Casé Angatu: “Nossas vidas opõem-se ao capitalismo”

18470898_10155324293734594_1554001140_n
170516_Casé3
“A luta indígena é também a luta por uma nova sociedade que já carregamos naturalmente em nossos corpos, anga (alma) e resistência. É o que podemos oferecer aos movimentos sociais”

Por Casé Angatu


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Nossos anciões ensinam que é bom sonhar, mesmo quando estamos acordados. Estes sonhos oferecem força e horizonte (perspectiva) à nossa luta de resistência, que já dura mais de 500 anos. Uma luta, acima de tudo, ritual e sagrada. É a luta pelo Território onde moram os Ancestrais e as/os Encantadas/Encantados da natureza. Como costumamos dizer: “não éramos e nem somos donos da terras … somos a própria terra”. Esta é a energia vital que nos faz resistir há cinco séculos contínuos de genocídios e etnocídio.

O Índio, em sua natureza profunda, mesmo quando violada pelas tentativas de etnocídio, carrega o sentimento de desejar a terra não como propriedade, mercadoria e para exploração de riquezas. Sentimos que este é um dos significados mais profundos da luta e dos sonhos indígenas, que também podemos chamar de utopia: o desejo pelo Território para nele vivermos e compartilharmos com os de anga (alma) livre.

Nossos corpos, rituais, cosmologias e formas de viver são, em conjunto, natural e espontaneamente uma oposição ao capitalismo e um incômodo ao seu estado, que precisa nos negar direitos e combater. Os donos do poder econômico negam há mais de 500 anos o nosso Direito Congênito e Natural ao Território. Recusam também nossa autonomia enquanto Povos. Mesmo a própria Constituição de 1988, apesar de avançar no sentido de não mais nos encarar como em extinção, em seus artigos 231 e 232 não oferecem garantias definitivas à demarcação de nossos Territórios e à nossa autonomia.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

O que o samba pode te ensinar

160211-Martinho

Não pense que a denúncia da desigualdade surgiu com o rap. Vasto repertório de canções expressa, há décadas, re-existência e criatividade dos negros, num país que os queria apenas como braços

Por Stephanie Ribeiro, do site Alma Preta | Edição de Imagem: Vinícius de Almeida | Imagem: Elifas Andreato

(Um texto para o meu avô, que aos domingos
colocava um álbum do Martinho da Vila
e me tirava pra dançar)

Como já disse Nina Simone, é dever do artista mostrar os tempos em que vivemos. Com os cantores de samba não foi diferente. Ao contrário do que muitos imaginam, não foi só quando surgiu o rap que o negro passou a fazer críticas e denúncias ao contexto social que estamos inseridos.

São canções feitas há anos, nas décadas de 1950 a 80, que se hoje fossem escutadas por nós ainda fariam sentido e seriam facilmente identificadas com nossas atuais vivências. A origem do samba por si só explica o porquê esse ritmo negro fala tanto sobre nós:

“Uma das formas mais comuns pelas quais os negros reafirmavam seus laços de amizade e cooperação ocorria durante as festas nas casas das “tias” ou das “vovós”. As casas das “tias” e das “vovós” eram grandes pontos de encontro daquelas comunidades. Durante essas festas, ocorria a celebração de rituais religiosos, o oferecimento de variados pratos de comida e a execução de diferentes manifestações musicais. Usualmente, aqueles que frequentavam essas festam diziam que frequentavam o “samba” na casa da vovó (ou da titia). Dessa maneira, antes de surgir a música “samba” o termo era sinônimo de festa. Outros pesquisadores do assunto ainda relatam que o termo “samba” tem origem no termo africano “semba”, que era comumente utilizado para designar um tipo de dança onde os dançarinos aproximam seus ventres fazendo uma “umbigada”. Segundo o dicionário Aurélio o termo originário ainda significa “estar animado” ou “pular de alegria”.

Continuar lendo

Gumboot Dance: o idioma oficial nas minas de Babel


Inspirado em ritmo de resistência dos negros sul-africanos, grupo brasileiro apresenta-se na mostra “Estéticas da Periferia”, disposto a pesquisar e difundir nova técnica

Por Juliane Cintra, de Diálogos do Sul

Vocês se lembram daquela antiga história da Torre de Babel? Essa é uma narrativa que remonta os tempos bíblicos e a vontade dos homens de se igualarem a Deus, a partir da ideia da construção de uma grande torre que pudesse chegar ao céu. Irado, como resposta, Deus puniu a pretensão dos homens com a confusão vinda das inúmeras formas de falar e entender.

Só que o homem – nem bobo, nem nada – não se deu por vencido e encontrou lindas e variadas formas de expressão ao longo da história. Uma delas é o Gumboot, criado nas minas de ouro e diamantes da África do Sul no século XIX.

Continuar lendo

Direito ao corpo e ao livre pensar

A liberdade de manifestação valeria apenas para as Marchas da Maconha, ou é direito fundamental de todxs, inclusive para manifestar discordância do atual estado de coisas?

