Quatro textos para celebrar Antonio Candido

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Aos 98, o grande crítico, ensaísta e pensador político sensível se foi. Em três artigos e uma entrevista publicados por “Outras Palavras”, pistas para compreender a relevância crucial de sua figura e suas ideias

O caráter da repressão, segundo Antonio Candido
Há quase cinquenta anos, grande crítico apoiava-se em Kafka, Dostoievski e no cinema para dizer: instituição policial “já não tem necessidade de motivos, mas apenas de estímulos”…
Por Antônio Cândido
[Publicado em “Opinião”, em janeiro de 1972, e republicado em Outras Palavras, em 8/9/2016

Provocações de um socialista antropofágico
Aos 93, Antonio Candido reafirma sua concepção de crítica literária e utopia política. Para ele, crítica ao capitalismo está viva, é plural e humanizou o mundo.
Entrevista a Joana Tavares, no Brasil de Fato | Outras Mídias
[Publicado em 10/5/2013]

Oswald de Andrade visto por Antonio Candido
Antropofagia era “estratégia para construir não apenas a sua visão, mas um outro mundo — o das utopias que [ele] sonhou com base no matriarcado”
Por Antonio Candido, em texto recolhido e comentado por Theotônio de Paiva
[Publicado em 12/4/2014]

Rolezinho: diálogo com as ideias de Antonio Candido
Direito à fantasia, equilíbrio social e desigualdade. Como alguns dos temas estudados pelo mestre ajudariam a compreender novo fenômeno das periferias
Por Max Gimenes
[Publicado em 8/2/2014]

TEXTO-FIM

Manifesto pede libertação dos presos políticos do MTST

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Os três presos políticos, cujo “crime” é participar de manifestação pelos direitos sociais / Foto de Ray Rodrigues (Mídia NINJA)

Juristas, intelectuais, artistas afirmam: ao manter Juraci, Ricardo e Luciano encarcerados, Justiça de SP amplia “escalada do Estado de Exceção no país”

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) lançou Manifesto com apoio de Artistas, intelectuais e juristas — incluindo dois ex-Ministros da Justiça — em apoio a libertação dos três presos da greve geral de 28/04, que são membros do MTST.

Os advogados do MTST entraram com pedido de soltura dos três presos em 3 de Maio. Juraci, Ricardo e Luciano, foram transferidos para a penitenciária do Tremembé.

Abaixo o manifesto e o primeiro rol de assinaturas dos apoiadores:

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Como foi a tarde de terror na USP

Duas professoras vítimas da brutalidade policial descrevem as provocações e violência gratuitas da PM. Elas frisam: não basta culpar soldados; repressão é responsabilidade da reitoria

Por Priscila Figueiredo e Paula Marcelino

Que fique claro: o primeiro ataque foi da polícia. O que os estudantes, funcionários técnico-administrativos e professores enfrentaram ontem (7/3) na frente de uma reitoria completamente cercada por grades e polícia — foi brutal.

Cremos que não era claro para ninguém o que exatamente ia acontecer ali. Mas o fato de a reitoria ter sido toda cercada por grades e ter apenas duas entradas transformou o ingresso  nela em algo simplesmente impossível.

Palavras de ordem foram ditas, de maneira mais ou menos espontânea, desordenada, para o reitor e para a polícia: Fora Zago! Fora PM! Essa foi a “provocação”…

A polícia fez diversas demonstrações de terrorismo. Somos testemunhas de que a tropa de choque começou a atirar bombas sem que houvesse nenhuma das condições extremas que havia pouco alguns policiais —  um dos quais viemos a saber depois que era um dos comandantes  — tinham apresentado como situações nas quais eles poderiam agir com alguma violência. Eles conversavam com conselheiros do CO, André Singer, Eugenio Bucci, Paulo Martins e Alexandre Magrão, e com Tercio Redondo, os quais tinham ido até eles para pedir que não agissem de forma violenta. Estando perto, perguntei o que era uma situação extrema. Jogar pedras. Depois de uns segundos, a segunda condição aparecia: ora, desacato. O que o senhor considera desacato? Se um grupo de manifestantes furar o bloqueio e tentar impedir a reunião — essa seria uma condição extrema? Invasão, você quer dizer? Invasão é crime.

