Polícia é polícia, em qualquer parte?

160506-Paris

Um vídeo revolta os franceses. Policiais “anti-terror” humilham um imigrante negro com três membros amputados

Uma cena brutal chocou, nesta semana, os franceses — e permite especular sobre o que estará levando os corpos policiais a se tornarem, em todo o mundo, cada vez mais violentos e hostis. Três policiais que executavam vigilância “anti-terror” nos trens metropolitanos deixaram seminu o imigrante africano François Bayga, retiraram as próteses que substituem suas duas pernas amputadas e o abandonaram sem elas, numa plataforma de estação. Detalhe: Bayga também tem um braço amputado.

A humilhação tornou-se públicas graças ao jornalismo cidadão. Outro africano, Jean-Didier Bakekolo, que presenciou os fatos, advertiu os policiais e pediu-lhes que ajudassem Bayga. Como não lhe deram ouvidos, registrou a cena no vídeo abaixo, que já tem centenas de milhares de visualizações. São acompanhadas de comentários como “Vergonha da França” e “Que ultraje!”.

Entrevistado por diversos meios, mais tarde, Bayga contou que foi abordado num vagão. Solicitado, ofereceu seus documentos. Explicou que não está em situação ilegal: aguarda visto de permanência definitiva na França. Os policiais disseram desconfiar que seu celular era roubado. Despiram sua calça, obrigaram-no a retirar as próteses e simplesmente o abandonaram. Continuar lendo

TEXTO-FIM

SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade. Continuar lendo

Contra os Muros, a dinâmica da Mata

150416-Mata

Christian Dunker, que lança hoje, em SP, livro sobre Brasil polarizado, sustenta: reencontro com Arte e Natureza pode livrar Brasil de dinâmica política marcada por alienação e ódio

Por Daniel Benevides Patrícia Rousseaux, na revista Brasileiros


MAIS:
Debate “O Brasil entre muros: segregação e ódio no Brasil partido”
Com Christian Dunker, Maria Rita Kehl, Vladimir Safatle e Paulo Arantes, mediação de Antonio Martins

Quinta, 16/4/15 | das 19h às 21h | Quadra dos Bancários | Confirme presença aqui
Rua Tabatinguera, 192 | São Paulo, SP | Metrô Sé | Veja mapa
Realização: Boitempo Editorial, Outras Palavras e Sindicato dos Bancários

A psicanálise, assim como a antropologia e a crítica de arte (para não falar na economia), tem uma linguagem própria, nem sempre fácil de compreender. No entanto, muitas vezes a recompensa para quem mergulha nesse universo é grande. É o que acontece com a leitura de Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo Editorial), de Christian Dunker, um livro cuja importância deve crescer muito à medida que for mais e mais discutido. E pode ter a chave ou chaves para o entendimento de nosso mal-estar, numa direção diferente daquela teorizada por Freud em seu clássico  O Mal-estar na Civilização.

Fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (LATESFIP), ao lado de Vladimir Safatle e Nélson da Silva Jr., Dunker é um sujeito alto, grande como suas ideias, ambiciosas, mas sempre expostas com modéstia e generosidade. Na conversa que tivemos em seu consultório, em uma casa simpática no Paraíso, bairro paulistano, o verbo correu solto, entre exclamações, risadas e momentos de profunda reflexão. Dunker, autor também de um livro premiado pelo Jabuti em 2011, Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (Editora Annablume), ressaltou temas de seu livro, como a lógica do condomínio, a brasilidade e a psicanálise enquanto sintoma social e formadora de nossa identidade, e fez uma análise da atual conjuntura, das manifestações de insatisfação e ódio, além de mostrar as relações estreitas entre o neoliberalismo e o surgimento de novos sofrimentos psíquicos a partir dos anos 1970. Também fez questão de dizer que seu livro não é tão difícil assim: “Tem capítulos absolutamente não acadêmicos, eu já sei que vou pagar uma conta por isso. Por exemplo, o capítulo em que eu procuro retomar Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, misturando com música e literatura. Em termos acadêmicos é criminoso, né, porque o estudioso do Lima Barreto vai dizer que a internação dele não foi bem assim, que não se pode considerar apenas o modernismo paulista, etc. Você comete violações para fazer esse passeio macroscópico e dialogar com um público menos segmentado. Inclusive o capítulo sobre diagnóstico não é para psicanalistas, mas para pessoas ligadas ao direito, educação, medicina”. Continuar lendo

