Casé Angatu: “Nossas vidas opõem-se ao capitalismo”

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“A luta indígena é também a luta por uma nova sociedade que já carregamos naturalmente em nossos corpos, anga (alma) e resistência. É o que podemos oferecer aos movimentos sociais”

Por Casé Angatu


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Nossos anciões ensinam que é bom sonhar, mesmo quando estamos acordados. Estes sonhos oferecem força e horizonte (perspectiva) à nossa luta de resistência, que já dura mais de 500 anos. Uma luta, acima de tudo, ritual e sagrada. É a luta pelo Território onde moram os Ancestrais e as/os Encantadas/Encantados da natureza. Como costumamos dizer: “não éramos e nem somos donos da terras … somos a própria terra”. Esta é a energia vital que nos faz resistir há cinco séculos contínuos de genocídios e etnocídio.

O Índio, em sua natureza profunda, mesmo quando violada pelas tentativas de etnocídio, carrega o sentimento de desejar a terra não como propriedade, mercadoria e para exploração de riquezas. Sentimos que este é um dos significados mais profundos da luta e dos sonhos indígenas, que também podemos chamar de utopia: o desejo pelo Território para nele vivermos e compartilharmos com os de anga (alma) livre.

Nossos corpos, rituais, cosmologias e formas de viver são, em conjunto, natural e espontaneamente uma oposição ao capitalismo e um incômodo ao seu estado, que precisa nos negar direitos e combater. Os donos do poder econômico negam há mais de 500 anos o nosso Direito Congênito e Natural ao Território. Recusam também nossa autonomia enquanto Povos. Mesmo a própria Constituição de 1988, apesar de avançar no sentido de não mais nos encarar como em extinção, em seus artigos 231 e 232 não oferecem garantias definitivas à demarcação de nossos Territórios e à nossa autonomia.

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TEXTO-FIM

Os índios reagem contra a CPI da Funai

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Tupinambá de Olivença manifestam-se pela educação indígena em julho de 2015

Parlamentares da CPI da Funai entram em conluio com ruralistas para tentar bloquear demarcação de territórios indígenas

Por Casé Angatu*

O presente texto de forma alguma pretende incentivar a situação de conflito existente na região onde moramos, o Território Indígena Tupinambá de Olivença. Por isso, não entendam os questionamentos que seguem como forma de aumentar a situação de conflito, que já é grave. Atuamos de forma diferente da CPI da Funai/Incra – esta sim, parece querer acirrar conflitos.

1. CPI da Funai/Incra está prejulgando relatórios da Funai?
“A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na demarcação de terras indígenas e quilombolas realiza diligências a partir desta quarta-feira (29/06/2016) até sábado (02/07/2016) no município baiano de Ilhéus e arredores.” Assim, anunciou o site da Câmara dos Deputados. E a comissão da CPI Funai/Incra realmente chegou aqui em nossa região. Esta Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada para julgar a atuação da Funai e do Incra. Aqui trataremos especificamente da atuação desta CPI em relação à Funai. Continuar lendo

Em vídeo, a nova ofensiva de Temer contra os índios

Um dos líderes da bancada ruralista reafirma compromissos do presidente em exercício com fim das demarcações de terras. Gravação revela: é urgente mobilização nacional em defesa dos povos originários

Por Casé Angatu

Em saudação à Associação de Pequenos Agricultores de Ilhéus, Una e Buerarema – ASPAIUB (Sul da Bahia) o Deputado Federal Luis Carlos Heinze (PP/RS) expressa o que chamamos de fundamentalismo ruralista de cunho racista e violento, baseado num discurso de ódio contra os Povos Indígenas. No vídeo, os escolhidos para serem ofendidos foram os Tupinambá de Olivença (Ilhéus/Bahia). Entre outras coisas o Deputado Ruralista afirma o seguinte:

“Quero saudar a Associação de Pequenos Agricultores – ASPAIUB dos municípios de Ilhéus, Una e Buerarema. Nós estamos/continuamos trabalhando para desmontar a farsa da questão indígena. Agora com o novo ministro da Justiça, nós estaremos com ele na próxima semana para mudarmos a direção da FUNAI … para acabarmos a ideologia, para acabarmos com as mortes que tivemos de pequenos produtores de todo o Brasil, inclusive desta região, produtores que foram assassinados barbaramente (…) Portanto, contem conosco. A CPI da FUNAI está desmascarando está gente. A PEC 215 vai continuar e com o novo Ministro da Justiça vamos dar uma nova direção para todos estes casos. As portarias e decretos de desapropriação … estamos trabalhando para desmanchar muitos destes decretos e portarias (…) Portanto, contem conosco. Nós, lá do Rio Grande do Sul, queremos ajudar aos produtores da Bahia e de todo Brasil que estão sofrendo por esta questão indígena, que está atrapalhando nosso país (…) Podem crer que agora estamos sob nova direção. Vamos levar este assunto também à um baiano e conterrâneo de vocês, Geddel Vieira Lima, que hoje esta no Palácio do Planalto junto com Michel Temer “(1).

