Xploit 03 — Colonialismo 2.0


“Outras Palavras” exibe o terceiro episódio de “Xploit – Internet sob ataque”, premiada como melhor série documental no RioWebFest 2017. Neste vídeo, a colonização da rede por um punhado de empresas, como 

Por André Takahashi

Neste episódio, Xploit explica como a concentração da infraestrutura da internet nas mãos de alguns países e empresas, e a monocultura das grandes aplicações, acaba desenhando contornos que lembram o período colonial entre os séculos XVI e XX. Essa dinâmica impõe uma dependência para o funcionamento da internet que restringe a pluralidade sonhada pelos seus pioneiros.

Dirigida por Fabrício Lima, com produção executiva de André Takahashi, a websérie conta com a ajuda de um seleto grupo de entrevistados. Entre eles, estão o co-criador do sistema GNU Richard Stallman, o jornalista James Bamford, a advogada Flávia Lefèvre, a jornalista Bia Barbosa, a cientista social Esther Solano e o sociólogo e cyberativista Sérgio Amadeu da Silveira — a série introduz o espectador nas disputas políticas políticas e econômicas que resultarão consequencias diretas em nossos diretos essenciais dentro e fora do mundo digital.
TEXTO-FIM

Facebook contra o Teatro Oficina: incultura e violência

Cena de "Os Sertões - a Luta"

Cena de “Os Sertões – a Luta”

Por puritanismo, rede tira do ar página com milhares de textos e imagens, e mais de 30 mil seguidores. Ação, voltada contra corpo feminino, ofende primavera das mulheres

Do coletivo do Teatro Oficina

No domingo de manhã (7), todos os perfis pessoais dos administradores da página oficial do Teatro Oficina, receberam o seguinte comunicado:

“A sua página ”Teatro Oficina Uzyna Uzona” foi removida por violar nossos Termos de Uso. Uma página do facebook é uma presença distinta usada unicamente para fins comerciais ou promocionais. Entre outras coisas, Páginas que incitam o ódio, são ameaçadoras ou obscenas não são permitidas. Páginas que atacam um indivíduo ou grupo ou que são criadas por um indivíduo não autorizado também são removidas. Se a sua Página foi removida por algum dos motivos acima, ela não será reintegrada. A continuidade do uso incorreto dos recursos do Facebook pode resultar em perda permanente se sua conta.”

A página da companhia havia sido retirada do ar na quinta feira (4), pela denúncia anônima de uma foto, publicada em fevereiro, que mostrava uma mulher sem camisa, com mamilos de fora. Continuar lendo

E se o Facebook tornar-se um Bem Comum?

Novas mudanças na plataforma convidam a um debate necessário: não é hora de estabelecer alguma democracia e transparência nas redes sociais – cujo conteúdo é criado por milhões de usuários?

Mais um vídeo experimental de Outras Palavras [Segunda parte. A primeira está aqui: bit.ly/facebookparte1]

Como o Facebook tenta colonizar a internet

160203-facebook

Movimentos indianos reagem, com indignação, a ideia supostamente tentadora: assegurar acesso dos mais pobres à rede — mas só nos canais selecionados pela firma de Zuckerberg…

Por Gabriela Leite | Imagem: Pawel Kuczynski

O Facebook está prestes a sofrer um revés, graças aos ativistas pela liberdade da internet. A Índia definirá, nos próximos dias, se vai banir do país o Free Basics, atrevida iniciativa de Mark Zuckerberg, dono da rede social gigante. O projeto consiste em uma parceria com operadoras de telefonia móvel de países em desenvolvimento para fornecer internet gratuita a pessoas pobres, porém apenas a um número limitado de sites e conteúdos filtrados pela empresa de Zuckerberg — Facebook obviamente incluso. Desde dezembro, o serviço está bloqueado no país asiático, e acontecem fervorosas discussões sobre seu futuro e o que será da liberdade da internet para os indianos. O órgão local que regula as telecons, TRAI (Telecon Regulatory Authority of India), decidirá nos próximos dias se Free Basics será ou não permitido.

160203-freebasics

“O Free Basics, do Facebook, é um primeiro passo para conectar um bilhão de indianos a empregos, educação e oportunidades online, e no final das contas a um futuro melhor. Mas o Free Basics está em risco de ser banido, desacelerando o progresso para a igualdade digital na Índia.” — outdoor pede para pessoas fazerem ligações para apoiar a iniciativa do Facebook

O que está em jogo, na Índia e em outros países onde o Free Basics já opera, é a neutralidade da rede. Garantida pelo Marco Civil da Internet, no Brasil, ela diz respeito ao conteúdo disponível: nenhum site deve ter privilégio de navegação, nenhuma operadora pode oferecer pacotes com apenas alguns sites disponíveis. Continuar lendo

Censura política no Facebook?

