O que é a casta política – e como enfrentá-la

Em meio à tempestade das delações da Odebrecht, os políticos suspeitos de receber propina tramam o fim do direito à aposentadoria. Como não dizer que o sistema apodreceu?

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Uma reunião realizada no fim da tarde deste domingo, no Palácio do Planalto, é um retrato de como uma casta política corrupta e cheia de privilégios sequestrou a democracia. O encontro foi convocado para impor à sociedade à contrarreforma da Previdência, que segundo pesquisas é rejeitada por 93% dos brasileiros.

Todos os participantes da reunião foram apontados, nas delações dos executivos da Odebrecht, como receptores de propina. A lista começa pelo próprio Temer, que teria coordenado o pagamento, por diretores indicados pelo PMDB na Petrobras, de mesada às bancadas do partido no Senado. Também estavam presentes o ministro da secretaria de Governo, o tucano Antonio Imbassahy, acusado de prestar favores à empreiteira em troca de dinheiro; o ministro Moreira Franco, que segundo a Odebrecht pegou 3 milhões em propinas; o relator da proposta na Câmara, deputado Arthur Maia, ou “Tuca” para o empreiteira – de quem teria recebido R$ 200 mil por baixo do pano; e o presidente da comissão especial que examina a PEC-287, deputado Carlos Marun. Bem, Marun é um caso caricatural: escudeiro e último defensor de Eduardo Cunha no Congresso, responde a processos por improbidade administrativa, e teve todas as suas contas de campanha rejeitadas pela Justiça Eleitoral. Continuar lendo

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A tática do “vai passar”

Também a esquerda parece atônita com a Lista de Fachin – e cala-se, esperando a tempestade passar. Não vai dar certo, e há uma alternativa

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Ontem, sob o choque que se seguiu à divulgação da Lista de Fachin, Brasília reduziu-se a um deserto – agora, não apenas de ideias, mas também de presença física. Câmara e Senado ficaram às moscas. Projetos cruciais da agenda de retrocessos – como o que obriga os Estados a promoverem privatizações e ajustes fiscais – não foram adiante.

Mas a paralisia atinge também a esquerda institucional. As principais lideranças do PT e PCdoB calaram-se. Os sites destes partidos, também. Nada falam do envolvimento, em denúncias graves de recebimento de propina, de todos os ministros importantes do governo Temer e de todos os caciques do PSDB. Estão silenciosos por um motivo óbvio: as delações também os atingem. Por isso, esperam a tempestade passar. Segundo especulações da mídia, aliás, Lula, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer têm se articulado, pessoalmente ou per meio de intermediários, para tentar algo que “salve a classe política”. Continuar lendo

A crise do governo e a ausência da esquerda

Moreira Franco, Alexandre de Moraes e Marcela Temer colocam Planalto na defensiva. Mas faltam um projeto de país e uma narrativa consistente sobre o cenário político. Direita ameaça ocupar espaço

Por Antonio Martins | Realização: Gabriela Leite

Não se engane com as aparências: a conjuntura política é e continuará instável com a economia mergulhada em crise, o desemprego e os riscos de convulsão social. O governo Temer apanhou como boi ladrão ontem no Jornal Nacional – por onde se informa (ou desinforma) a maior parte dos brasileiros. A edição levantou, com viés muito desfavorável para o Planalto, os três fantasmas que tiram o sono do presidente: a nomeação de Moreira Franco (“gatinho Angorá” citado 30 vezes na lista da Odebrech) para o ministério; indicação de Alexandre Moraes (envolvido em denúncias de plágio e fraude) para o STF; e o estranhíssimo caso de chantagem contra Marcela Temer, que envolveria seu marido e que está sob censura judical na Folha e no Globo, a pedido da Presidência.

