Europa: a curiosa exceção portuguesa

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os "socialistas" franceses aprenderão algo?

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os “socialistas” franceses aprenderão algo?

Um governo à esquerda rejeita as políticas de “austeridade”, amplia seu apoio popular e atrai a atenção dos Partidos “Socialistas” da França e Alemanha. Por que?

Dois pesos pesados da família europeia de partidos “socialistas” prestaram, nos últimos dias, homenagens ao PS português a ao primeiro ministro do país, Antonio Costa. Primeiro, foi a vez do francês Benoit Hamon, que disputará em abril a presidência de seu país. “Fazer minha primeira viagem política a Lisboa foi uma decisão política”, disse ele: “é um país governado pela esquerda, apoiado por uma frente de esquerda, e que abandonou as políticas de ‘austeridade'”. Dias depois, Hamon foi seguido pelo alemão Martin Schulz, que liderará o Partido Social Democrata (SPD) nas eleições parlamentares para formar novo governo, em setembro. Costa é “um excelente amigo”, afirmou, sugerindo que considera a experiência portuguesa uma eventual alternativa à “grande coalizão” que o SPD forma hoje com os conservadores de Angela Merkel. É instrutivo examinar as causas do charme português.

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TEXTO-FIM

A ONU adverte: “austeridade” faz mal às crianças

Organização Internacional do Trabalho divulga relatório que revela: redução dos direitos sociais está afetando combate à exploração infantil

Por Daniela Frabasile

Neste 12/6, dia internacional do combate ao trabalho infantil, a Organização Internacional do Trabalho (OIT, uma agência da ONU) lançou um alerta. A crise econômica, e em especial as políticas de ataque aos direitos sociais desencadeadas em várias partes do mundo, estão prejudicando o combate à exploração infantil. Na Espanha, um dos países mais atolados em tais políticas, o diretor da OIT, Joaquín Nieto disparou: “em momentos de crise, se deve manter fortes sistemas de proteção social”. Para ele, as mal-chamadas medidas de “austeridade” implicam na “redução dos mecanismos de proteção social; portanto, os mais vulneráveis, como a infância, são negligenciados”. Para a OIT, os cortes nas políticas sociais terão “consequências irreparáveis”.

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Protestos: Europa volta às ruas contra oligarquia financeira

Manifestações na Grécia, Espanha, Bélgica e Portugal. União Europeia exige novos sacrifícios. Em Atenas, partidos no poder não querem eleições

A onda de grandes protestos sociais que percorreu boa parte da Europa em 2011 deu sinais de ressurgir nesta sexta-feira (10/2). Uma greve geral, que prossegue hoje, parou a Grécia e provocou os primeiros sinais de divisão no governo do primeiro-ministro não-eleito, Lucas Papademos. Centenas de participantes do movimento 15-M manifestaram-se na Puerta del Sol, em Madri, horas depois de o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy anunciar um decreto-lei que facilita demissões e permite rebaixas de salários. Em Lisboa, as centrais sindicais convocaram uma grande marcha para esta tarde. Um curioso enfrentamento entre bombeiros (nas ruas) e policiais marcou a tarde de ontem em Bruxelas. Há algo em comum, entre todas as mobilizações. Elas enfrentam novas tentativas de cortar direitos sociais para preservar os interesses da oligarquia financeira –uma prática que na União Europeia (UE) parece não ter fim, a assume dimensões cada vez mais dramáticas.

O caso mais extremo é, mais uma vez, o da Grécia. Na manhã de sexta-feira, uma reunião extraordinária de governo, que durou cinco horas, terminou com o anúncio de um corte de 22% no salário mínimo, demissão de mais 15 mil servidores públicos e redução suplementar das aposentadorias.

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Espanha: crônica de um país devastado

Muito rapidamente, políticas de “austeridade” multiplicaram desemprego e pobreza. Ninguém desafia mercados – exceto “indignados”, que enfrentarão novos desafios em 2012

Por Pep Valenzuela

Não me lembro de momento nenhum da minha vida em que existisse unanimidade tão grande quanto a dos prognósticos sobre a economia no Estado espanhol. O chefe de Estado, Rei Juan Carlos; o novo presidente do governo espanhol; as lideranças de todos os partidos (sejam de esquerda ou direita; as lideranças sindicais dos trabalhadores e dos empresários; os dirigentes do FMI, do Banco Central Europeu (BCE) e da Comissão Europeia; assim como os pesquisadores da OCDE e dos distintos institutos públicos ou privados de pesquisa econômica mundo afora — todo mundo, enfim, garante: “a situação da Europa e da Espanha, já muito ruim, vai piorar!” E, ainda, “não há como saber quando vai recomeçar a recuperação do crescimento”.

Para além de discursos e declarações, a sociedade sabe que todos têm razão. Está na hora de viver na carne o desemprego, sem subsídio algum; e, pior ainda, sem perspectiva real de arrumar sequer algum bico, para ir em frente. Há seis meses, o secretário de Trabalho do governo catalão declarava para um jornal de Barcelona que “50% dos atuais desempregados não vão conseguir mais achar trabalho”.

O senhor secretário referia-se aos desempregados da Catalunha, se bem que há sobrados motivos para assegurar que essa afirmação serve também para o conjunto do Estado espanhol. Em algumas regiões, é até pior, dadas as perspectivas bem menores de investimentos. Sabendo que o número de desempregados é de quase 5 milhões (mais de 20% da população ativa), significa que 2,5 milhões de pessoas não vão conseguir trabalhar mais pra valer na sua vida.

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Miséria, teu nome é “austeridade”

Declínio social e cultural da Itália: 25% da população já vive sob risco de pobreza; novas medidas de desmonte dos serviços públicos ameaçam mais de cem jornais

A imagem deste post retrata uma edição histórica. Em 31 de dezembro, Liberazione, o jornal do Partido da Refundação Comunista (PRC) italiano lançou o que pode ser seu último número impresso. Depois de circular diariamente, durante vinte anos, mantendo redação de dezenas de pessoas e cobertura dos principais fatos nacionais e internacionais, Liberazione está ameaçado de fechar. As medidas de “austeridade” decretadas pelo governo de tecnocratas chefiado pelo primeiro-ministro Mário Monti cortaram 68,8% dos recursos destinados a subsídio para jornais e revistas que compõem a diversidade editorial do país. Nada menos de cem publicações estão ameaçadas de fechar as portas. Algumas delas têm grande tradição. Por exemplo, L’Unità, fundado por Antonio Gramsci; Il Manifesto, surgido das revoltas de 1968; Avvenire, diário católico.

Liberazione é o mais diretamente ameaçado. Diante do corte dos recursos públicos, a direção do PRC julgou-se sem condições de manter a circulação do jornal em bancas. A redação insurgiu-se. Considerou tal decisão “suicida”, ocupou a sede da publicação (OccupyLiberazione), iniciou campanha de coleta de fundos e decidiu conservar a edição internet.

Subsidiar publicações não-comerciais é uma política seguida, há décadas, por diversos países europeus. O welfare-state que garantiu uma redistribuição menos desigual da riqueza coletiva a partir do pós-guerra, incluía diversas ações em favor da cultura e da liberdade de expressão. O corte aplicado por Mário Monti havia sido decidido, meses atrás, pelo então premiê Silvio Berlusconi, ele mesmo o homem mais rico da Itália e um magnata da mídia comercial.

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