Por que precisamos da criptografia

1500x500Em tempos de vigilância e controle, cresce interesse pela CryptoRave — evento anual que difunde técnicas e ferramentas para garantia de privacidade. Festival ocorrerá em 5 e 6/5, em SP

Por Marina Pita


CryptoRave
5 e 6 de maio
Casa do Povo – Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro, São Paulo – Metrô Tiradentes
Saiba mais: cryptorave.org

O avanço tecnológico permitiu o avanço da vigilância em massa a um baixo custo. Suas pesquisas na internet, praticamente seus pensamentos – e não apenas a comunicação entre duas pessoas – estão sendo registrados em enormes bancos de dados. As movimentações, as formas de teclar, as formas de navegar em telas touch. Tudo armazenado. Mesmo na América Latina, onde os governos têm menos recursos e nem tanta tradição em agências de espionagem, as compras de tecnologia para fins de vigilância aumentam, ao mesmo tempo em que avançam iniciativas de proibição e criminalização da criptografia. Este cenário é ainda mais complexo se considerarmos que grande parte da população não tem capacidade de lidar com questões tecnológicas básicas e mal consegue alterar as configurações de privacidade básicas de dispositivos eletrônicos e redes sociais.

O relatório Latin America in a Glipse 2016, da organização Derechos Digitales, salienta esta tendência. No Brasil, a realização de eventos esportivos foi o pretexto para a aquisição de equipamentos e softwares de vigilância maciça que se transformaram nas “salas de controle operacional”, exigência da Fifa. No México, o governo pagou US$ 15 milhões de dólares no software de vigilância Pegasus. No Peru, um plano estatal de interceptação de comunicações foi iniciado em 2015. O governo pagou US$ 22 milhões à Verint por um software capaz de interceptar chamadas telefônicas, mensagens de texto, e-mails, chats e histórico de navegação da Web.

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A internet está sendo quebrada. Que fazer?

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Evento debaterá saídas para uma rede cada vez mais monopolista. Privacidade, anonimato, segurança e criptografia não são suficientes

Com informações do Actantes

Ola Bini, pesquisador de segurança da informação e ex-desenvolvedor da linguagem JRuby, participará na próxima terça-feira, 2 de junho, de um encontro para debater os riscos, problemas e alternativas relacionadas à liberdade na internet. Seu tema específico são as vulnerabilidades do sistema de atribuição de nomes e números para os milhões de sites existentes na rede. Hoje, esta tarefa é coordenada pelo ICANN, uma instituição subordinada ao Departamento de Comércio dos EUA. Segundo Bini, este vínculo abre brechas para controle e espionagem. O evento é promovido pela coletivo Actantes, cujo foco é a liberdade e privacidade na rede, e pela ThoughtWorks, uma organização que trabalha com consultoria e desenvolvimento de softwares com código aberto. Ocorrerá a partir das 19h em São Paulo, na mesma casa em que está instalado Outras Palavras.

Bini define a si próprio como um “diretor de paranoia”. Para ele, tudo que fazemos na Internet é facilmente interceptado e rastreado por pessoas com um mínimo de habilidades técnicas: estamos vulneráveis mesmo quando tentamos nos proteger com criptografia pesada. Uma entrevista recente em que o desenvolvedor expõe suas ideias polêmicas pode ser encontrada no site da Actantes.

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Tortura: Obama prende quem denunciou…

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Estado norte-americano não puniu nenhum membro da CIA envolvido em sevícias contra prisioneiros — mas encarcera quem as revelou ao mundo

Por Cauê Seignemartin Ameni

O reatamento de relações diplomáticas com Cuba, anunciado pelo presidente norte-americano, Barack Obama, na quarta-feira (17), varre para as sombras do noticiário uma injustiça em curso. Ninguém será responsabilizado pelas torturas praticadas pela CIA durante o governo Bush, relatadas num relatório de 6.700 páginas, divulgado semana passada pelo Comitê de Inteligência do Senado dos EUA. A única pessoa presa que responde a um processo relacionado ao programa de tortura é John Kiriakou, ex-funcionário da agência que revelou a existência de métodos medievais utilizados pela CIA para obter informação. Barack Obama, sucessor de Bush, é responsável pela impunidade — um sinal de que o chamado “complexo industrial-militar” tem poder cada vez maior nos Estados Unidos, seja qual for o ocupante da Casa Branca.