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Em clima de golpe, PM invade escolas paulistas

Estudantes — muitos deles menores de idade — arrastados e presos. Velha mídia oculta repressão. Nova assembleia e ato de solidariedade convocados para esta tarde

Pela Redação | Vídeo de Martha Kiss Perrone

Os sinais de que pode haver, sob o governo ilegítimo de Michel Temer, recrudescimento da repressão aos movimentos sociais tornaram-se mais nítidos esta manhã. Agindo contra a lei, destacamentos da tropa de choque da Polícia Militar de São Paulo invadiram nas primeiras horas da manhã quatro prédios públicos ocupados por estudantes em luta por melhores condições de ensino. Fizeram-no sem mandado judicial. Dezenas de jovens foram arrastados e conduzidos a distritos policiais. Aparentemente, muitos deles ainda estão detidos.

Após ação policial, ônibus-camburão conduz estudantes a distrito policial

Após ação policial, ônibus-camburão conduz estudantes a distrito policial

Para justificar a operação ilegal, o governo paulista, dirigido por Geraldo Alckmin (PSDB) serviu-se de um artifício. Encomendou à Procuradoria Geral do Estado um parecer segundo o qual as secretarias de Estado já não precisam requerer autorização judicial para desocupar prédios públicos. Segundo o advogado Hugo Albuquerque, tal interpretação fere os princípios constitucionais de Legalidade e, complementarmente, os da Liberdade de Expressão e Manifestação, Direito à Educação e Proteção à Criança e Adolescente.

A ação ilegal contou com amparo da velha mídia. Às 2h da madrugada, a Folha de S.Paulo divulgou, em seu site, a notícia da emissão do parecer da Procuradoria, sem mencionar sua ilegalidade. Até o momento de fechamento deste texto, 12h35, nenhum dos jornais mais vendidos do país estampava, em seus sites, notícia sobre a invasão policial.

Estudantes e pais protestam em delegacia policial de S.Paulo e prometem resistir

Estudantes e pais protestam em delegacia policial de S.Paulo e prometem resistir

No vídeo acima, duas estudantes detidas relatam, em detalhes, a operação repressiva. Os quatro prédios públicos invadidos foram a Escola Técnica Estadual de S.Paulo (Etesp) e as delegacias de ensino do Centro Oeste e Norte da capital e da cidade de Guarulhos. Os estudantes foram conduzidos aos 3º, 7º, 23º distritos policiais de S.Paulo e ao 1º de Guarulhos.

Libertados, estudantes de Guarulhos protestam diante do 1º D.P. da cidade

Libertados, estudantes de Guarulhos protestam diante do 1º D.P. da cidade

A solidariedade e a reação já começaram. Estudantes de diversas escolas marcaram, para as 14h de hoje, assembleia geral na Casa do Povo — Rua Três Rios, 252, Bom Retiro (metrô Tiradentes). Mas tarde, a partir das 17h, haverá manifestação de solidariedade na Praça do Ciclista — esquina entre avenidas Paulista e Consolação, Centro.

SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade. Continuar lendo

Um domingo contra Alckmin

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Em Outras Palavras, dia 31/8, um iniciativa para afastar de São Paulo o conservadorismo e a repressão

A nova casa de Outras Palavras pode ser também um local para tramar futuros. Neste domingo (31/8), convidamos grupos e pessoas espantados com o alto risco de mais quatro anos de um governo autoritário em São Paulo a buscar saídas. Nâo se trata de apoiar candidatos, mas de afastar a pasmaceira. Que podemos fazer para mudar o rumo das eleições estaduais? São Paulo está fadado a ser apático, individualista e segregador? Ou podemos fortalecer gente disposta a fazer fluir a liberdade e projetos de justiça, compartilhamento e nova democracia?

A partir das 17h, traga seus desejos, ideias e abertura para ouvir e debater. Se der vontade, acrescente algo de beber ou comer. São Paulo não pode reduzir-se a volume morto. Que os vivos apareçam!

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – a 50m. da Brigadeiro Luís Antonio e um quilômetro do Metrô São Joaquim (mapa)

 

Luiz Eduardo Soares sintetiza absurdo das prisões de manifestantes

Uma cena comum nas ações do BOPE

Uma cena comum nas ações do BOPE

“Se Justiça, Ministério Público e Polícia Civil agissem com equidade, governador do Rio estaria preso, acusado de formação de quadrilha”

Por Luiz Eduardo Soares*

“Homens de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”. Essa estrofe foi cantada à luz do dia, diante de inúmeras testemunhas, nas ruas da cidade, por policiais militares uniformizados, comandados por oficial. Se a Justiça, o MP e a Polícia Civil agissem com equidade, aplicando às equipes do BOPE a mesma chave de interpretação que aplicaram às conversas telefônicas entre manifestantes, os membros do BOPE e seus superiores, inclusive o secretário de segurança e o Governador, estariam presos, acusados de formação de quadrilha armada.