Crises como esta ocorreram outras vezes no governo Temer. Por exemplo, em maio passado, quando o então ministro Romero Jucá foi flagrado tramando o abafamento da Lava Jato. Ou em novembro, quando o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, gravou as pressões que sofreu de Geddel Vieira Lima – e do próprio Temer – para liberar a construção de um empreendiamento imobiliário em área de preservação. No entanto, passado o primeiro susto, o governo golpista recupera-se, recompõe o apoio no Congresso e na mídia e prossegue em sua agenda de retrocessos. Por quê? Continuar lendo

Quem ganha com o Déficit Público

Velha mídia cala-se diante do pior rombo de todos os tempos nas contas públicas. Por que o desastre ocorreu se estamos, supostamente, economizando e corrigindo os erros do passado? Como os números ajudam a pensar novas políticas?

Por Antonio Martins | Edição de vídeo: Gabriela Leite

Que falta fazem o bom jornalismo e a boa política. Passou quase despercebido, ontem o relatório em que Banco Central apontou um rombo fiscal inédito nas contas públicas, em 2016. O resultado primário – que compara a arrecadação de impostos com os gastos típicos de governo (sociais, infraestrutura, pagamento dos servidores) foi um déficit recorde de 156 bilhões de reais, ou 2,47% do PIB. Quando se incluem os juros pagos aos banqueiros e à aristocracia financeira, os números saltam: 562 bilhões de reais, ou 8,93% do PIB. A deterioração rápida do cenário é ainda mais impressionante. Ainda em 2014, último ano antes do início do “ajuste fiscal”, o déficit primário era cinco vezes menor – apenas 0,56% do PIB.

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O que mais merece atenção, porém, é o que o governo e a velha mídia mais tentam ocultar. A piora se deu exatamente no período em que estaríamos, segundo a narrativa oficial, corrigindo os erros do passado, fazendo os sacrifícios necessários para entrar nos trilhos novamente. O que há de errado com esta narrativa? Por que quanto mais economizamos, mais mergulhamos em déficit e dívida? Que interesses provocam o silêncio dos jornais e das TVs? Mais importante: quais seriam as políticas alternativas? Continuar lendo

Brasil: ainda estão rolando os dados

Passadas as eleições, toda a velha mídia diz que uma página foi virada, com a vitória dos liberais e conservadores. Veja o que há por trás desta análise apressada

Texto: Antonio Martins | Montagem: Gabriela Leite

Assim que as urnas se fecharam, neste domingo, começou uma operação político-midiática para afirmar que uma página da história do país foi virada. A ampla vitória de candidatos ligados ao governo, na maior parte dos municípios, significaria que já não se pode falar em golpe. Os eleitores teriam confirmado, nas urnas, sua adesão a uma maré liberal-conservadora. Ela é expressa nas importantes vitórias do PSDB e na emergência de figuras como o pastor Crivella, da Igreja Universal. Após as eleições – e aqui está o pulo do gato — deveríamos aceitar como inevitáveis as contra-reformas propostas pelo governo Temer e pelo empresariado: PEC-241 (PEC-55 no Senado). Redução dos direitos previdenciários. Ataque à legislação trabalhista. Todo este raciocínio é manco e interesseiro (– como você verá no começo da tarde).

De que a esquerda institucional está abalada, não há dúvidas. De que será preciso um longo e árduo trabalho de construção de novo pensamento pós-capitalista, também não. A ele nos dedicaremos, com empenho e criatividade, nos próximos anos. Mas por trás da narrativa que desenha uma irresistível onda conservadora há um truque banal. Trata-se de encerrar o jogo quando o placar está favorável ao narrador – mas a partida está apenas começando. Continuar lendo

Uma rebelião na Inglaterra

Como Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, está desafiando a mídia, as estruturas do velho Labour e o bom-mocismo para demonstrar que, em tempos de crise da política, a radicalidade é bem-vinda

Por Antonio Martins

[Leia a seguir a versão textual do comentário]

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Para praticar futebol e política

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MST planeja construir, em sua escola nacional, campo para muitos esportes. Arquitetos já ajudam, voluntariamente. Você também pode contribuir

O futebol não é o ópio do povo, mas trincheira de luta. É o que afirma e quer consolidar a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do MST, com o projeto de construir o Campo Dr. Sócrates Brasileiro. Em uma parceria com o Laboratório de Habitação (LabHab), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU), o grupo Amigos da ENFF acredita que “o campo será um espaço de saúde e lazer que atenderá os mais de 200 educandos e educandas que frequentam a escola para estudar por semanas ou meses”, além das crianças de comunidades próximas ao local.