O vazamento das informações sobre tortura, ocorrido graças a Kiriakou, estimulou uma investigação de três anos. Um resumo de seu relatório, com 500 páginas, foi publicado semana passada. Relata em detalhes o programa de “reforço de interrogatórios” usado pela CIA. Entre as barbaridades, pode-se encontrar técnicas medievais como: manter prisioneiros em celas escuras obrigando-os a ficar acordados por 180 horas; práticas de “quase afogamento”, conhecidas como waterboarding, só que perpetradas com repetições; ameaças de abusos sexuais com cabos de vassoura e furadeiras; e entre outras atrocidades, a sujeição a “alimentação retal” sem razão médica aparente.

Em 2012, o governo Obama processou Kiriakou por ter vazado informações confidenciais sobre as torturas praticadas contra Abu Zubaydah – suposto membro da Al Qaeda. O próprio Kiriakou, veterano com 15 anos de CIA, participou da operação de captura de Zubaydah em 2002, e resolveu desabafar cinco anos depois à ABC News. Ele foi o primeiro funcionário da agência a falar publicamente sobre as práticas de afogamento simulado. Ameaçado a pegar décadas de prisão em retaliação, Kiriakou se declarou culpado em 2012 e aceitou uma pena de 30 meses. Descobriu-se posteriormente que o torturado Zubaydah não tinha, de fato, fortes ligações com a al-Qaeda. Continuar lendo

Banksy: agora contra o Estado de vigilância?

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Surge misteriosamente, na cidade-sede dos serviços de espionagem britânicos, um sugestivo grafite. Mercado de arte se alvoroça com artista anti-mercado…

Por Gabriela Leite

Um novo grafite do artista inglês Banksy parece ter aparecido na cidade de Cheltenham, no Reino Unido. A pintura retrata três agentes do serviço de inteligência britânico escutando as chamadas de uma cabine telefônica, ligados a um satélite. O local não foi escolhido ao acaso: Cheltenham, cidade de cerca de 110 mil habitantes e a 150 quilômetros a noroeste de Londres, é sede do Quartel General das Comunicações do Governo inglês (Government Communications Headquarters, ou GCHQ), serviço responsável pela espionagem nas comunicações e fornecedor de informações sobre os cidadãos ao Estado e forças armadas.

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A autoria da obra ainda não foi confirmada por Banksy, pseudônimo do um artista britânico cuja identidade permanece incógnita — mas que é conhecido mundialmente por sua arte de rua. Seus stêncils (técnica de grafite feita com desenhos recortados em máscaras e gravados com spray) satirizam a sociedade capitalista, consumista e violenta e começaram a aparecer pelas ruas de Bristol e Londres nos anos 90. A mais recente, com os agentes da GCHQ — equivalente da norte-americana NSA no Reino Unido –, expõe a indignação com a espionagem em massa de cidadãos, por parte dos governos e empresas, que foi revelada nos últimos anos. Continuar lendo

Twitter anti-Cuba: uma gota d’água no oceano?

Mulher usa celular no "Malecón" de Havana. Apresentado como serviço comercial, "twitter cubano" era controlado por agência norte-americana

Mulher usa celular no “Malecón” de Havana. Apresentado como serviço comercial, “twitter cubano” era controlado por agência norte-americana

Documentos de Edward Snowden revelam: EUA e Reino Unido promovem manipulação incessante da internet, para desestabilizar governos “inimigos”

Por Cauê Seignemartin Ameni

No início de abril, a agência de notícias Associated Press fez a mais recente revelação envolvendo ações encobertas dos EUA para promover o dissenso em Cuba. A ferramenta, chamada de ZunZuneo, é uma espécie de Twitter que disparava mensagens de celular (SMSs). Chegou a ser utilizada por cerca de 40 mil cubanos. Na aparência, visava promover a troca de notícias sobre esportes, música e clima. Mas tinha como objetivo original corroer a credibilidade do regime, instigando uma “primavera cubana” . Foi criado pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), organização supostamente voltada para ajuda humanitária. Era, contudo, apresentado como plataforma privada, isenta de vínculos com Estados — especialmente o norte-americano…