Como, além de anunciar que o fariam, equipes do BOPE efetivamente mataram centenas de pessoas nas favelas, cumprindo a mórbida ameaça, a condenação por homicídio qualificado seria líquida e certa. Por que são diferentes, os pesos e as medidas?


Luiz Eduardo Soares é um antropólogocientista político e escritor. Considerado um dos maiores especialistas em segurança pública do país, foi Secretário Nacional de Segurança Pública no governo Lula, afastado por pressões políticas. É co-autor I Elite da Tropa e Elite da Tropa 2. Este comentário foi pastado em sua página do Facebook

Repressão política em SP: lançada campanha “Liberdade para Hideki”

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Organizações denunciam flagrante forjado e encarceramento ilegal. Site traz testemunhos da prisão arbitrária, história de vida do ativista e manifesto pelo direito de expressão

O site | O caso | Quem é Hideki | Solidariedade | Manifesto | Vídeo

Fábio Hideki Harano foi preso em São Paulo, no dia 23/06/2014, após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”. Voltando para casa ao final do ato, Hideki foi detido por agentes à paisana do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e revistado na presença de várias pessoas. As testemunhas declararam não haver nenhum objeto ilegal em seus pertences naquele momento. Apesar disso, ele é acusado do crime inafiançável de portar um artefato explosivo. Atualmente, ele cumpre prisão preventiva na Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé – SP, acusado por quatro artigos do Código Penal – entre eles associação criminosa – e um artigo do Estatuto do Desarmamento.

Padre Júlio Lancelotti acompanhou o momento da revista policial de perto e declara que entre os pertences de Hideki não havia nada que pudesse ser confundido com objeto explosivo. Para ele, que é do Centro de Defesa dos Direitos Humanos “Padre Ezequiel Ramin” e da Arquidiocese de São Paulo, esta é uma acusação baseada em flagrante forjado. Em declaração à imprensa, o DEIC afirma que esta foi a primeira ação da operação “black bloc”, que busca identificar as lideranças do que a polícia nomeia como “organização criminosa”. Continuar lendo

Junho e depois: como a PM reprimiu e provocou

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Site interativo recupera — em documentos, entrevistas, imagens e infográficos — comportamento violento e frequentemente ilegal das ações policiais contra protestos de 2013

Da Artigo 19

Em 2/6, quase um ano depois de o Brasil ter sido palco da maior onda de manifestações das últimas décadas – as chamadas “jornadas de junho” –, a ONG Artigo19 lançou o site “Protestos no Brasil 2013”, uma versão digital do relatório homônimo, que busca fazer um registro sobre a série de violações ocorridas durante os protestos de todo o ano passado. O site traz números, infográficos, análises de leis e depoimentos de vítimas de violência e especialistas, além de críticas a abusos na atuação do Estado. Baseado em notícias da imprensa, o relatório, que serve de base para o site, contabilizou 696 protestos no país durante 2013, registrando 2.608 detidos e 8 mortes em circunstâncias relacionadas aos protestos. A análise também computou 117 jornalistas feridos e/ou agredidos, e outros 10 que foram detidos.

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“Aqui mora um torturador”. Até quando?

Em vídeo, escracho diante da casa do Capitão Ubirajara, em 1º de abril. Acusado matar e torturar, “especializando-se” em mulheres, é protegido pela Lei de Anistia e pelo STF 

Pelo Coletivo Substância

Primeiro de abril, 50 anos após o golpe militar, o Levante Popular da Juventude escrachou Aparecido Laertes Calandra, mais conhecido como Capitão Ubirajara. Ex-delegado da polícia civil, Ubirajara trabalhou como assessor jurídico no DOI-CODI, um dos mais temidos centros de repressão política do regime militar, onde participou de diversas sessões de tortura.

Entre suas vítimas estão Darci Miyaki, Maria Amélia de Almeida Teles, Gilberto Natalini, Sérgio Gomes, Nilmário Miranda, Arthur Scavone e Adriano Diogo. Este último, atualmente deputado estadual e presidente da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, relatou que sua principal especialidade era a tortura de mulheres.

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