A lista de Janot e a tempestade política

Em Brasília, denúncia-bomba vai expor corrupção do sistema político. Nas ruas, prepara-se a retomada das lutas sociais. Como ligar os dois pontos?

Por Antonio Martins


ATUALIZAÇÃO:
No final da tarde desta terça-feira, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao STF a abertura de 83 inquéritos, para investigar dezenas de políticos implicados nas delações da Odebrecht. Mas ainda não se conhece os nomes que compõem a segunda “lista de Janot”. O pedido de quebra de sigilo sobre os inquéritos está nas mãos do ministro Edson Fachin.

Duas tempestades estão se armando no horizonte político do Brasil neste exato momento, e vão desabar nos próximos dias. Juntas, elas têm força para colocar o governo e os conservadores na defensiva, e varrer o ar pesado dos retrocessos, que contamina o ambiente do país há onze meses. Mas sua potência pode ser desperdiçada, porque a esquerda – e também os chamados “novos movimentos” – permanecem perplexos, sem narrativa e sem propostas para sair da crise.

A primeira tempestade é a nova “lista de Janot”, que o Procurador Geral da República publicará a qualquer momento. Ela é fruto da Lava Jato e das delações dos executivos da Odebrecht. Apesar dos partidarismos da operação, que em sua fase inicial perseguiu apenas políticos de esquerda, dessa vez não será possível tapar o sol com a peneira. O sistema político brasileiro – este mesmo que avança sobre os direitos sociais – está podre. 78 dirigentes da maior empreiteira do país prestaram 950 depoimentos. Contaram, segundo O Globo, que pelo 170 deputados, senadores e governadores receberam dinheiro em troca de favores à mega-construtora.

Não se sabe ainda quais serão denunciados por Rodrigo Janot, mas tudo indica que será impossível omitir o núcleo duro do governo Temer e os cacique do PSDB. Gente como Aécio Neves, que a Odebrecht alcunhou de “Mineirinho”; o ministro Eliseu Padilha (o “Primo”), o senador José Serra (o “Careca”), Geddel Vieira Lima (o “Babel”), Geraldo Alckmin (o “Santo”). O próprio Temer foi citado 43 vezes nas delações mas não é presença certa na lista, porque a Constituição não permite processar o presidente por crimes cometidos antes de seu mandato.

A chegada da tempestade já colocou Brasília à beira de um ataque de nervos. Há alvoroço. Multiplicam-se as reuniões. Temer e o ministro Gilmar Mendes, do STF encontraram-se secretamente no domingo, relata “O Estado de S.Paulo”. Horas antes, no mesmo domingo, Gilmar havia almoçado com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para discutir uma mudança de emergência no sistema eleitoral. Sob pressão intensa, talvez a casta política tente prometer que se auto-reformará. Alguém acredita?

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A segunda tempestade é a mobilização popular. Estão crescendo, em todo o país, os sinais de que serão muito intensos, nesta quarta-feira, as greves e protestos contra o desmonte da Previdência e a lei que permite a terceirização selvagem do trabalho. A mídia esconde ou distorce abertamente os fatos. Nesta matéria da Folha de S.Paulo, a provável grave dos metrovíaros e condutores de ônibus é tratada como “transtorno”.

Mas tudo indica que, pela primeira vez em onze meses, os movimentos sociais conseguiram fôlego para expor as consequências da agenda de retrocessos do governo. Pode ocorrer amanhã a maior mobilização de trabalhadores dos últimos anos. Categorias como os professores, os operadores dos transportes públicos e os bancários prometem parar. Os sem-teto, os sem-terra e outros movimentos prometem se somar aos protestos, que ocorrerão em dezenas de cidades.

O desconforto vai muito além dos sindicatos. Está se espalhando rapidamente a compreensão de que a chamada “reforma” da Previdência é um ataque aos direitos da maioria – e em especial, dos mais pobres — em favor do sistema financeiro. Os deputados sentem-se pressionados. Se a votação fosse hoje, o governo provavelmente sofreria uma derrota dramática.

