Brasil: como virar a página?

170510-Página2

Hoje, Moro interroga Lula, num processo partidarizado e castrador das liberdades. Na sexta, completa-se um ano do golpe. Que estratégias permitirão sair desta maré?

Por Antonio Martins

Dois fatos marcarão o Brasil nas próximas horas. Hoje, Lula será interrogado por Sérgio Moro, no âmbito de um processo judicial que viola os direitos constitucionais e tornou-se claramente partidarizado. Na sexta, completa-se um ano do golpe que levou Temer ao governo.

Muito mudou, em pouquíssimo tempo. Os investimentos sociais do Estado foram congelados por vinte anos. Uma nova legislação permite entregar o Pré-Sal a petroleiras internacionais. Dificultou-se ainda mais a demarcação de terras indígenas. Pretende-se desmontar a Previdência Social pública e a CLT.

As ilusões de que o impeachment reduziria a corrupção esfarelaram.se. A crise econômica aprofundou-se. As últimas pesquisas revelam que a aprovação de Temer despencou a 4% – um recorde negativo absoluto. Apesar disso, o governo (com providencial apoio da mídia) continua capaz de aprovar medidas de grande impacto no Congresso – um sinal de que a “democracia” reduziu-se a uma farsa.

Neste 10 de Maio, Outras Palavras quer saber: como sair desta maré? Que estratégias políticas permitirão virar a página do golpe e dos retrocessos? Como superar, além dos tempos ásperos de hoje, os erros do passado recente? Nossa pergunta não se dirige principalmente aos políticos, mas a quem está aginda para mudar o país a partir da sociedade.

Onde devemos concentrar esforços? Nas eleições de 2018? Num processo mais profundo de lutas sociais? Mas, neste caso, começando por onde?

Ao longo das próximas horas, ouviremos, a respeito, gente que pensa e age para mudar o Brasil e o mundo. As respostas ajudarão a compor um painel sobre as alternativas políticas, neste momento Mas você pode, desde já, expressar sua própria opinião, como comentário a este post.

TEXTO-FIM

Três notas às vésperas da greve geral

170425-Laerte

Legal ou ilegalmente, grandes empresas controlam a “democracia”. Os políticos que acumulam não são os mais citados pela mídia. Alardeia-se a corrupção para esconder crimes muito mais graves

Por Roberto Malvezzi (Gogó), em seu blog | Imagem: Laerte

A filosofia nos ensinava que o “bom filósofo sabe distinguir”. Na Teologia o discernimento é um dom do Espírito Santo. Porém, discernir não é apenas um ato racional como quer a filosofia, mas buscar com reta intenção e reto coração o que é justo e bom. Então, vamos a alguns discernimentos para o momento atual brasileiro:

Primeiro, todos os grandes partidos – inclusive grande parte dos menores – se utilizaram fartamente do dinheiro das grandes empresas, como o PMDB, PSDB e PT. Se o dinheiro é legal ou ilegal tanto faz para nós cidadãos. O fato é que quem recebe tanto dinheiro de empresas está com sua cabeça na corda da forca e terá que retribuir esses financiamentos.

Segundo, para as empresas a propina é investimento. O que for dado, legal ou ilegalmente, será cobrado. Nesses anos de intensa propina, o patrimônio da Odebrecht saltou de 16 para mais de 100 bilhões. Portanto, compensou.

Continuar lendo

A que se presta o Ministério Público

161019-promotor

Sadismo? Bajulação ilimitada do poder? Repressão da PM cega estudante. Promotor de SP, ao invés de apurar violência policial, quer investigar universidade que prestou apoio a sua aluna

Por Igor Fuser | Imagem: Juan Bautista Maino, A recaptura da Bahia de Todos os Santos (1635, detalhe)

Um abaixo-assinado em solidariedade à Universidade Federal do ABC (UFABC) está circulando desde ontem (18/10), Intitula-se “Em defesa da democracia, da tolerância”. Já recebeu centenas de adesões. A UFABC foi “denunciada” ao Ministério Público por ter prestado ajuda à estudante Deborah Fabri, aluna dessa universidade, de 19 anos de idade, que perdeu a visão de um olho ao ser atingida por uma bomba durante a brutal repressão policial a manifestantes que protestavam contra o golpe, em São Paulo, em 31 de agosto, a noite da deposição da presidenta Dilma Rousseff.