Uma das primeiras dimensões que vem a tona na fala do deputado federal ruralista Luis Carlos Heinze (PP/RS) é que ele incita o acirramento à violência, racismo e ódio existente na região de Ilhéus, Una e Buerarema (Sul da Bahia) contra o Povo Tupinambá. Agora, fica claro que não são os Tupinambá que causam as situações de violência existentes na região, mas o discurso/ações propostas e efetuadas por pessoas como Heinze.

Da mesma forma, é a demora na demarcação do Território Indígena do Povo Tupinambá um dos elementos geradores dos conflitos existentes. Vale lembrar que o Relatório Demarcatório do Território Tradicional Tupinambá foi concretizado pela FUNAI e publicado no Diário Oficial da União em abril de 2009. Porém, até o momento, mesmo após vencidos todos os tramites jurídicos e administrativos, o ministério da Justiça e governo federal ainda não “assinaram” a demarcação.

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São Paulo corre para organizar Primavera Tupinambá

Alguns consideram-nos extintos. Ainda assim, resistem e exigem direitos. Querem vir à maior cidade do país, falar de suas lutas. Precisam de apoio 

Pelo Grupo de Trabalho em favor do Povo Tupinambá

“A história da luta do Povo Tupinambá por suas terras e tradições, como de todos os índios brasileiros, remonta à invasão portuguesa ao Brasil, em 1500. Neste processo, os Tupinambás foram historicamente e sistematicamente perseguidos. Tornou-se comum ler e ouvir que, como povo, não existem mais.

No entanto, mesmo com as tentativas de extermínio, os Tupinambás continuam a existir através de diferentes formas de vivências — e não abandonaram o seu território em Olivença, no sul da Bahia. Resistiram aos portugueses, ao poder dos grandes proprietários e à atuação quase sempre violenta do Estado. Um exemplo foi a chamada Revolta do Índio Caboclo Marcelino, entre as décadas de 1920-1940, contra o processo de espoliação. Na década de 1980, novamente a resistência Tupinambá ganhou maior visibilidade, com muitas pessoas valorizando seu sangue e sua alma indígena, retornando a suas terras e a seus parentes. Esta resistência foi um dos elementos fundamentais no processo de Reconhecimento Étnico, em 2002, e da Demarcação Territorial, em 2009. Continuar lendo

Porque sem terra, não há cultura

Documentário revela a importância da demarcação das terras guaranis para manter viva a cultura e vida dos povos indígenas

Ao longo dos séculos, Parelheiros foi rota de passagem entre o planalto onde se localiza São Paulo e o litoral. Por lá passaram tanto os portugueses quanto, muito antes, deles, os habitantes originais da terra. Muito mais tarde, na década de 1950, alguns desses índios se fixaram no local, à margem da represa Billings. Hoje, existem três aldeias na região – Tenondé Porã, Krukutu e, mais recentemente, Tekoa Eucalipto.

Atualmente, a luta guarani é pela demarcação de um território de 15 mil hectares na Serra da Mar, que integraria as aldeias em São Paulo e Itanhaém. Enquanto isso, mais de 1,5 mil pessoas vivem em uma área de apenas 26 hectares

“Até hoje nós Guaranis sofremos pela demarcação das terras. Muitos falam que o índio não precisa de terra, mas na verdade todos nós seres humanos precisamos de terra. Aqui nesta aldeia nós temos somente 26 hectares. Não temos espaço para fazer uma plantação e um bom projeto porque a terra é pequena. A população tem crescido e não temos mais espaço para morar.”(Verá-Mirim, cacique da aldeia Tenondé Porã)

Fotografia: Andre Bueno e Deborah Stucchi
Edição: Andre Bueno
Roteiro: Carol Gutierrez, Jaime Leme, Mariana Belmont, Mauro Neri