O nosso 11 de setembro

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11 de setembro de 1973: o Palácio La Moneda, onde estava o presidente socialista Salvador Allende, é bombardeado pelo Exército chileno sob o comando do general Augusto Pinochet

Um brasileiro que vivia no Chile registrou o dia fatal do golpe que despedaçou a democracia de Allende, em 1973, Aconteceu muito antes do 11 de setembro dos EUA – que ajudaram a instalar a ditadura em Santiago

Por Cid Benjamin

Ontem, 11 de setembro, foi aniversário do sangrento golpe militar que assassinou Salvador Allende e implantou a sangrenta ditadura do general Pinochet.

Na ocasião eu estava no Chile, onde tinha ingressado com documentos falsos para voltar clandestinamente ao Brasil, depois de ter sido trocado, juntamente com outros 39 presos políticos, por um embaixador sequestrado pela guerrilha.

Reproduzo aqui o trecho do meu livro de memórias Gracias a la vida (Editora Jośe Olympio, 2013), em que falo desse dia.

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“No dia 11 de setembro veio o golpe, que, em seu momento inicial, talvez tenha sido o mais violento dentre todos os acontecidos na América Latina.

“Na ocasião, já estávamos há poucas semanas, eu, Isolde e Ani, em outra casa, melhor do que o apartamento em que, até então, tínhamos morado. No dia do golpe, saí cedo para uma reunião política com brasileiros. Na rua, senti um clima estranho. E havia grande movimento de helicópteros e aviões. Perguntei a um transeunte se tinha acontecido algo.

“Los milicos se alzaran”, foi a resposta.

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TEXTO-FIM

Obama, a Argentina e os novos golpes

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Em 1976, Washington ajudou a instaurar, em Buenos Aires, a ditadura mais sangrenta da América Latina. Agora, diz Nobel da Paz, EUA articulam outros tipos de ataque à democracia

Por Thales Schmidt | Imagem: Martin Acosta

Há 40 anos os militares argentinos prenderam a presidente Isabel Perón e invadiram as estações de televisão e rádio para dar um recado: “O país está sob o controle operacional do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas. Se recomenda a todos os habitantes o estrito respeito às ordens das autoridades militares e policiais”. A madrugada de 24 de março de 1976 durou mais de 7 anos e terminou com milhares de mortos, torturados e desaparecidos pelos militares. Agora, o país relembra o aniversário do golpe com a visita de Barack Obama, presidente dos Estados Unidos e chefe de Estado de um país diretamente envolvido com a derrubada do governo.

A data da visita de Obama a Mauricio Macri foi muito criticada por alguns setores da sociedade argentina. O prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, preso e torturado pelo governo militar, publicou carta pública em que diz que os Estados Unidos “foram cúmplices de golpes de Estado no passado e no presente da região”. Esquivel também afirmou que Obama será bem recebido quando os Estados Unidos “deixarem de ser o único país da América que não ratifica a Convenção Americana de Direitos Humanos”. Continuar lendo

1964: o artigo que O Globo recusou-se a publicar

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Jornal encomenda, e depois veta, texto que expunha aspecto pouco conhecido do golpe: a repressão aos trabalhadores e sindicatos

Por Paulo Fontes

[Outras Palavras publica, aqui, o texto de Paulo Fontes censurado por “O Globo”]

Sou professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e historiador especializado em história social do trabalho. Em meados de março, fui procurado pela assistente da direção da instituição na qual trabalho, questionando se eu teria interesse em publicar um artigo sobre o golpe de 64 para O Globo. Como em outros momentos de aniversário de eventos históricos, o jornal solicitava então aos pesquisadores do CPDOC artigos de avaliação e opinativos. Apesar de mergulhado em outras atividades, concordei em fazer um curto artigo sobre o papel dos trabalhadores no golpe e na ditadura, por julgar ser este um tema de grande relevância acadêmica, política e social. Acredito que o texto  aborda a questão por um ângulo bem pouco explorado nas análises que estão sendo publicadas nos vários órgãos de imprensa.

Entreguei o artigo em 20 de março. Para minha surpresa, ele não foi publicado. Segundo informou o jornal, a não publicação baseia-se em uma série de decisões editoriais que dizem respeito a espaço, a prioridades temáticas com o surgimento de novas notícias ou contribuições não previstas etc. Continuar lendo

A noite em que lembramos o que restou da ditadura

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No Rio, grupo Tortura Nunca Mais relembra, entre outros, Amarildo e os guaranis, para frisar que violência contra pobres e desigualdade brutal persistem

Por Arlindenor Pedro

O dia 1º de abril deste ano foi um dia singular. Em todos o país, inúmeras manifestações, organizadas por um vasto leque de entidades, marcaram os cinquenta anos da deposição do presidente eleito João Goulart em 1964. Foram palestras, debates, atos culturais e políticos, marchas e comícios em praças públicas, mostrando de forma incisiva e criativa que a sociedade brasileira não quer esquecer o que ocorreu naquela data, quando o país mergulhou na mais sangrenta ditadura da sua história.

Este clima de comoção havia se iniciado dias antes, nas redes sociais. Internautas substituíram seus avatares por figuras de desaparecidos e mortos pela ditadura. Filhos fizeram homenagens a seus pais militantes. Pais choraram seus filhos torturados. Textos, vídeos e músicas relembraram os dias de chumbo do regime militar e trouxeram à tona revelações e novas formas de enfoque sobre a ditadura. O ambiente manteve-se durante dias. Espraiou-se para discursos nos Legislativos, textos na mídia, aulas e seminários nas universidades e escolas. Continuar lendo