Mia Couto: para enfrentar as novas Guerras Frias


Reflexão poético-política do escritor moçambicano serve de alerta à redução da maioridade penal ao lembrar: vivemos sob uma “Geografia do Medo” que, enquanto não decifrada, exigirá “produzir inimigos e sustentar fantasmas”

Por Inês Castilho

“O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.”

As palavras de Mia Couto, nome assumido pelo premiado escritor moçambicano Antônio Emílio Leite Couto em razão de seu amor pelos gatos, soaram alto no silêncio da Conferência Estoril de 2011 – a mesma para a qual Eduardo Cunha foi convidado agora em 2015.

Jornalista militante na guerra de libertação de seu país africano do colonialismo português, biólogo e professor de ecologia na universidade pública de Maputo, seu discurso “Murar o medo” foi lembrado pelo deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) ao se pronunciar, em reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), contra a redução da maioridade penal proposta pelo presidente da Câmara. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Violência: quem lucra, quem morre

150618-Violência
Um adolescente é assassinado a cada hora: 24 por dia, 42 mil até 2019. Excelente negócio para a indústria armamentista, que elegeu 21 deputados no último pleito

Por Celso Vicenzi

A violência toma conta das cidades. É o que se ouve, é o que se vê, é o que se lê, cada vez mais, nos principais veículos de comunicação. A tese não é equivocada, apenas é incompleta e mal explicada. Não faltam evidências empíricas, no dia a dia dos brasileiros, para concluí-la verdadeira. Tampouco as pesquisas e os estudos desmentem o que a mídia esforça-se por ampliar: a sensação de insegurança, de viver num cenário de permanente violência.

Somos, sim, um país violento. E não é caso recente. A população indígena foi praticamente dizimada no contato com portugueses e outros povos europeus, no início da colonização. Fomos o penúltimo país a acabar com a escravidão. Chegamos ao século 21 entre as cinco nações mais desiguais do planeta. E, até hoje, a tortura tem sido largamente empregada por forças policiais no dia a dia das delegacias e penitenciárias. Continuar lendo