facebook-censorship

Rede retira do ar texto de Patrick Cockburn, que aponta responsabilidade dos EUA na origem da onda de refugiados que chega à Europa. Questionado, Facebook silencia

Por Antonio Martins

As práticas de censura adotadas pelo Facebook podem ter assumido caráter aberto de controle político. Na madrugada de hoje, a plataforma excluiu um texto publicado por Outras Palavras sobre um dos temas centrais da conjuntura global: a crise dos refugiados que se espalha pela Europa. Redigido pelo jornalista irlandês Patrick Cockburn, considerado em todo o mundo1 um dos principais especialistas em questões do Oriente Médio (vale conhecer seu livro magistral sobre o ISIS), o texto tem uma marca especial. Amparado em farta pesquisa e análise, ele aponta a responsabilidade dos Estados Unidos e seus aliados no deslocamento em massa das populações islâmicas – que compõem o grosso da maré humana em movimento. Ao intervir militarmente sobre países árabes, ou desestabilizar de modo consciente seus Estados, argumenta Cockburn, Washington engendrou guerras que estão desabrigando milhões.

Estampado ontem como manchete, em nosso site, o texto teve seu título, subtítulo e imagens publicados no Facebook à tarde. Foi compartilhado e curtido por algumas centenas de pessoas, e alcançou algumas dezenas de milhares. Porém, pela madrugada, foi excluído sumariamente e sem aviso prévio. Todas as pessoas que o compartilharam também tiveram o texto excluído. Como “aviso”, a rede registrou, de modo lacônico: “Esta mensagem contém conteúdo que foi bloqueado pelos nossos sistemas de segurança”. Nossa contestação à censura, enviada por volta das 10h, não recebeu resposta até o momento. Diversas tentativas de repostar o conteúdo foram igualmente bloqueadas, com idêntico aviso.

facebook censura

O declínio da democracia nas nações ocidentais que por séculos juraram defendê-la é uma ameaça crescente e assustadora. Outras Palavras tem tratado do tema com insistência. Procuramos demonstrar que a ameaça já não se expressa apenas no sequestro da política por uma elite (a “casta”, diriam os espanhóis) que evita a qualquer custo o debate dos temas cruciais para a definição do futuro coletivo. Manifesta-se também em ataques mais diretos às próprias liberdades civis: perseguição de dissidentes, vigilância, violação constante da privacidade na brutalidade das polícias contra os que divergem. A censura praticada costumeiramente pelo Facebook é parte deste retrocesso. Os laços entre o Facebook e o setor de espionagem politica do Estado, nos EUA, são fartamente conhecidos. Mas os métodos de controle social empregados pela rede pareciam ter, até o momento, um caráter mais sutil.

Por um lado, a censura era “justificada” pelo suposta opção de não ferir sensibilidades dos leitores. Corpos nus, por exemplo, são banidos – mesmo quando retratam povos que optam por não se vestir, ou quando estão presentes em obras de arte com as quais a própria Inquisição era mais tolerante… Por outro lado, o Facebook parece optar, na maior parte do tempo, por um controle mais difuso e pervasivo. Ao invés de excluir, escolhe os conteúdos que chegarão a seus leitores. Afirma fazê-lo por meio de algoritmos “neutros”, mas se recusa a revelar que critérios orientam tais instruções – evidentemente construídas por seres humanos. Outras Palavras tem publicado, aliás, textos (1 e 2) que apontam os gravíssimos riscos de manipulação política presentes nesta prática.

Se a esta forma mais dissimulada de manipulação veio somar-se, agora, a censura política primária, é porque podemos estar diante de algo grave. Como diz John Pilger — um autor que nos orgulhamos de traduzir e publicar –; e como mostram, por exemplo, o encarceramento de Chelsea Manning e a perseguição a Julian Assange e Edward Snowden, podemos estar à beira de algo como “um 1984 high-tech”.

Outras Palavras continuará usando o Facebook. Vê as redes sociais como bens comum da humanidade, por reunirem conhecimento, diálogo e experiência imensamente superiores às pretensões de seus “proprietários”. Mas atitudes como a censura de hoje levam a lançar ao menos duas perguntas. Não é hora de incluir em nossas agendas políticas a democratização das redes sociais? Enquanto este objetivo permanecer distante, não será preciso multiplicar esforços para a criação de alternativas aos gigantes que ameaçam controlar a internet?

1. Patrick Cockburn foi considerado melhor jornalista no Oriente Médio pela British Journalism Awards e melhor repórter do ano pela The Press Awards em 2015.

Software Livre: para proteger-se da vigilância

150915-spy

Facebook, Whatsapp, Hangouts e Skype são especialmente espionáveis. Windows e OS X, também. Veja como GNU/Linux e criptografia permitem recuperar privacidade

Por André Solnik*


Textos anteriores da coluna:
Por que usar formatos abertos
Você também pode migrar
Carta aberta a Bill Gates

Qual sistema operacional é mais seguro: Windows, OS X ou GNU/Linux? Vez ou outra essa questão ressurge em algum fórum na internet e é seguida por uma enxurrada de mensagens defendendo um dos três. Algumas mais apaixonadas, outras mais técnicas, mas nenhuma capaz de encerrar esse impasse de uma vez por todas.