Luiz Eduardo Soares sintetiza absurdo das prisões de manifestantes

Uma cena comum nas ações do BOPE

Uma cena comum nas ações do BOPE

“Se Justiça, Ministério Público e Polícia Civil agissem com equidade, governador do Rio estaria preso, acusado de formação de quadrilha”

Por Luiz Eduardo Soares*

“Homens de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”. Essa estrofe foi cantada à luz do dia, diante de inúmeras testemunhas, nas ruas da cidade, por policiais militares uniformizados, comandados por oficial. Se a Justiça, o MP e a Polícia Civil agissem com equidade, aplicando às equipes do BOPE a mesma chave de interpretação que aplicaram às conversas telefônicas entre manifestantes, os membros do BOPE e seus superiores, inclusive o secretário de segurança e o Governador, estariam presos, acusados de formação de quadrilha armada.

Como, além de anunciar que o fariam, equipes do BOPE efetivamente mataram centenas de pessoas nas favelas, cumprindo a mórbida ameaça, a condenação por homicídio qualificado seria líquida e certa. Por que são diferentes, os pesos e as medidas?


Luiz Eduardo Soares é um antropólogocientista político e escritor. Considerado um dos maiores especialistas em segurança pública do país, foi Secretário Nacional de Segurança Pública no governo Lula, afastado por pressões políticas. É co-autor I Elite da Tropa e Elite da Tropa 2. Este comentário foi pastado em sua página do Facebook

Fala a advogada que pede asilo político no Uruguai

Maio de 2014: professor é espancado pela polícia fluminense -- a mesma que orquestra, com setores do Ministério Público e Judiciário, prisões abusivas

Maio de 2014: professor é espancado pela polícia fluminense — a mesma que orquestra, com setores do Ministério Público e Judiciário, prisões abusivas

A democracia é regra e nos pertence. Temos o direito de defender nossas ideias, nossos desejos de transformação para fazer o Brasil ir além”

Por Eloísa Samy


Sobre o tema:
ADVOGADA PERSEGUIDA PELO JUDICIÁRIO PEDE ASILO NO URUGUAI
Assista ao vídeo em que Eloísa Samy aponta violação das liberdades civis, nas prisões de ativistas no Rio e S.Paulo. Veja por quê ela tem razão, dos pontos de vista político e jurídico
Por Antonio Martins

Em vídeo no YouTube, Eloísa Samy, refugiada no consulado do Uruguai no Rio de Janeiro, explica as razões de seu pedido de asilo político. Eis a transcrição de sua mensagem:

Sou Eloísa Samy, advogada ativista de direitos humanos, tenho 45 anos, e há 22 anos exerço a advocacia com zelo e responsabilidade profissional.

Hoje sou uma perseguida política, sendo criminalizada pela minha atuação na defesa dos direitos de manifestação. Continuar lendo

Juristas reagem à criminalização das lutas sociais

140720-Repressão

Tropa de choque da PM paulista agride professora, gratuitamente: um símbolo da tentativa de eliminar liberdades

Documento encabeçado por Fábio Konder Comparato demonstra: prisões em SP ferem liberdades civis, repetem métodos da ditadura e ameaçam a própria Constituição de 1988

Manifesto de Juristas contra a Criminalização das Lutas Sociais

É com imensa perplexidade que se divisa o recrudescimento da repressão e das tentativas de criminalização das lutas sociais pelos poderes instituídos.

Desde junho do ano passado, quando as grandes manifestações se multiplicaram a partir da luta contra o aumento da tarifa, observa-se que, longe de responder às reivindicações com propostas de concretização de direitos sociais, os agentes do Poder Público têm respondido com violência e tentativas abusivas de criminalização de ativistas. Continuar lendo

Polícias Militares: estamos alimentando um monstro

140709-ato-praca-roosevelt-daniel-biral2

Sucessão de atos violentos e arbitrários, praticados em todo o país, sugere que PMs estão se convertendo em ameaça grave à democracia

Por Renato Xavier dos Santos

Ao assistir ao vídeo da prisão do estudante da USP, Fábio Hideki, e refletir sobre os acontecimentos que envolvem polícia e manifestantes nos últimos meses, chego à seguinte conclusão: o estado, nesse caso de São Paulo, perdeu totalmente o controle. Vivemos sob a égide de uma força policial totalmente despreparada e antidemocrática — deslocada da realidade, da comunidade, aquartelados — tanto a militar quanto a civil.