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Qual a legitimidade do atual sistema político? Um Congresso em que centenas de deputados e senadores estão gravemente implicados em denúncias de recebimento de propina pode investir contra os direitos da maioria? Não é hora de exigir uma reforma política profunda, de interromper a agenda de retrocessos, de reabrir o debate sobre o futuro do país?

Infelizmente, esta pauta ainda não é abraçada por quem poderia sustentá-la. A esquerda histórica continua capturada pela institucionalidade. Teme questionar um sistema político onde também encontra espaço e abrigo. Sonha com 2018. Já os chamados “novos movimentos”, que se consideram herdeiros de junho de 2013, parecem se satisfazer com a condição cômoda de críticos de tudo, eternamente reativos, sem assumir a responsabilidade de apresentar alternativas.

Ainda é tempo de rever estas posturas, mas é preciso agir rápido. A História ensina: é em vácuos como este, quando cresce o sentimento de injustiça e ninguém oferece uma saída, que germinam o rancor e o autoritarismo radical.

TEXTO-FIM

Brasil: ainda estão rolando os dados

Passadas as eleições, toda a velha mídia diz que uma página foi virada, com a vitória dos liberais e conservadores. Veja o que há por trás desta análise apressada

Texto: Antonio Martins | Montagem: Gabriela Leite

Assim que as urnas se fecharam, neste domingo, começou uma operação político-midiática para afirmar que uma página da história do país foi virada. A ampla vitória de candidatos ligados ao governo, na maior parte dos municípios, significaria que já não se pode falar em golpe. Os eleitores teriam confirmado, nas urnas, sua adesão a uma maré liberal-conservadora. Ela é expressa nas importantes vitórias do PSDB e na emergência de figuras como o pastor Crivella, da Igreja Universal. Após as eleições – e aqui está o pulo do gato — deveríamos aceitar como inevitáveis as contra-reformas propostas pelo governo Temer e pelo empresariado: PEC-241 (PEC-55 no Senado). Redução dos direitos previdenciários. Ataque à legislação trabalhista. Todo este raciocínio é manco e interesseiro (– como você verá no começo da tarde).

De que a esquerda institucional está abalada, não há dúvidas. De que será preciso um longo e árduo trabalho de construção de novo pensamento pós-capitalista, também não. A ele nos dedicaremos, com empenho e criatividade, nos próximos anos. Mas por trás da narrativa que desenha uma irresistível onda conservadora há um truque banal. Trata-se de encerrar o jogo quando o placar está favorável ao narrador – mas a partida está apenas começando. Continuar lendo

Vem aí nova ditadura?

Alguns comentaristas estão vendo como inevitável uma onda de repressão brutal contra a esquerda, após as eleições. Pensar assim é entregar os pontos, antes da partida começar

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

[Leia a seguir a versão textual do comentário] Continuar lendo

Por que o “Fora, Temer!” já não basta (2)

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Afastamento do presidente não reconduziria Dilma ao posto, nem restauraria vontade das urnas. Terremoto provocado pela Lava Jato vai muito além do golpe. É nesse cenário que precisamos atuar

Por Antonio Martins


TEXTO EM CONSTRUÇÃO
O rascunho a seguir é a segunda reflexão para uma análise de mais fôlego sobre o cenário político atual. Contribuições e críticas são muito bem-vindas. Faça-as no espaço para comentários do post. A primeira parte pode ser lida aqui

A passagem do #NãoVaiTerGolpe ao #ForaTemer foi, a partir de 12 de maio, inevitável e quase automática. Acreditávamos que o vice havia sido o pivô da conspiração contra Dilma. Imaginávamos que seu provável desgaste produziria, quase simetricamente, um reerguimento da presidente legítima. Víamos as ações da Operação Lava Jato e da Procuradoria Geral da República (PGR) como parte de um movimento cujo objetivo essencial era derrubar a chefe de governo e reinstalar as elites no poder. À luz dos fatos mais recentes, este cálculo, segundo o qual Sérgio Moro e Rodrigo Janot eram meros coadjuvantes, não se sustenta mais. Além constatar a realidade, é preciso encarar suas consequências políticas.

