yanis Varoufakis, em seu blog | Tradução Vila Vudu

O referendum de 5 de julho ficará na história como momento raro, quando uma pequena nação europeia levantou-se contra a servidão da dívida.

Como todas as lutas por direitos democráticos, também essa rejeição histórica aoultimatum que o Eurogrupo nos fez dia 25 de junho arrasta com ela uma etiqueta de alto preço. É pois essencial que o grande capital político que foi outorgado ao nosso governo pela esplêndida votação que o NÃO recebeu seja imediatamente investido num SIM às correspondentes coragem e decisão – para um acordo que envolva reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos mais necessitados e reformas reais. Continuar lendo

A Grécia decide não retroceder

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

A classe média adere: em 6/2, manifestação em Atenas defende as primeiras medidas do novo governo grego, diante das ameaças dos conservadores europeus

Pressionado pela União Europeia, primeiro-ministro Tsipras anuncia ao Parlamento que implementará “integralmente” programa que o elegeu — a começar da Reforma Tributária

No Ekathimerinide Atenas | Tradução: Vila Vudu

Com semana difícil pela frente para a Grécia, e sob pressão crescente dos credores, o primeiro-ministro Alexis Tsipras apresentou ontem ao Parlamento seu programa político de governo, prometendo implementar as promessas pré-eleitorais de revogar medidas de austeridade, embora não todas ao mesmo tempo. “Temos um único compromisso – servir aos interesses do povo e ao bem da sociedade” – disse Tsipras, acrescentando que é decisão irrevogável de seu governo implementar “integralmente” as promessas de campanha.

O premiê disse que o governo não tentará qualquer prorrogação do “resgate” da Grécia. Disse que seria “prorrogar os mesmos erros e o mesmo desastre”; reiterou que os gregos exigem um acordo “ponte” a ser firmado até que se alcance “acordo mutuamente aceitável” com os credores. “Não temos nenhuma intenção de ameaçar a estabilidade na Europa”, disse ele, acrescentando que, contudo, não “negociaria” a soberania do país. Continuar lendo

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

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Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

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Europa: adeus à democracia?

A maneira como a crise financeira vem sendo combatida pelos governos europeus demonstra que a democracia ficou reduzida à mínima expressão do exercício periódico do voto

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

O anunciado “fim da história” liberal capitalista está ficando bem mais tumultuado do que os apologistas do proclamado sistema do “livre mercado” poderiam ter imaginado. E, se for para se falar em “fim”, mais parece que se trata só do início do fim, mais dos centros do poder econômico e político dos últimos dois séculos, especialmente da Europa.

O capital, sem inimigos e dançando sozinho à vontade pelo mundo afora, longe de achar o equilíbrio que deveria garantir a justa e “natural” distribuição dos recursos e bens (o trabalho da chamada de “mão invisível”) e levando democracia e liberdade para todos os cantos do globo, está, ao contrário, destruindo tudo — e, primeiro, as velhas democracias europeias.

Quem imaginaria apenas quatro anos atrás uma situação como a atual: “Caídos pelo euro”, reza o título da capa do jornal de Barcelona El Periódico. Na foto: o italiano Berlusconi, o grego Papandreu, o espanhol Zapatero, o português Sócrates e o irlandês Brian Cowen. O euro, a moeda que até parecia destinada para substituir a hegemonia do esgotado dólar, pode até desaparecer — o que ainda não aconteceu porque pensá-lo produz mais medo do que qualquer outra opção.

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