Quando alguém me faz essa pergunta, prefiro estimular o debate partindo da seguinte afirmação: um sistema operacional proprietário jamais será seguro. Nem aqui, nem na CIA. “Mentiroso! Caluniador! Meu Windows nunca pegou um vírus sequer!”, esbravejam os leitores mais exaltados. Calma, me explico.

Um sistema operacional é, basicamente, um conjunto de programas que gerencia os recursos de um computador (processador, memória, arquivos, etc). Um programa, por sua vez, nada mais é do que uma série de instruções que descreve exatamente o seu funcionamento. Continuar lendo

Os velhos jornais suicidam-se no altar do Facebook?

A man is silhouetted against a video screen with an Facebook logo as he poses with an Dell laptop in this photo illustration taken in the central Bosnian town of Zenica

Ao publicarem matérias inteiras numa plataforma que mistura propositadamente informação e entretenimento, “New York Times”, “Guardian” e outros podem estar chocando o ovo da serpente

Por Bruno Torturra, em sua página no Facebook

Comercialmente talvez – nada mais que talvez – faça sentido o NYT e outros grandes veículos entrarem nessa de fornecer conteúdo direto ao Facebook. Ainda espero os detalhes das condições e fontes de receita para os jornais para fazer um juízo menos precipitado.

Mas por enquanto me parece um erro grave.

Em parte entendo a capitulação. “Una-se a eles”, diz quem entende que já não pode vencê-los. Mas ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.

Porque para mim a arquitetura do Facebook é a exata corrosão de muitos fundamentos jornalísticos – justamente os que instituições como NYT e Guardian deveriam preservar – em prol de uma dinâmica que dissolve as barreiras do entretenimento e do jornalismo, da mera distração e da notícia, da relevância social e dos interesses estritamente pessoais.

E isso tem efeito especialmente nefasto, me parece, no papel mais importante do jornalismo. Que não é gerar audiência ou tráfego. Mas impacto. E é justamente isso que tenho sentido ultimamente. Um acelerado processo de erosão do impacto que o jornalismo causa na sociedade. E a ascensão do ruído, da falta de contexto, do buzz e da cultura de trends e hashtags como os maiores influenciadores da opinião pública. Isso muda a forma como público entende e consome jornalismo. E tende, a curto prazo, a transformar tudo nessa palavra leve, porém perigosa: conteúdo.

Claro que o processo é bem mais complexo do que isso. Mas o Facebook é protagonista nisso. E sua estrutura não indexada, sem mecanismo de busca, compulsiva e impermeável, tende a aprofundar esse cenário.

Claro que posso – e no fundo espero – estar errado. Mas ao abraçar o Facebook como parceiro, o NYT e grande elenco podem estar cometendo um erro equivalente, digamos, ao do PT dando os braços ao PMDB. Você pode até chamá-lo de parceiro. Mas quando você olhar pro lado… eles tomaram algo que não estava no contrato: a sua alma.

Agora, pronto. Dá um like aí.

Continuar lendo

Facebook: o fim está próximo?

140203-facebook

Com fuga de usuários jovens, plataforma envelhece. Estudo prevê declínio semelhante ao das epidemias. Não estará na hora de uma rede mais livre?

Por Gabriela Leite

O quanto o Facebook já faz parte de nossas vidas, e por quanto tempo isso ainda vai durar? Há grandes chances de você ter chegado até este texto ou ter conhecido este site através da rede social de Mark Zuckeberg — que já é utilizada por mais de um bilhão de pessoas. Mas antes dela, houve outras: o Orkut, famoso principalmente entre os brasileiros, o MySpace, mais comum nos EUA e diversas outras, mais segmentadas ou não. Com base na vida e morte destes sites populares na internet, algumas pesquisas começam a tentar prever quando será o fim do novo gigante das redes sociais, cuja ética parece cada vez mais questionável.

Alguns fatos concretos indicam que, sob algumas perspectivas, o Facebook já está caindo: desde 2011, 25,3% dos adolescentes de 13 a 17 anos desativaram suas contas apenas nos Estados Unidos. Isso fez a rede envelhecer sensivelmente: hoje, também nos EUA, a faixa etária com mais usuários é entre 35 e 54 anos — e a de mais de 55 é a que mais cresce. O motivo para os jovens  abandonarem a rede é exatamente este: a necessidade de privacidade em relação aos adultos, que, uma vez integrados à plataforma, podem “vigiar” seus filhos e parentes. Por isso, estes migram para redes sociais mais específicas, de compartilhamento de fotos e imagens, por exemplo. Continuar lendo