Há várias semanas, a articulação Janot-Lava Jato vem demonstrando que não está alinhada ao presidente ilegítimo. A derrubada do então ministro do Planejamento, o senador Romero Jucá, serviu como primeiro sinal. Muito mais forte, porém, foi o vazamento, nesta terça-feira (7/6), do pedido, feito pelo Procurador Geral da República, de prisão dos presidentes do Senado e da Câmara, que compõem a mais alta cúpula do PMDB. A ação sinaliza que Temer e seu partido, longe de aliados, são os novos alvos centrais da PGR. Janot tem bases sólidas para tanto? Luís Nassif e Jânio de Freitas têm buscado uma resposta – sem, até agora, chegar a ela.

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A oposição ensaia um programa – e já começa a se dividir

“MEU GAROTO!” Armínio Fraga confraterniza em Nova York com o megaespeculador global George Soros. Durante a passagem do economista pelo BC, juros chegaram a 45% ao ano

Como governar um país em convulsão, após o eventual impeachment? Os planos começam a surgir – em linguagem cifrada, naturalmente…

Por Antonio Martins

Nos últimos dias, os defensores do afastamento de Dilma parecem ter resolvido suas dúvidas sobre a melhor forma de defenestrar a presidente. A opção por um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que cassaria o mandato de Dilma e Temer foi, ao menos provisoriamente, abandonada, em razão de dois motivos. É mais lenta e afastaria o PMDB. A estratégia – exposta por Fernando Henrique Cardoso em entrevista ao Estadão no domingo – é restaurar a moralidade apoiando-se em… Michel Temer e Eduardo Cunha. A velha mídia salvará as aparências. As negociações entre PSDB e PMDB avançam rápido.

Mas resta um problema a resolver: como governar o país, após o impeachment? As apostas começaram – em linguagem cifrada, para animar os mercados sem alarmar a sociedade. Vale ler, por exemplo, a entrevista que banqueiro Armínio Fraga concedeu à Folha ontem. Estreitamente ligado ao PSDB, Armínio voltou ao noticiário há seis dias, quando almoçou, horas antes de uma sessão do STF, com o ministro Gilmar Mendes e o senador José Serra. Foi presidente do Banco Central entre 1999 e 2002. No período, as taxas de juros pagas pelo Estado à aristocracia financeira chegaram a 45% ao ano.

Na entrevista, Armínio defende: a) “Orçamento base zero, desvinculado e desindexado”. Tradução: Eliminar os dispositivos constitucionais que obrigam o Estado brasileiro a destinar parcelas mínimas da arrecadação à Educação e Seguridade Social, entre outros; reduzir (sem tocar nos juros) os investimentos públicos em pelo menos R$ 30 bilhões; b) “Reformas tributária, trabalhista e previdenciária, choque de gestão, foco no investimento em infraestrutura”. Tradução: Elevar a idade mínima para aposentadoria; permitir que as leis trabalhistas sejam anuladas, em acordos “livremente” firmados entre sindicatos e empresários; e reduzir os impostos pagos pelas empresas, para atrair investimentos estrangeiros. c) “Com uma eventual troca de governo”, “retirar benefícios” [sociais] para “ao menos estancar a sangria, enquanto se aguardam eleições e uma liderança com mandato para ir mais fundo nas mudanças”. Continuar lendo

SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade. Continuar lendo

São Paulo ensina a pequenez

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Na “reorganização” das escolas do Estado, dois cacoetes das elites: decidir sem debate e oferecer às maiorias o mínimo. Mas Florestan Fernandes inspira a resistir

Por Fernanda Feijó1

O Brasil caracteriza-se por estabelecer políticas sociais de forma autoritária: sempre “de cima para baixo”. Tal fenômeno tem marcado o desenvolvimento do país desde os primórdios da República (se considerarmos que o Império era um regime autoritário em si) até os dias atuais. Podemos perceber a força desse autoritarismo quando falamos mais especificamente de políticas educacionais e dos percursos que as mesmas percorreram ao longo do último século.