O centro esportivo abrigará, além do campo de futebol (que passará por drenagem do terreno, plantação de grama, iluminação e arquibancadas), uma quadra de vôlei, equipamentos de ginástica e um memorial de futebol e política. Para a primeira parte do projeto — a construção do campo — pretendem arrecadar dinheiro com um crowdfunding. A própria escola foi construída por meio de um esforço voluntário de cerca de mil trabalhadores de assentamentos e acampamentos do MST de vários estados do Brasil. Por isso, acreditam que financiamento coletivo é a melhor maneira de viabilizar o campo. Continuar lendo

Para repensar a política, em tempos áridos

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Suely Rolnik e Tatiana Roque convidam a debater novos movimentos, choque com as forças reacionárias e atualidade – e ou reinvenção – da ideia de esquerda


URGÊNCIAS – Para pensar as forças políticas em jogo no Brasil
Uma proposição de Suely Rolnik e Tatiana Roque
Organização: Programa de Ações Culturais Autônomas (P.A.C.A)
Apoio: Instituto Goethe
Sábado 4 de junho, das 10h às 17h (confirme presença aqui)
Local: Rua Lisboa, nº 974, Pinheiros — Metrô Clínicas – S.Paulo (mapa)

A paisagem da sociedade brasileira vem sendo agitada por práticas de invenção que não param de proliferar, em diferentes setores da vida social, colocando em movimento e desestabilizando seus contornos. Essas ações tensionam a atmosfera criada pelas forças reacionárias e reativas que nos assombram desde a fundação do país, mas que parecem ter ganho um novo fôlego.

Como dar conta das experiências e das múltiplas ações que promovem transformações concretas em diversos campos da sociedade brasileira? Os termos e as práticas da esquerda, ou até mesmo a noção de esquerda, ainda são suficientes para descrever a variedade e a singularidade desses vetores de criação? A tradicional oposição entre direita e esquerda ainda nos serve para pensar a relação entre as várias forças em jogo no país? Ou será necessário pensar numa escala que vai de diferentes graus de identificação com o estado de coisas a diferentes graus de reconhecimento de seus pontos de asfixia? De diferentes graus de desejo de conservá-lo e de seu poder de agir a diferentes graus de desejo de criar desvios e de sua potência de agir?

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Para examinar em profundidade a onda evangélica

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Outras Palavras exibe e discute Púlpito e Parlamento. Produzido por Felipe Neves, filme sugere que poder pentecostal é mais enraizado que pensamos – porque apoia-se em sólido trabalho político e social de base


Cine-Debate: Púlpito e Parlamento
Quarta-feira, 18 de maio, às 19h30
Rua Conselheiro Ramalho, 945 – São Paulo (mapa)– Metrô São Joaquim ou Brigadeiro
Ingresso: contribuições voluntárias
Confirme sua presença e divulgue

No remoinho de novidades chocantes em que o governo ilegítimo de Michel Temer tenta envolver o país, certas perguntas ainda estão sem resposta. Ao propor um leque tão vasto de medidas retrógradas e antipopulares – o corte de direitos dos usuários do SUS é a mais recente –, Temer e os que o apoiam sobreviverão? Por que eles não temem os movimentos de resistência, que também se espalham rapidamente? Cometem um erro de cálculo brutal ou imaginam que os protestos não atingirão sua base – composta inclusive pela poderosa bancada evangélica?