Ao tomarem conhecimento da dolorosa situação de Deborah, gestores da UFABC empenharam-se em prestar toda a ajuda possível à jovem e aos seus familiares, que viajaram imediatamente do interior de Minas Gerais para São Paulo. Como ela já estava hospitalizada e recebia atendimento médico adequado, na prática essa ajuda se limitou a duas iniciativas: 1) providenciar um carro que levou os pais de Deborah da rodoviária ao hospital; 2) enviar um profissional integrante do quadro de servidores da UFABC, que manteve contato com a estudante com a finalidade de lhe prestar apoio psicológico. No total, a despesa com esses procedimentos foi calculada em R$ 14,00 (catorze reais), referentes ao combustível consumido pelos carros da universidade nesses trajetos. Continuar lendo

Por que o “Fora, Temer!” já não basta

160608-ForaTemer

Possível prisão da cúpula do PMDB demonstra: presidente é figura secundária, no cenário caótico que conduziu ao golpe. Para restaurar democracia e evitar o Estado Policial, é preciso propor a Reforma Política

Por Antonio Martins


TEXTO EM CONSTRUÇÃO
O rascunho a seguir é o ponto de partida para uma análise de mais fôlego sobre o cenário político atual. Contribuições e críticas são muito bem-vindas. Faça-as no espaço para comentários do post

Trinta horas depois de revelado o pedido de prisão dos senadores Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá, e do deputado Eduardo Cunha, ainda é impossível saber a que interesses serviu o vazamento. Aos do Procurador Geral da República (PGR), que quer tirar de cena a cúpula do PMDB e procurou expô-la à execração pública? Ou, ao contrário, aos próprios dirigentes do partido, interessados em amedrontar a casta política para mobilizar sua solidariedade contra Rodrigo Janot?

Seja qual for a resposta, algo muito relevante emergiu. A ousadia dos pedidos de prisão indica que o terremoto político iniciado pela Operação Lava Jato pode estar muito longe do final. Janot – ao que tudo indica o mentor e coordenador [texto Nassif] dos juízes e procuradores de Curitiba – atinge agora o núcleo central do governo Temer e do PMDB. Talvez também esteja por trás dos vazamentos muito recentes que comprometem o próprio governo FHC e fustigam, portanto, a oposição mais claramente identificada com o neoliberalismo. Se enfrenta tantos oponentes, investindo de maneira inédita contra o Palácio do Planalto e o comando do Legislativo, duas conclusões se impõem.

Continuar lendo

Golpe paraguaio e América dividida

Ilustração: Santiago

Ilustração: Santiago

Reunião da OEA revela existência de dois blocos e declínio da influência dos EUA. Mas defensores da legalidade não parecem dispostos a ir além da retórica

Por Hugo Albuquerque

Nessa última terça, (10/7), a Organização dos Estados Americanos (OEA) realizou uma sessão extraordinária para debater como reagir diante da situação no Paraguai, mas não chegou a conclusão. O país sul-americano entrou na pauta dos principais blocos e organizações do continente depois que um processo de impeachment, votado de forma relâmpago e afastando qualquer possibilidade de defesa, destituiu o presidente Fernando Lugo. Um típico caso de golpe branco, no qual tanques e aviões deram lugar ao parlamento e a togas.

Na semana passada, o Mercosul (bloco econômico do Cone Sul) e a Unasul (União das Nações da América do Sul) haviam decidido, por unanimidade, suspender o Paraguai até que a ordem democrática seja reestabelecida. Com a OEA, foi diferente. Além de reunir os integrantes da Unasul e Mercosul, ela tem como membros os países norte e centro-americanos (exceção feita a Cuba) – isto é, a zona de influência direta de Washington. A correlação de forças é naturalmente mais complexa e tensa. Continuar lendo