Desde a década de 1930, quando a intelectualidade brasileira iniciava o processo de institucionalização das ciências sociais, já se anunciava a importância da educação formal dentro do país, ainda que naquele momento a preocupação maior fosse formar quadros para a elite dirigente do país que pudessem impulsionar o processo de modernização que se colocava em curso. No contexto de centralização política propiciada pela Revolução de 1930, a educação nacional passa, então, efetivamente a ser responsabilidade do Estado. Foi justamente nesse momento, que o Brasil ensaiou o desenvolvimento de um “pseudoestado de bem-estar”, a saber extremamente conservador e autoritário, na qual o Estado realizava reformas sem a participação da sociedade nos processos decisórios. Continuar lendo

O Brasil sob a lógica do condomínio?

 

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Christian Dunker, Maria Rita Kehl, Paulo Arantes e Vladimir Safatle debatem hoje, em S.Paulo, regressões que ameaçam reduzir país a um Fla-Flu mesquinho. “Outras Palavras” participa

E se a polarização sem diferença real, a que a sociedade brasileira parece ter recuado nos últimos meses, revelar algo mais profundo sobre a formação do país? E se, ao nos descobrirmos espectadores de um Fla-Flu político que esconde os problemas reais, ao invés de desnudá-los, pudermos reverter este destino? Outras Palavras participa esta noite, em São Paulo, de um debate em que estarão em foco estas perguntas cruciais. O psicanalista Christian Dunker lançará, na Quadra dos Bancários (próxima ao Metrô Sé — veja detalhes ao final), seu novo livro: O Brasil entre muros. Debaterão com ele os filósofos Paulo Arantes e Vladimir Safatle e a psicanalista Maria Rita Kehl. Antonio Martins, editor do site, fará a mediação.

Dunker falará sobre sua original interpretação da lógica de condomínio enquanto sintoma social do Brasil contemporâneo. Numa entrevista recente, à jornalista Eleonora de Lucena, ele afirmou: “Parece que o problema do Brasil é o PT e o PSDB. Isso é um sintoma da impossibilidade de escutar o país. A escuta é de particulares, condomínios. Mas o Brasil é muito maior do que isso”. Acrescentou: agora, “a existência é pensada entre muros. Se eu sair do meu muro, vou sair para brigar, para quebrar o muro do outro. Não é que o outro esteja fazendo algo com o qual não concordo. Ele é de uma dimensão que eu não consigo reconhecer como semelhante à minha. Por isso, aparecem palavras como petralha, metralha, idiota, louco, deficiente mental –categorias entre o moral e psiquiátrico” Continuar lendo

SP sem água, 28/10 — Passado e futuro da crise

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Como governo paulista agravou problema, ao evitar racionamento. Por que mais produtos químicos estão sendo misturados à água. Os riscos de “El Niño” produzir mega-seca, em 2015

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

O boletim de hoje está organizado em três seções: passado, presente e futuro. A gravidade da crise exige que olhemos para tudo ao mesmo tempo: o passado, para tentarmos aprender com os erros e evitar sua repetição; o presente, para tentarmos entender o que está acontecendo agora; e o futuro, para tentarmos voltar a ter água um dia. Toscamente falando, é isso. Vamos lá:

Passado:

– ONGs como a ISA e o Idec afirmam que o governo estadual e a Sabesp erraram na administração do Sistema Cantareira, mantendo inalterada a captação de água durante a seca que se abateu sobre a região na estação chuvosa, de outubro a fevereiro (http://bit.ly/1teNyfG). Além disso, as ONGs acusam o poder público de se omitir e esconder informações.