Púlpito e  Parlamento, filme que Outras Palavras exibirá nesta quarta-feira (17/5), às 19h, convida, precisamente, a examinar melhor a crescente influência pentecostal na vida política brasileira. O autor, Felipe Neves, um jovem jornalista, não esconde sua repulsa diante de figuras como o deputado Pastor Feliciano. Mas sugere ir além: a oposição a Feliciano e seus iguais não será eficaz enquanto não compreendermos em profundidade as raízes de sua força e, num certo sentido, enquanto não a questionarmos lá mesmo onde ela se fincou.

Felipe conhece esta força de perto. Crescido em família evangélica, ela acompanhou em casa a simbiose que os pastores pentecostais buscam promover entre fé, socialização e opções políticas, Há dois anos, foi a campo para investigar este fenômeno num plano menos restrito. Colheu dezenas de depoimentos, em trinta horas de gravação em São Paulo, Rio e Brasília. Desta pesquisa resultou o filme.

Uma das principais recomendações que despontam da obra é não enxergar os evangélicos nem como rebanho, nem como grupo uniforme. “São mais de 40 milhões, divididos em inúmeras denominações, cada uma com códigos sociais, culturais e políticos próprios”, frisa o diretor. A presença pentecostal está tão capilarizada pelo país – especialmente nas periferias em grotões – quanto seus templos. Em muitos sentidos, eles ocuparam o espaço que a esquerda abandonou, com a institucionalização de partidos como o PT e o declínio das Pastorais Sociais ligadas à Teologia da Libertação.

Como recuperar o terreno perdido? Não há, é claro, respostas simples. Mas vale aceitar o convite a investigar e refletir, feito por Púlpito e Parlamento. Após a exibição, nesta quarta-feira, haverá debate. Participarão, além do próprio Felipe Neves, os seguintes convidados:

Magali Cunha – Professora de Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo

Edin Sued – Professor de Teologia da PUC, integrante do Núcleo de Fé e Cultura

Gedeon Alencar – Doutor pela PUC em Ciências da Religião, com foco em questões dos pentecostais.

Lula, nem preso, nem livre

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Há anos, Noam Chomsky cunhou o termo “unpeople” (“não-pessoas”) para designar os que o poder global quer esquecer. É assim que a elite brasileira agora trata o ex-presidente

Por Antonio Martins

Os abusos e ilegalidades cometidos por Sérgio Moro contra Lula foram tantos e tão graves que, agora, até mesmo os velhos jornais brasileiros [para os internacionais, clique nos links 1 2 3 4 5 6] enumeram as arbitrariedades do juiz – reconhecidas, aliás, por diversos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A coerção para depor, em 4/03 era incabível, porque não foi precedida de uma convocação. Na interceptação das conversas telefônicas, e em sua divulgação, as irregularidades, todas de caráter criminoso, acumulam-se. Os diálogos envolvendo a presidente da República precisam ser remetidos ao STF. As gravações relacionadas aos fatos investigados devem ser mantidas nos autos, mas em sigilo (foram escancaradas por Moro). O juiz deve destruir as conversas privadas (e não entregá-las os jornais). Depois de tantas violências, seria de esperar que a mídia defendesse reparação ao ex-presidente – ou, no mínimo, o fim das perseguições.

Só que não. Experimente ler os sites ligados à Folha, Estado, O Globo e Editora Abril ou, pior, ouvir os noticiários da TV. Por dias, todos reproduziram, incansável e espetaculosamente, as gravações ilegais, sempre editadas contra Lula. Foi como se, a cada 24 horas, se produzisse um episódio de manipulação semelhante ao do debate presidencial que, em 1989, levou Collor ao poder. Agora, todos os noticiários alimentam a expectativa pela prisão de Lula. O ato absurdo do ministro Gilmar Mendes, que devolveu o ex-presidente a Moro, é visto como natural. Assim como as negativas ou delongas de colegas de Gilmar [1 2 3], para conceder o habeas corpus que proibiria uma prisão arbitrária. Continuar lendo