A insana transposição do Rio Tocantins

O Tocantins vazio em   Tocantinópolis, trecho de cerrado. Devastação deste bioma, para dar lugar a fazendas de soja e gado, está secando o rio, que agora alguns querem "transpor"

Seca expõe leito de pedras e barro do Tocantins, em trecho de cerrado. Devastação deste bioma, para dar lugar a fazendas de soja e gado, está secando o rio, que agora alguns querem “transpor”

Diante do esvaziamento do S. Francisco, surge nova proposta. Por que ela é inviável e agressiva. Quais as alternativas para salvar dois grandes rios brasileiros

Por Roberto Malvezzi, o Gogó

Em primeiro, é preciso dizer que essa proposta é mais insana, mais louca que a transposição do São Francisco para outros estados da forma como ela foi feita.

Na verdade, os movimentos socioambientais sempre disseram que o São Francisco tinha pouca água para suportar uma transposição. Era um anêmico que não podia doar sangue. Agora, essa proposta de transpor o Tocantins para o São Francisco só comprova o que sempre dissemos. Está faltando água no São Francisco não só para as comunidades beiradeiras, mas a falta de água inviabilizou a hidrovia do São Francisco, diminuiu a geração de energia e está faltando água até para os perímetros irrigados já instalados. Então, começou a bater o desespero também no setor econômico, naqueles que mais ganham com as águas do Velho Chico. Daí a proposta doida de transpor o Tocantins para aumentar o volume de água do São Francisco, água que ele já teve, mas agora não tem mais.

Essa transposição do Tocantins para o São Francisco é viável?

As pessoas propõem certas obras e com isso mostram todo desconhecimento que tem da realidade. O aquífero que abastece o Tocantins é um dos mesmos que abastece o São Francisco, isto é, o aquífero Urucuia. E esse é um dos aquíferos que está perdendo forças no Cerrado brasileiro. Portanto, sem o aquífero Urucuia morre o Tocantins e morre o São Francisco.

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A Transposição do São Francisco e o Golpe

Trecho abandonado das obras de transposição. Custo ultrapassou R$ 8 bilhões, sem água à vista

Trecho abandonado das obras de transposição. Custo ultrapassou R$ 8 bilhões, sem água à vista. Alternativa não foi considerada

Num novo caso de corrupção e num assassinato suspeito misturam-se políticos do novo e antigo governo. Mídia cala-se. Crescem sinais de que obra nunca deveria ter sido realizada — como argumentaram movimentos sociais

Por Roberto Malvezzi (“Gogó”)

Sabíamos, desde o início, que muitas águas turvas rolariam na obra da Transposição de Águas do São Francisco para o chamado Nordeste Setentrional.  Aos poucos elas vão se revelando, incluindo até mortes.

A primeira denúncia de corrupção aconteceu quando o Exército era o responsável exclusivo por ela. Caiu no silêncio. A segunda, na Operação Vidas Secas, em 2015, envolveu empresas a partir da Lava-Jato, com desvios na ordem de R$ 200 milhões.

Agora com a terceira, na Operação Turbulência, desdobramento da Lava-Jato, fala-se no desvio de R$ 18,8 milhões de uma terraplanagem contratada. O detalhe é que o pagamento foi feito pela OAS; e o proprietário da empresa receptora foi encontrado morto no quarto de um motel em Recife, alguns dias depois da deflagração da referida operação.

O caso ficou ainda mais grave porque a própria polícia estaria denunciando que foi proibida de fazer a perícia dessa morte, por ordem do Secretário de Segurança Pública de Pernambuco. Assuntos secundários merecem mais destaque na mídia corporativa que essa morte suspeita.

O enredo é ainda mais complicado porque essas corrupções aconteceram quando Fernando Bezerra Filho era ministro da Integração — portanto, governos Lula-Dilma — e teriam irrigado a campanha de Eduardo Campos, morto num acidente de avião.

Quando Lula propôs a Transposição no seu primeiro mandato, os movimentos sociais articulados do São Francisco foram contra esse tipo de obra. Já havia a proposta do Atlas do Nordeste elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA) para fazer múltiplas obras, de porte médio, por tubulação, abastecendo praticamente todas as cidades do Nordeste. Prevaleceu a grande obra. Hoje fica mais claro o porquê, embora já soubéssemos o que acontecia por conversas de bastidores.

A Transposição não está concluída. Dilma já disse que, para cada real investido nesses grandes canais, serão necessários dois para fazer as obras de distribuição para os municípios. Portanto, se os canais estão na ordem de R$ 8,2 bilhões, seriam necessários mais 16 bilhões para que a água chegue mesmo à população.

Mas, agora o governo mudou, com apoio do PSB do Pernambuco e daquele que foi ministro de Lula-Dilma. Ontem amigos, no golpe inimigos.

Qual o interesse de um governo golpista em fazer a distribuição dessa água? Sem chances. Ela ficará concentrada nos grandes açudes, utilizada pelos grandes empreendimentos de irrigação? Mais uma vez o povo do Nordeste Setentrional poderá ver a grande obra, sem ver a cor da água.

Finalmente, o São Francisco está com apenas 800 m3/s de vazão. Já falta água na bacia para seus múltiplos usos, inclusive para a vazão ecológica, que deveria ser de 1200 m3/s. Nem sabemos quanta água teremos no rio até que ela transponha o divisor e caia no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Mas, agora, há corrupção e até mortes nos canais dessa obra.

Por caminhos tortuosos a Transposição desaguou no golpe e o golpe na Transposição.

A saga paulistana dos Kariri-Xocó

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“Todo mundo, no fundo, é índio”, diz Wiryçá, que se apresenta a estudantes de São Paulo pela sobrevivência da sua cultura

Por Fábio Salem e Alexandre Facciolla | Foto: Alexandre Facciolla

Dez horas da manhã no Centro de Convivência da Criança e do Adolescente, no bairro Filhos da Terra, periferia da Zona Norte da cidade de São Paulo. No local, a Associação Mutirão do Pobre – ONG que trabalha junto à Secretaria de Assistência Social da prefeitura – planejou na primeira segunda-feira de maio uma atividade diferente para as cerca de 60 crianças de escolas públicas da região.

Subindo a sequência de escadas, chegamos a uma pequena quadra de cimento, ao redor da qual foram arranjadas longas fileiras de cadeiras. Numa delas, um grupo de crianças paramentadas de ornamentos coloridos aguarda o começo dos acontecimentos: uma homenagem a seus convidados, índios da tribo Kariri-Xocó.
À sua frente, noutro canto da quadra, continuam os preparativos. Funcionários amarram, com barbantes, bananas em dois pés da fruta colocados sobre o cimento. Localizado no alto do morro, desse local é possível avistar o grande amontoado de casas, assimétricas e descoloridas, que compõe a paisagem. Continuar lendo