– O que seria essa omissão de informações? É preciso contar a história desde o princípio: com base na Lei de Acesso à Informação, o Idec solicitou à Sabesp em setembro a divulgação do mapa de diminuição de pressão noturna na distribuição de água. A empresa simplesmente não enviou o material requisitado. O Idec, então, acionou o MP e o Procon em 20/10 para que a Lei de Acesso à Informação fosse cumprida: o acesso ao mapa poderia mostrar aos consumidores os locais onde a diminuição de pressão poderia ocasionar problemas no abastecimento (http://bit.ly/1wkzdgs). Continuar lendo

Boletim da falta d’água em São Paulo – 27/10/14

Uma empresa que fabrica caixa d’água registrou um aumento de 50% na demanda e indústrias em outros estados agora trabalham para atender aos pedidos de São Paulo

Uma empresa que fabrica caixas d’água registrou aumento de 50% na demanda e indústrias em outros estados agora trabalham para atender aos pedidos de São Paulo

O dia em que se falou em evacuar a cidade, estimulou-se a cobiça dos fabricantes de caixas d’água e ficou nítido o espanto da mídia

Por Camila Pavanelli de Lorenzi

141028-Copo– Era uma vez um prefeito que recebeu a notícia de que a cidade que ele governava teria de ser evacuada por falta d’água. Estupefato, o prefeito indagou: cumequié? Então lhe disseram que não era nada daquilo, que estava tudo bem agora.

– O prefeito era Haddad e a cidade era São Paulo (http://bit.ly/1DTdpwL).

– Mas a notícia da evacuação de São Paulo nem nova é: há 3 dias, foi divulgado um áudio em que um diretor da Sabesp admite, meio de brincadeira, meio a sério (cabe ao leitor/ouvinte decidir qual é a parte do riso e qual a do choro), que se não chover nos últimos meses de 2014, a Sabesp dará férias coletivas para os habitantes de São Paulo (http://bit.ly/1wl1O8O).

– A única novidade na notícia de hoje, então, é que a “brincadeira séria” do diretor da Sabesp saiu da sala de reuniões da empresa e chegou ao gabinete de Haddad.

Seguem outras notícias de hoje, ainda na linha editorial “implodindo os limites entre comédia e tragédia”:

– Enquanto uns choram, outros vendem lenço: uma empresa que fabrica caixa d’água registrou um aumento de 50% na demanda (quando exatamente? a matéria não diz), e fábricas em outros estados agora trabalham para atender aos pedidos de São Paulo ‪#‎SPLocomotivaDoBrasilFaçaChuvaOuFaçaSeca‬ (http://bit.ly/1tdNZqC);

– A página do Facebook da Prefeitura de São José dos Campos aproveitou que estava chovendo para pedir aos amigos internautas que guardassem uma aguinha de recordação. A postagem foi apagada após ter sido considerada “tendenciosa” e ter “exaltado os ânimos” dos amigos internautas. O prefeito da cidade é do PT (http://bit.ly/1yFYK52);

– Enquanto isso, parte da nossa imprensa continua abismada que a chuva não vem colaborando: “Nem mesmo a chuva de média intensidade ocorrida ontem (26) foi suficiente para conter a queda gradual que se observa do nível de água dos reservatórios da Sabesp” (http://bit.ly/ZVKU2f – ver postagem de 27/10, 10:57);

– É compreensível: que ponha a mão no fogo quem nunca achou que iria aprender inglês em duas semanas, emagrecer em cinco dias e amarrar o grande amor em três. Perto desses ambiciosos projetos, salvar o Sistema Cantareira com a chuvinha do fim de semana até que soa modesto.

E esse foi o boletim de hoje. Pode entrar em pânico que amanhã tem mais.


* Camila Pavanelli de Lorenzi criou o blog “Recordar, repetir e elaborar” para fazer da lição freudiana seu modo de escrever sobre política, culinária, sobre sua avó e seus amores — tudo isso sem perder de vista que o mundo todo é feito de relações de poder e afetos. Espanta-se com a passividade de São Paulo, antiga “locomotiva do país” diante da reaparição de um problema que fora resolvido há duzentos anos. Para lançar o alerta, criou, no Tumblr este “Boletim da Falta d’Água em São Paulo”, que redige selecionando e reinterpretando notícias publicadas nos jornais. As edições anteriores do boletim podem ser lidas a seguir.

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