Há uma semana (em 7/4), a trama complicou-se. De acordo com os documentos revelados pelo jornalista Glenn Greenwald, esta prática não se restringe apenas à ilha caribenha. As agências de inteligência norte-americana (NSA) e britânica (GCHQ) trabalham há anos num esforço conjunto para manipular opinião pública nas principais redes sociais de alcance mundial como Twitter, Facebook e Youtube. “Esse tipo de operação é frequente nas agências de inteligência ocidentais, que se infiltram secretamente nas mídias sociais para disseminar ‘propaganda’, ‘mensagens em massa’, e ‘promoção de notícias’ (…) difundindo disfarçadamente pontos de vista amigáveis aos interesses ocidentais e espalhando informações falsas ou prejudiciais contra alvos”. Isso aparece repetidamente em todos os documentos da NSA vazados pelo ex-agente Edward Snowden, relata Greenwald na nova publicação digital onde é editor, The Intercept. Continuar lendo

Vigilância global: Casa Branca isola-se mais um pouco

Legenda imagem: Edward Snowden com prêmio Sam Adams de integridade em inteligência, com ex-funcionários do governo dos EUA Coleen Rowley, Thomas Drake, Jesselyn Raddack, Ray McGovern, e Sarah Harrison do Wikileaks. Fotografia: Sol Imprensa / Getty Images

Edward Snowden ao lado ex-funcionários do governo dos EUA Coleen Rowley (ex-FBI), Thomas Drake (ex-NSA), Jesselyn Raddack, Sarah Harrison do Wikileaks e Ray McGovern (ex-CIA).

Antigos funcionários na inteligência norte-americana premiam Snowden em Moscou. Comitê para Proteção de Jornalistas compara Obama a Nixon

Por Cauê Seignemartin Ameni

Sumido desde agosto, após despistar o governo norte-americano e conseguir asilo político na Rússia, o ex-analista de sistema da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden reapareceu quarta-feira passada (09/10) em cerimônia organizada por ex-agentes da inteligência norte-americana, críticos assíduos da vigilância estatal.

Responsável por revelar o maior esquema de espionagem em massa da história, Snowden recebeu o prêmio Sam Adams Awards, oferecido pela associação Sam Adams Associates for Integrity in Intelligence. A associação reúne agentes aposentados da segurança nacional norte-americana e premia, anualmente, profissionais do serviço de inteligência que tenham se distinguido pela integridade ética. Uma comissão composta por Ray McGovern, ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA); Coleen Rowley, ex-agente do FBI; Jesselyn Radack, ex-autoridade no Departamento de Justiça; e Thomas Drake, ex-alto funcionário da NSA, se deslocou dos Estados Unidos à Rússia para homenagear o mais novo inconfidente. Uma ironia: o país é presidido pelo ex-espião do KGB, polícia secreta da antiga União Soviética, Vladimir Putin. Continuar lendo

Espionagem: o truque sujo dos ingleses

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Edward Snowden denuncia: serviço secreto começou a vazar seu próprios segredos, para jogar opinião pública contra quem denuncia vigilância

Por Cauê Seignemartin Ameni

Há dois anos, os governos e exércitos ocidentais têm atacado furiosamente quem revela seus segredos esgrimindo um argumento básico. Mesmo quando comprovam ataque sistemático dos Estados à privacidade dos cidadãos, estas revelações seriam indesejáveis — porque colocariam em risco a vida de soldados que lutam contra “o inimigo”. Acaba de surgir um fato que demonstra a falsidade deste argumento. Num texto publicado sexta-feira passada (23/8), o jornalista Glenn Greenwald, do jornal britânico The Guardian, sugere que o serviço secreto britânico está, ele próprio, vazando segredos que podem atingir militares britânicos. Tudo para incriminar Edward Snowden.

O foco da polêmica é uma suposta base de espionagem inglesa no Oriente Médio, que seria encarregada de monitorar em massa telefonemas e comunicações via internet. Sua existência foi denunciada por outro jornal britânico, The Independent. Este, porém, atribuiu a revelação do segredo a Snowden. A autoria é falsa. Na mesma sexta, Glenn publicou, em seu blog, mensagem de Snowden, assegurando: “Jamais falei, trabalhei ou forneci qualquer tipo de material ao The Independent”.