Uma polícia que está, sim, preparada para destruir, aniquilar e não para proteger os direitos do cidadão que, embora muitas vezes não coadunem com a nossa vontade, é pressuposto básico da democracia. Se valendo da ideia de Nietzsche: a democracia é raríssimas vezes a soma da nossa vontade mais a vontade da maioria. No mais, impera quase sempre as “vontades antagônicas”. E o que fazer quando o nosso desejo não é o desejo da maioria? Continuar lendo

Repressão política em SP: lançada campanha “Liberdade para Hideki”

140701-Hideki

Organizações denunciam flagrante forjado e encarceramento ilegal. Site traz testemunhos da prisão arbitrária, história de vida do ativista e manifesto pelo direito de expressão

O site | O caso | Quem é Hideki | Solidariedade | Manifesto | Vídeo

Fábio Hideki Harano foi preso em São Paulo, no dia 23/06/2014, após participar da manifestação “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”. Voltando para casa ao final do ato, Hideki foi detido por agentes à paisana do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e revistado na presença de várias pessoas. As testemunhas declararam não haver nenhum objeto ilegal em seus pertences naquele momento. Apesar disso, ele é acusado do crime inafiançável de portar um artefato explosivo. Atualmente, ele cumpre prisão preventiva na Penitenciária Dr. José Augusto César Salgado, localizada na cidade de Tremembé – SP, acusado por quatro artigos do Código Penal – entre eles associação criminosa – e um artigo do Estatuto do Desarmamento.

Padre Júlio Lancelotti acompanhou o momento da revista policial de perto e declara que entre os pertences de Hideki não havia nada que pudesse ser confundido com objeto explosivo. Para ele, que é do Centro de Defesa dos Direitos Humanos “Padre Ezequiel Ramin” e da Arquidiocese de São Paulo, esta é uma acusação baseada em flagrante forjado. Em declaração à imprensa, o DEIC afirma que esta foi a primeira ação da operação “black bloc”, que busca identificar as lideranças do que a polícia nomeia como “organização criminosa”. Continuar lendo

Junho e depois: como a PM reprimiu e provocou

protestos_policiais-sem-identificacao_relatorio_0
Site interativo recupera — em documentos, entrevistas, imagens e infográficos — comportamento violento e frequentemente ilegal das ações policiais contra protestos de 2013

Da Artigo 19

Em 2/6, quase um ano depois de o Brasil ter sido palco da maior onda de manifestações das últimas décadas – as chamadas “jornadas de junho” –, a ONG Artigo19 lançou o site “Protestos no Brasil 2013”, uma versão digital do relatório homônimo, que busca fazer um registro sobre a série de violações ocorridas durante os protestos de todo o ano passado. O site traz números, infográficos, análises de leis e depoimentos de vítimas de violência e especialistas, além de críticas a abusos na atuação do Estado. Baseado em notícias da imprensa, o relatório, que serve de base para o site, contabilizou 696 protestos no país durante 2013, registrando 2.608 detidos e 8 mortes em circunstâncias relacionadas aos protestos. A análise também computou 117 jornalistas feridos e/ou agredidos, e outros 10 que foram detidos.

Continuar lendo

Marcha da Maconha 2014: a um passo da legalização?

140417-zé03

Em SP, debates no Grajaú e Casa FdE abrem programação, que tem presença luxuosa de Zé Celso. Caminhadas multipĺicam-se pelo país, em 26/4 

Por Gabriela Leite

Anos antes de as manifestações e atos serem frequentes no cotidiano dos moradores de São Paulo da maneira como acontece desde junho de 2013, a Marcha da Maconha já reunia milhares de pessoas na avenida Paulista. Sua reivindicação vai muito além de simplesmente fazer uso livre de droga popular: diz respeito às políticas públicas proibicionista, violência e liberdades individuais. O grupo que a organiza se formou em 2007, em rede e por todo o Brasil. Em 2014, a moblilização acontece no dia 26 de abril, mas haverá também intensa programação entre os dias 19 e 26, na Semana Pela Legalização da Maconha.

Com os processos de legalização da maconha em curso no Uruguai e nos Estados Unidos, e em discussão em distintas partes do planeta e do Brasil, a Marcha da Maconha sairá às ruas não mais de forma defensiva, como fazia em épocas em que era inclusive proibida de existir, mas em um contexto de iminente fim da guerra, de florescimento de alternativas de políticas públicas mais respeitosas das liberdades individuais e dos direitos humanos. Continuar lendo