São Paulo, metrô privatizado?

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Como as políticas do governo paulista estão degradando um sistema de transporte público que foi símbolo de excelência. Uma privatização em surdina, e com enorme favorecimento ao comprador. Os metroviários resistem, e tornam-se decisivos nas greves gerais contra a agenda de retrocessos

Wagner Fajardo, entrevistado por Antonio Martins, com vídeo de Gabriela Leite

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Metrô funciona com operadores sem treinamento adequado

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De acordo com sindicalistas, o Metrô age com irresponsabilidade e expõe usuários aos riscos

Por Vinícius Gomes Melo

No início dessa tarde de greve geral no Brasil, o governo do Estado de São Paulo informou que o Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) voltaram a funcionar parcialmente.

Na linha Azul do Metrô, que liga a zona norte à zona sul, os trens circulam entre as estações Ana Rosa e Luz, com exceção da Sé. Na linha 2 (Verde), funciona o trecho entre Ana Rosa e Clínicas. A linha 4 (Amarela), e a linha 5 (Lilás), operam normalmente. A linha 3 (Vermelha), uma das mais movimentadas que liga as zonas Leste-Oeste da cidade, segue paralisada.

No entanto, segundo fontes junto ao Sindicato dos Metroviários, isso é uma tentativa perigosa do Metrô. “Mesmo com adesão à greve de parte dos supervisores, o Metrô insiste em colocar estes [outra parte dos supervisores], com treinamento precário, expondo usuários aos riscos de operarem sistema sem o devido treinamento. Além disso, se houver falhas não haverá quem normalize, podendo causar transtornos”. Continuar lendo

São Paulo, “cidade de trilhos”?

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Ao contrário do que afirma secretário dos Transportes, modelo do governo estadual mantém desmonte da rede ferroviária — e aposta num “metrô para ricos”

Por Oliver Cauã Cauê

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o secretário de Transportes Metropolitanos Jurandir Fernandes surpreendeu ao falar na “São Paulo dos trilhos”. Oras, a terra da garoa tem três vezes menos trilhos que há cem anos. Conforme Rolnik e Klintowitz:

Até a década de 1920, o modo predominante de transporte era coletivo e sobre trilhos – bondes e trens. Segundo Mário Lopes Leão (1945), a cidade tinha, em 1933, uma rede de bondes com 258 km de extensão, três vezes maior do que a extensão atual do metrô. O sistema de bondes nessa época era responsável por 84% das viagens em modo coletivo, realizando aproximadamente 1,2 milhão de viagens/dia, em uma cidade que tinha, então, 888 mil habitantes (Vasconcellos, 1999, p.158). Continuar lendo

Metrô-SP: mais um passo para o caos

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Dias após grande transtorno, trem abre portas em movimento. Empresa prefere não investigar. Problema volta a envolver consórcio acusado de cartel 

Por Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual

Em mais uma falha considerada “grave” por funcionários, um trem que opera na Linha 3-Vermelha do Metrô de São Paulo abriu portas em movimento por volta das 13h40 do último sábado (8). A informação foi repassada por metroviários que atuaram na ocorrência, e que preferem não se identificar para evitar represálias.

A composição conhecida como K24, pertencente à frota K, se aproximava da estação Palmeiras-Barra Funda, na zona oeste da capital, quando uma das portas do sexto carro abriu-se e fechou-se sozinha, inesperadamente e sem comando da cabine. O condutor percebeu a pane e aplicou freios de emergência, trafegando em velocidade reduzida até a plataforma.

Quando o trem parou e as portas se abriram para o desembarque de passageiros, uma usuária que havia presenciado o defeito procurou um funcionário do Metrô para questioná-lo sobre o que vira: “É normal que as portas se abram dentro do túnel?” Continuar lendo

Metrô-SP, em crise, admite: trens abriram portas em movimento

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Após três meses de silêncio, empresa do governo paulista admite ocorrência, que considera “normal”. Matérias revelam sucessão de falhas, cada vez mais graves

Por Tadeu Breda, da RBA e Vinicius Gomes

A Companhia do Metropolitano de São Paulo admitiu, em nota enviada à reportagem na tarde de ontem (12), que duas composições do Metrô realmente abriram portas em movimento nos últimos dias 1º e 2 de novembro. E argumentou que é “normal” as portas se abrirem antes da imobilização completa do trem.