Nesse caso, quem seria a fonte da revelação? O próprio Snowden especula: “Tudo faz crer que o governo britânico tenta criar a impressão de que as revelações publicadas no Guardian (…) seriam danosas. Para ‘demonstrá-lo’, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros”.

Ao que tudo indicada, os governos tentarão acuar cada vez o jornalismo investigativo pós-wikileaks. Se os jornalistas não são intimidados por portar material confidencial — mesmo que seja de enorme interesse publico –, são acusados de colaborar com os inimigos “terroristas”. Mas o que fazer quando o próprio Estado alimenta o terrorismo para defender seus interesses?

Leia abaixo a tradução na integra da matéria.

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Inglaterra: ex-país da liberdade de imprensa

Os restos do Macbook que continha as informações vazadas por Edward Snowden. Fotos de Roger Tooth

Restos do Macbook que continha informações vazadas por Edward Snowden. Fotos de Roger Tooth

Jornal britânico The Guardian é forçado a destruir material sobre espionagem clandestina, mesmo comprovando que não seria suficiente para frear as denúncias

Por Cauê Seignermartin Ameni

Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique.
Todo o resto é publicidade
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George Orwell
 

As pressões para silenciar as vozes que revelam a maior rede de espionagem da história continuam. Após intimidar o jornalista Glenn Greenwald, detendo seu parceiro no aeroporto de Heathrow por 9 horas, o alvo da vez foi o periódico em que seus textos são publicados, o jornal britânico The Guardian – uma das publicações mais respeitadas do mundo. Ao cobrir o caso seguindo à risca a acidez orwelliana, o diário acabou vivenciando um dos episódios mais sinistros da história do jornalismo da era digital.

Os editores do jornal revelaram nessa terça (20/08) como foram obrigados a destruir os Hard Drivers (onde se armazenam os dados dos PCs) que continham cópias dos documentos vazados pelo ex-agente da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden. A decisão foi tomada depois de uma série de ameaças desencadeadas em 20 de julho por oficiais da inteligência britânica, entre elas, entrar com ação para congelar judicialmente a série de reportagens sobre a extensão da vigilância das agências de segurança americana e britânica. Continuar lendo

Espionagem em massa: possível reviravolta nos EUA

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Pela primeira vez, norte-americanos temem mais a perda de suas liberdades do que terrorismo. Congresso pode restringir vigilância sobre cidadãos

Por Cauê Ameni

Esquecido pela maior parte do noticiário, Edward Snowden, o ex-contratado da CIA que revelou o mega-esquema de espionagem global praticado pelos EUA, pode ter alcançado sua primeira vitória. Uma nova pesquisa de opinião pública acaba de revelar: a difusão de detalhes sobre a vigilância contra os cidadãos está levando uma parcela crescente dos norte-americanos a voltar-se contra a prática. O próprio Congresso já admite – embora de forma tímida e contraditória – votar leis para restringir o monitoramento de telefonemas e da internet.

Inicialmente, mais da metade dos americanos eram a favoráveis aos procedimentos de vigilância adotados pela National Securty Agence (NSA). Mas uma recente sondagem, realizada pela Pew Research, revela uma gritante mudança. Os cidadãos estão mais preocupados com os abusos contra os direitos civis do que com o terrorismo. É “uma mudança radical da opinião publica a partir das recentes revelações”, assinala Glenn Greenwald, advogado e jornalista que vem cobrindo o caso desde o seu inicio. De acordo com a pesquisa, 70% acreditam que o governo usa os dados recolhidos para outros fins (que não o combate ao terrorismo); 56% acha que os tribunais federais não foram capazes em limitar o poder da interceptação estatal nas comunicações. Além disso, 63% desconfiam que o governo vai além de levantamentos estatísticos: também está coletando informações sobre os conteúdo postados nas redes. Isso demonstra uma rejeição direta aos três argumentos usados pelo governo para defender seus programas: a vigilância seria feita de forma adequada, não envolveria violação de conteúdo; e a espionagem seria usada apenas para manter a população segura. Continuar lendo