No dia 23 de novembro último, o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou por unanimidade que é livre a manifestação em defesa da legalização das drogas, referindo-se às marchas da maconha que foram proibidas por juízes estaduais e duramente reprimidas pela polícia militar. Em junho, o STF já havia decidido pela liberdade de manifestação, declarando que a marcha da maconha não constitui apologia — crime previsto no Código Penal. Agora, a corte julgou a causa tendo em vista a Lei de Drogas.

Não há surpresas na decisão acertada do STF. Afinal, a Constituição Federal prevê em seu artigo 5º o direito à livre manifestação e reunião, “sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização”. É próprio da democracia que as questões políticas e as leis vigentes sejam discutidas publicamente pela sociedade e, eventualmente, alteradas. Se assim não fosse, não haveria liberdade alguma, pois pensamentos divergentes do atual estado de coisas estariam proibidos.

Porém, em leitura desatenta das notícias que se referiam ao julgamento, me deparei com uma frase inquietante do excelentíssimo senhor Gilmar Dantas (ops! Gilmar Mendes). O ministro da suprema corte afirmou que, se fosse um ato em defesa da descriminalização do aborto, isso seria um perigo, um desrespeito aos direitos humanos [sic], e que a liberdade de reunião reafirmada pela corte seria exclusiva de manifestações em prol da legalização de drogas, não devendo se estender a manifestações pela descriminalização de outras condutas.

Continuar lendo

Wirikuta: onde o sol veio ao mundo

No deserto mexicano, os huicholes lutam para que a mineração industrial não destrua a montanha mais sagrada de sua tradição espiritual

O vídeo acima são apenas cinco minutos de mais um episódio da história que se repete em toda América Latina: a luta de povos indígenas por preservar sua identidade e seus territórios contra a expansão das atividades extrativistas na região. A bola da vez são os huicholes — ou wixáritari, como se referem a si mesmos, povo que vive no norte do México.

Uma companhia mineradora do Canadá chamada First Majestic Silver está prestes dar início à extração de prata e zinco numa região chamada Wirikuta. Para começar os trabalhos, somente necessita o sinal verde do governo — a concessão já foi arrematada. Os planos da empresa são explodir o Cerro Quemado, a montanha mais sagrada dos huicholes e o principal destino de suas peregrinações religiosas. Ali, de acordo com a tradição, o sol apareceu pela primeira vez e espalhou a vida pela terra.

Continuar lendo

Comissão da Meia Verdade

Após aprovação no Congresso, lei que institui a Comissão Nacional da Verdade será sancionada pela presidenta Dilma nesta sexta-feira. Ex-presos políticos reivindicam a indicação de nomes para compor a Comissão.

Após ser aprovada pela Câmara no dia 21 de outubro e pelo Senado no dia 26, a lei que cria a Comissão da Verdade deve ser sancionada pela presidenta Dilma Roussef nesta sexta-feira, 18, em Brasília. A Comissão terá o papel de apurar violações aos direitos humanos pela ditadura militar. Durante as investigações, o grupo poderá requisitar informações a órgãos públicos, convocar testemunhas, realizar audiências públicas e solicitar perícias. O grupo não terá poderes para julgar e punir diretamente agentes da ditadura, mas pode subsidiar o Ministério Público para que este ofereça denúncias contra os autores dos crimes. As investigações incluem a apuração de autoria de crimes como tortura, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres.

A comissão, que será composta por sete membros indicados por Dilma Rousseff, foi proposta no 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), assinado pelo ex-presidente Lula em dezembro de 2009, porém a proposta original difere substancialmente do texto apresentado ao Congresso pela Casa Civil, na época sob o comando de Dilma. Sem os termos “repressão política” e “justiça”, a Comissão da Verdade foi aprovada pelo Congresso em regime de urgência (sem ser discutida em comissões), em aparente acordo com os militares.

Nesta quinta-feira, integrantes do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça – composto por ex-presos políticos e seus familiares, protocolaram, junto ao escritório regional da Secretaria Especial de Direitos Humanos, em São Paulo, documento com a indicação de sete nomes, representantes de movimentos sociais e sociedade civil organizada, para apreciação da Presidência da República. O documento ressalta que no processo de criação da comissão, as emendas propostas por entidades da sociedade civil e grupos de direitos humanos foram rejeitadas, e esta relação de nomes é uma tentativa de influenciar a presidenta, “de modo que, ao menos neste momento final do processo de criação desse órgão público, possam os movimentos sociais ser ouvidos“. Continuar lendo

Comitê Popular da Copa: Semana de Mobilização em SP

Frente às violações de direitos humanos, o Comitê Popular da Copa leva o debate às ruas durante semana de mobilizações em São Paulo

Faltam 968 dias para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. A esta altura, é comum ouvir pelas esquinas da cidade pessoas perguntando-se como será o evento, se o país estará preparado para receber os jogos e os turistas, se a infraestrutura e os estádios ficarão prontos a tempo. Em outras esquinas há ainda os que se perguntam quem vai pagar a conta e a que custo se realizará a festa do futebol, para quem a Copa vai trazer benefícios e quais serão seus legados para as cidades.