Ocultado pela empresa, o defeito foi denunciado por RBA e Outras Palavras na última quinta-feira (7), com base no relato de funcionários e no registro de falhas da própria companhia. Por isso, o Metrô não teve como negá-las. As panes aconteceram nas estações Pedro II e Belém, na Linha 3 Vermelha, e acometeram dois trens recém-reformados pelo consórcio MTTrens. As composições pertencem à chamada frota K, recordista em problemas. Continuar lendo

Metrô-SP: aprofunda-se caos na manutenção

Foto de Danilo Ramos/RBA

Foto de Danilo Ramos/RBA

Trens da frota K, reformados por empresa acusada de cartel, voltam a abrir portas em movimento. Problemas constantes irritam condutores, que denunciam: há risco iminente de acidentes mais graves

Por Tadeu Breda, da RBA, e Vinícius Gomes

Nos últimos dias 1º e 2 de novembro, dois trens recém-reformados se movimentaram com as portas abertas no Metrô de São Paulo. As falhas ocorreram na Linha 3 Vermelha, que liga a cidade de leste a oeste. As composições com defeito foram recondicionadas há menos de três anos pelo consórcio MTTrens, liderado pela TTrans, empresa envolvida nas denúncias de formação de cartel para burlar a concorrência em editais para modernização da frota e ampliação da malha metroferroviária no estado. Integrantes da administração tucana teriam acobertado o conluio.
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Metrô-SP à beira de tragédia

Metrô teve problemas nesta segunda-feira

Em ocorrência há uma semana, todas as portas de trem abriram-se sozinhas na estação. Fraudes na compra e manutenção de equipamentos já ameaçam vida dos usuários

Por Tadeu Breda, da RBA

A composição do Metrô de São Paulo que descarrilou no dia 5 de agosto, nas proximidades da estação Palmeiras-Barra Funda, na Linha 3 Vermelha, voltou a sofrer uma pane “grave” na última quarta-feira (2/10). A falha colocou novamente a vida dos usuários em risco. Por volta das 18h30, na estação Santa Cecília, também na Linha 3 Vermelha, o trem abriu sozinho todas as suas portas, em todos os vagões, de ambos os lados – inclusive do lado oposto da plataforma, onde se encontra o trilho energizado. A composição está recolhida desde então. A ocorrência não foi divulgada publicamente, mas está registrada nos sistemas de segurança da Companhia do Metrô. A informação foi obtida junto a fonte interna, que não pode se identificar por razões óbvias.

De acordo com funcionários, bastava que os vagões estivessem lotados, como costuma ocorrer, e as pessoas certamente cairiam à via, sujeitando-se a choques elétricos, lesões e atropelamentos. “O Metrô é uma companhia de muita sorte”, disseram metroviários ao tomarem conhecimento da ocorrência. Segundo eles, dessa vez o acaso voltou a ajudar porque a falha ocorreu enquanto o trem se deslocava no sentido Palmeiras-Barra Funda. Se estivesse na direção contrária, encaminhando-se ao terminal Corinthians-Itaquera, dizem, estaria abarrotado e o desfecho seria diferente. Continuar lendo

Metrô-SP: cartel forneceu trens com alto índice de falhas

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Levantamento demonstra: embora novas, composições vendidas em concorrência manipulada quebram quatro vezes mais que as de trinta anos e alimentam caos no transporte público

Por Tadeu Breda* e Vinícius Gomes**


Atualização em 21/3/2014:

Menos de dois meses após uma paralisação de cinco horas na Linha Leste-Oeste (em 4/2), o metrô de São Paulo voltou a viver hoje um situação de caos. Falha ainda não identificada praticamente paralisou o trecho Norte da linha Norte-Sul, entre 6h e 10h20. Viagens que normalmente demorariam dez minutos arrastaram-se por quarenta. Formaram-se aglomerações em todas as estações.

Há nexo claro entre a crise de manutenção do sistema e os sinais de corrupção na Companhia do Metrô e no governo paulista, investigados pela Polícia Federal e Cade. Conhecido, por décadas, pela excelência de seus serviços, o transporte metroviário de São Paulo entrou em decadência abrupta há alguns anos, desde que os trens e a manutenção passaram a ser fornecidos por empresas acusadas de formar cartel e pagar propina a governantes.

Um dos focos de problemas está na chamada Frota K, à qual pertence o trem (K07) que causou caos em fevereiro. Os 19 trens que a compõem a frota fabricados nas décadas de 1970 e 80. Sua reforma, a partir de 2011, está marcada por contratos obscuros com um cartel privado. A operação acaba de ser interrompida, por exigência do Ministério Público.

