É mais um corpo estendido no chão

170717_Manifestação contra a morte do catador Ricardo. Foto Marlene Bergamo, Folhapress 2

Amigos de Ricardo fazem ato no dia seguinte ao assassinato | Foto Marlene Bergamo

Amigos do carroceiro Ricardo — o Negão, executado pela polícia em São Paulo — convidam para celebração na Sé: “que sua morte dê voz e visibilidade às demais vítimas da violência policial no país”

Por Inês Castilho


Missa-manifestação na Catedral da Sé

Quarta-feira, 19.07, às 12 horas
Em memória do catador Ricardo Silva Nascimento, o Negão

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Ricardo Silva Nascimento, o Negão

A execução, por um policial militar, de um conhecido catador de lixo reciclável e morador de rua em Pinheiros, tradicional bairro de classe média na Zona Oeste de São Paulo, no entardecer da quarta-feira, dia 12, comoveu e revoltou os moradores do bairro e amplos setores da população paulistana. No dia seguinte, um ato de protesto reuniu no local uma pequena multidão, que rezou com cartazes de protesto em defesa da vítima.

“Esse não foi um caso isolado. Justiça, já!”, clamavam os manifestantes – moradores do bairro amigos de Ricardo, catadores, cidadãos. A carroça de Ricardo, pintada de branco, recebeu flores, velas acesas e retratos, e foi colocada na esquina das ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade. A silhueta do corpo, desenhada no asfalto, tinha manchas de tinta vermelha. Entre os presentes estava o padre Júlio Lancellotti, pároco da Igreja São Miguel Arcanjo e integrante da Pastoral Católica do Povo da Rua.

Dispostos a garantir que a “a morte do Ricardo dê voz e visibilidade às demais vítimas da violência policial no País”, um grupo de moradores do bairro e representantes de grupos mobilizados pelo acontecimento, além de jornalistas, carroceiros e pessoas que trabalham com o padre Lancelotti, programaram uma nova manifestação. Em encontro realizado no sábado, dia 15, decidiram convidar a população paulistana para a celebração de uma missa em homenagem a Ricardo na Catedral da Sé, às 12hs da próxima quarta-feira, dia 19, com a presença do Padre Julio Lancellotti, moradores do bairro, carroceiros e da população em geral.

“Queremos externar nossa indignação com a morte do Ricardo e ao mesmo tempo também com todas as demais mortes que vêm ocorrendo em circunstâncias semelhantes em todo país”, explica a jornalista Monica Soutelo, uma das organizadoras do ato.

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Velas e flores na manifestação | Foto: Lívia Machado

O CRIME

O crime, a sangue frio e com dois tiros no peito, foi seguido por irregularidades – como a retirada do corpo do local pelos próprios PMs, antes da perícia chegar; a violência contra as testemunhas que gravaram a cena; e o recolhimento das cápsulas das balas pelos policiais.

A polícia foi chamada por uma pizzaria – Pizza Prime, na esquina da Rua Mourato Coelho com Navarro de Andrade – onde Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, conhecido na vizinhança, teria ido pedir um pedaço de pizza e, maltratado pela atendente, a teria ameaçado com um pedaço de pau. Moradores estranham a versão, visto que Negão, como era conhecido, não costumava pedir comida mas sim lixo reciclável no comércio da região.

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O corpo de Ricardo estendido no chão

MISSA E MANIFESTAÇÃO

Na missa das 10h deste domingo na capela da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo, Padre Júlio Lancellotti convidou os presentes a manifestar repúdio à violência praticada contra o povo da rua participando da celebração em memória de Ricardo. “Foi uma ordem que a polícia recebeu, matou o Ricardo como matou o Leandro lá na favela do Moinho e tantos anônimos espalhados pela periferia.”

Padre Lancellotti apontou a importância das pessoas filmarem os abusos que veem na cidade, pois graças às gravações realizadas pelas testemunhas da execução de Ricardo foi possível saber o que ocorreu, rejeitando a versão da polícia. “Uma testemunha diz que filmou a ação do agente, mas teve o celular retirado por outros policiais, que apagaram as imagens. De acordo com o rapaz, os PMs chegaram a apontar uma arma para ele ao exigir o aparelho. Um senhor foi ferido na mão porque teve o celular arrancado. Mas alguns filmes escaparam.”

O padre adiantou o lançamento do programa Olhos da Rua, “para que quem vir algum ataque a catador ou morador de rua, seja do Rapa, seja da GCM ou da PM fotografe, filme e mande pra um número que vamos divulgar, de modo que nós todos possamos cuidar desse fenômeno que se espalha pelo mundo”. Com o crescimento da desigualdade, a população de rua está aumentando no mundo inteiro, lembra: “em São Paulo são mais de 20 mil, em Nova York 60 mil, em Los Angeles 40 mil. Em Roma o número também é grande, e o Papa Francisco criou uma lavanderia para atender os pobres e moradores de rua, um refeitório, hospedarias.”

TEXTO-FIM

“Deitaço” em São Paulo: arte contra segregação social

Coletivo de teatro convoca, para esta quinta-feira, protesto poético na Praça da Sé. Polícia reprimirá quem deitar sobre papelões, estando “elegantemente trajado”?

Por Bruna Bernacchio

A situação é comum desde o início da política segregacionista do prefeito Kassab, mas quem a testemunhou não foi qualquer: um grupo de teatro de cerca de 15 artistas, a Cia Autoretrato, que passou a frequentar o centro de São Paulo com mais intensidade, ensaiando uma peça de “criação urbana”, a ser apresentada na própria rua, no dia 12 de abril – a artista Ana Cris lembra bem desta data-, viram agentes da Guarda Civil Metropolitana, arrancando pertecences de moradores de rua – papelão, cobertores, e até bolsas com documentos. O coletivo até gravou vídeo, disponível no youtube.

No mesmo dia, foram até a Defensoria Pública, com o objetivo de realizar uma ação civil pública de denúncia. Tiveram uma reunião com advogados e descobriram que não eram os primeiros a fazer a mesma denúncia, de atitudes agressivas por parte de funcionários públicas. Desde então, estão dialogando com o órgão, exigindo que a instituição seja realmente denunciada e fiscalizada. Continuar lendo