Entre uma esquina e outra, organizações populares, movimentos sociais, torcedores, pesquisadores e habitantes, que já sentem os efeitos dos megaprojetos, têm se organizado para discutir com a sociedade os impactos urbanos e socioambientais da Copa-2014 no Brasil. Nas 12 cidades-sede, Comitês Populares foram formados com o objetivo de questionar a maneira como a preparação para este evento tem legitimado uma série de violações de direitos humanos da população, como remoções forçadas de moradores, restrição e perseguição a trabalhadores informais do comércio ambulante, falta de transparência nos projetos e contas públicas, ausência de participação popular e as diversas ameaças de suspensão de direitos até então consolidados na legislação do país.

Em São Paulo, cidade que acaba de ser anunciada pela FIFA como sede da abertura da Copa, o Comitê Popular local preparou uma série de atos e debates públicos para a semana de 23 a 29 de outubro, e pretende levar às ruas o debate sobre os impactos e violações que tem se multiplicado.

Continuar lendo

No Rio, o Laboratório de Cartografias Insurgentes

Outro mapa do Rio de Janeiro

Numa cidade onde os Jogos Olímpicos são pretexto para remoções forçadas, movimentos e ativistas desenham os mapas da resistência

A partir da constatação de que as intervenções urbanas visando os megaeventos – Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016 – têm reorganizado a cidade e produzido efeitos como a remoção forçada e o despejo de milhares de pessoas, realizou-se em setembro último, no Morro da Conceição, Rio de Janeiro, o Laboratório de Cartografias Insurgentes, organizado pelo coletivo IP:// (Interface Pública), com o objetivo de imaginar e produzir mapas críticos ligados à ocupação do território urbano e às lutas que o moldam.

A proposta do projeto é dialogar com a população local e todos os interessados, expondo e problematizando essas mudanças, para discutir coletivamente alternativas. O encontro teve como centro o debate e a experimentação sobre as reconfigurações da cidade e as dinâmicas de resistência, nos campos da política, estética e cultura. A ideia e permitir que as violações de direitos, embora consideradas e analisadas a sério, fossem mapeadas a partir dos focos de resistência, como uma correlação de forças em disputa, de modo a reformular criticamente o território a partir de suas contradições.

Na semana que antecedeu o encontro, houve uma série de oficinas e debates preparatórios no chamado “Pré-Lab”. Ele incluiu uma visita à zona de intervenção do projeto Porto Maravilha, chamada de deriva maravilha, com o fim de “desorientar o participante, que deixa-se levar pelas solicitações do terreno”. O Pre-Lab promoveu também uma oficina de guerrilha de comunicação, animada, entre outros, por participantes dos movimentos 15M e Democracia Real Ya (Espanha), com foco nas possibilidades e ferramentas de mobilização social via internet.

Continuar lendo

Bolívia: Tipnis no meio do caminho

“Acredito que o Tipnis é a definição do presente e do futuro, não apenas da Bolívia, mas de uma grande parte dos povos que lutam para que a humanidade não se destrua”

Talvez a melhor maneira de apresentar Oscar Oliveira seja lembrando que, em 2000, ele foi um dos articuladores da Guerra da Água. No episódio, indígenas, camponeses e trabalhadores urbanos conseguiram desprivatizar o serviço de abastecimento de água na cidade de Cochabamba. Junto com a Guerra do Gás, a Guerra da Água abalou a política boliviana no começo do século e mudou a correlação de forças sociais do país. Como consequência, anos depois, Evo Morales seria eleito presidente.

Naquele então, Oscar, como ele mesmo diz, era apenas um operário. Mas, depois de lutar contra a ganância empresarial sobre um recurso que, acredita, é um direito humano, Oscar passou a ser também um lutador social. Já participou de debates ao lado do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no Fórum Social Mundial de 2005, e foi convidado pelo presidente Evo Morales para assumir o Ministério da Água. Negou-se, preferindo continuar na militância popular. Pode ser que já tinha previsto o que aconteceria mais para frente.

Então apoiado e idolatrado pela população, hoje Evo Morales se encontra numa delicada situação política. O motivo é a estrada que o líder aymará quer construir sobre a Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis). Oscar Oliveira está participando da resistência — que ganhou adeptos após a violenta repressão da polícia contra a marcha indígena que se desloca à capital, La Paz — e conversou conosco a respeito. Em poucas palavras, ele toca nos pontos nevrálgicos que rodeiam o projeto: IIRSA, cocaleros, destruição ambiental e modelos de desenvolvimento. Sem esquecer, claro, a incoerência do discurso oficial.

Continuar lendo