Mas os transtornos perduram. Como mostra a matéria a seguir, a Frota K apresenta quatro vezes mais falhas que todas as demais — e algumas delas são gravíssimas, envolvendo abertura de portas com trens em movimento. Além de oferecer serviço cada vez mais inconstante, o Metrô-SP parece estar sob risco de um acidente grave. Mas o governo de São Paulo prefere atacar os usuários. Tem a cobertura da velha mídia, que se recusa a investigar sinais evidentes de desmantelamento de sistema que há poucos anos era tido como exemplar — e é cada vez mais indispensável para São Paulo (A.M.)
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Surgiu o primeiro sinal de que a série de fraudes que contaminou as concorrências do metrô paulista são parte do caos vivido todos os dias por milhões de usuários. Levantamento realizado por funcionários da Linha 3 Vermelha do metrô de São Paulo, com base no registro oficial de falhas do sistema, mostra que trens recentemente adquiridos ou reformados pelo governo do estado junto a empresas acusadas de formação de cartel apresentam problemas técnicos em frequência até quatro vezes maior que as composições antigas, com cerca de 30 anos de uso. Algumas das novas aquisições do metrô chegam a registrar média de 35 defeitos por dia. Os dados são preliminares. Foram levantados por trabalhadores impressionados com as constantes quebras e acidentes envolvendo estes carros. Diante dos dados, é essencial que a Companhia do Metropolitano apresente as estatísticas oficiais sobre falhas – que possui mas, até o momento, não disponibiliza.

Os números são resultado da análise do histórico de oito dos cerca de 50 trens que operam no trecho leste-oeste da malha metroviária paulista, e foram obtidos após consulta a um sistema conhecido como S-GUT, que registra informações sobre todas as composições do metrô, tais como localização, quilômetros rodados, tempo de operação e número de problemas técnicos denunciados pelos condutores. O S-GUT pode ser acessado a partir de computadores conectados à rede da empresa, mas apenas permite visualização dos dados na tela. As informações não podem ser gravadas. Por isso, a contagem de falhas teve que ser realizada manualmente. Continuar lendo

Empresa sonega informações ao público

Nova leva de secretários de Alckmin inclui Saulo de Castro nos Transportes

Registro de comunicação entre repórter e Companhia do Metrô revela: há intenção clara de recusar informações e despistar de forma primária investigação jornalística

Por Antonio Martins e Tadeu Breda*

Apenas nas últimas 24 horas, o metrô de São Paulo viveu duas novas ocorrências graves – uma delas com feridos. Antes das 5h da manhã desta quinta-feira (05/09), um trem que percorria a linha 3 (Leste-Oeste) teve falha nos freios, soltou forte fumaça na estação Sé e precisou ser esvaziado. Em horário normal, o fato teria gerado forte transtorno. Já na quarta-feira, um acidente ainda não esclarecido na esteira rolante que liga as estações Paulista (linha 4) e Consolação (linha 2) provocou ferimentos em vinte pessoas. Dez delas foram hospitalizadas. Houve pânico no local, frequentemente superlotado. Não há, no entanto, nenhuma informação a respeito, nos sites da Companhia do Metrô ou da Via4 (que administra a linha 4, privatizada).

Durante décadas, o metrô paulistano foi conhecido por sua excelência. Agora, diante dos sinais evidentes de crise na manutenção, os responsáveis pelo sistema parecem ter adotado uma política deliberada de sonegação de informações. Elas são coletadas: Metrô e Via4 fornecem em tempo real, em seus sites, dados sobre situação instantânea das linhas (1 2). Há algum tempo, após o aumento do número de falhas, o Metrô implantou inclusive um sistema que imprime automaticamente “declarações de ocorrência”, que podem ser impressas e apresentadas para justificar atrasos. Continuar lendo

Em crise de manutenção, Metrô-SP põe trens com falhas para circular

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Registros produzidos por condutores mostram que empresa ignora problemas de segurança em composições da mesma frota cujo trem descarrilou no início de agosto

Por Tadeu Breda

Voltaram se agravar, semana passada, os sinais de problemas crescentes na manutenção do metrô de São Paulo e de riscos concretos à segurança dos usuários. A Companhia do Metropolitano (Metrô)  ignorou falhas apontadas por funcionários e colocou em circulação, na noite da última sexta-feira (23), pelo menos um trem com defeito na Linha 3 Vermelha. A “solução” teria sido adotada para contornar um desfalque de sete composições no trecho, todas afastadas por problemas técnicos. Registros no diário de condutores e telas de monitoramento do sistema metroviário revelam ainda que, na semana passada, dois trens da chamada frota K foram retirados e recolocados em circulação pelo menos seis vezes em cinco dias – também devido a falhas.

A frota K possui 25 composições, que estão sendo reformadas desde 2010 pelo consórcio MTTrens, formado pelas empresas MPE, Temoinsa e TTrens – esta última envolvida nas denúncias de cartel em conluio com governos tucanos em São Paulo. Pertence a essa frota a composição que descarrilou na manhã do dia 5 de agosto, nas proximidades da estação Palmeiras-Barra Funda, na Linha 3 Vermelha. Havia passageiros, mas, felizmente, ninguém se feriu. Segundo o Sindicato dos Metroviários, o acidente foi provocado pela ruptura de uma peça chamada “truque” ou “truck”, termo técnico que designa o sistema composto por rodas, tração, frenagem e rolamentos do trem.
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