Trump já tropeça em seus próprios limites

170210-Trump

Plano para atrair a Rússia e isolar a China parece pueril. E o Estado Profundo dos EUA começa a sabotar seu presidente — agindo na Ucrânia

Por Antonio Martins

Em teoria, o plano é ótimo. Como um Nixon ao contrário — porém igualmente poderoso –, o novo presidente dos EUA irá se aliar à Rússia, para afastá-la da China, vista hoje (com razão) como a principal ameaça à dominação global norte-americana. A estratégia tem até um padrinho: Henry Kissinger, o ex-secretário de Estado que articulou, nos anos 1970, a aproximação de Washington com Pequim (além de apoiar o golpe de Pinochet e outras estrepolias…).

Mas a execução é que são elas. Dois fatos, nas últimas semanas indicam tanto os limites para a ação de Trump (muito maiores que os de Nixon, há três década) quanto as contradições e mesmo sabotagens crescentes que o presidente encontra no aparato de Estado dos EUA. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Alcântara: começa mobilização contra entrega da base

20151102125418223007o

Entidades nacionais propõem: é preciso exigir debate público e frear acordo que transfere soberania sobre base de foguetes e bloqueia desenvolvimento tenológico do país. Leia nota


LEIA MAIS:
O ZUMBI DE ALCÂNTARA
Governo tenta retomar acordo para ceder aos EUA base de lançamento de foguetes. Conheça as cláusulas que vetam desenvolvimento tecnológico e ferem dignidade do país. Por Marcelo Zero

Entre os absurdos políticos que o Brasil está enfrentando hoje, destaca-se a continuidade da submissão às imposições neoliberais do Consenso de Washington, aplicadas pelo Banco Mundial e FMI desde os anos 90 do século passado aos “países em desenvolvimento” da periferia do capitalismo, por parte do governo brasileiro ilegítimo e corrupto, que usurpou a Presidência da República através de um golpe implementado pelo Congresso Nacional, legitimado pelo Judiciário e pela grande mídia.

A notícia de que o Sr. José Serra, Ministro das Relações Exteriores, retomou contatos para “oferecer” o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, é mais uma comprovação do DNA entreguista desse governo. Este acordo já se mostrou não apenas desvantajoso ao Brasil do ponto de vista econômico e tecnológico, mas completamente ofensivo à soberania nacional ao permitir controle total ou parcial dos EUA sobre parte do território nacional, o que por si só o torna inaceitável. Continuar lendo

Maconha: os EUA legalizam, mas querem proibir no resto do mundo

161108-maconha

Novos Estados norte-americanos podem derrotar proibicionismo em plebiscitos hoje. Mas a política de “guerra às drogas”, que já matou milhares, segue em vigor…

Por Antonio Martins

Quando forem às urnas, hoje, os norte-americanos não estarão elegendo apenas um – ou uma – presidente. Em pelo menos nove Estados, haverá plebiscitos sobre um tema antes tabu: a legalização do uso, cultivo e comércio maconha. As pesquisas indicam que o eleitorado tende a dar este passo na Califórnia e Massachussets (é menos certo que o façam no Maine, Arizona e Nevada). Além disso, quatro outros Estados, entre eles a Flórida, poderão aprovar a descriminalização ao menos para uso médico. A tendência à legalização parece impor-se. Nos últimos anos, ela – até há muito pouco um tabu – já foi decidida no Colorado, Washington, Oregon e Alaska. Pesquisas recentes demonstram que 60% dos norte-americanos defende descriminalizar.

Mas há um paradoxo curioso, nesta recente virada. Ela não foi acompanhada por uma mudança – mínima que seja – na política norte-americana de impor ao mundo, desde 1971, sua “guerra às drogas”. Ela já causou inúmeros conflitos, milhares de mortes, ações agressivas de fumigação de agrotóxicos, estímulo à formação de cartéis criminosos que lucram com uma “reserva de mercado” objetivamente criada pelos Estados. Continuar lendo

Assim o Pentágono vê o mundo em 2030

Filme secreto, usado em treinamento militar, é revelado. EUA preveem que, em 15 anos, metrópoles estarão devastadas e caóticas. E querem preparar-se para guerrar nestas condições extremas

Que as guerras promovidas pelos EUA neste século devastam cidades, inviabilizam países e instalam situações de caos permanente, já se sabia. Porém o site The Intercept, de Glenn Greenwald, acaba de obter uma informação chocante. Este cenário de desumanização brutal é o que o Departamento de Defesa (“Pentágono”) — órgão que coordena as forças armadas norte-americanas — prevê, de forma “inevitável”, para as metrópoles do mundo todo, já em 2030.

A distopia está expressa num vídeo de cinco minutos publicado acima, e revelado ontem graças a um requerimento baseado na Lei de Liberdade de Informação dos EUA. Não se trata de fantasia especulativa, mas de material didático. A peça foi parte de um curso oferecido, no começo deste ano, pela a Universidade de Operações Especiais Conjuntas (JSOU, na sigla em inglês) do Pentágono. Intitula-se Megacities: Urban Future, the Emerging Complexity, ou “Megacidades: o Futuro Urbano, a Emergente Complexidade”. Continuar lendo

Um outro lado da guerra na Síria

15kristof-master1050

Embora omita envolvimento dos EUA, documentário destaca algo de humanidade em meio ao conflito: os cidadãos comuns que, arriscando a pele, decidem salvar o máximo de vidas do inferno

Por João Fernando Finazzi

A guerra civil na Síria vêm atingindo seu ápice com os acontecimentos recentes. A crise internacional aprofundou-se com o bombardeio dos EUA sobre as tropas sírias no último sábado e a convocação pela Rússia de uma reunião emergencial no Conselho de Segurança. Nesse contexto, as narrativas muitas vezes se situam na divisão entre a acusação ou a relativização de um dos dois lados do conflito, algo que em muito lembra as chamadas proxy wars, ou guerras por procuração, do período da Guerra Fria. O lançamento pelo Netflix do documentário sobre os White Helmets, grupo que busca executar trabalho humanitário em meio ao conflito, pode ajudar a desconstruir, em parte essa divisão.

Apesar de o filme, assim como outros da marca, silenciar completamente sobre o papel dos EUA, tendo como as únicas referências do bombardeio indiscriminado de civis a Rússia e o governo sírio, ele possui o mérito de mostrar ao longo de seus 40 minutos o trabalho in loco dessas pessoas de carne e osso, sob a mira dos incessantes bombardeios e das câmeras de foto e vídeo. Continuar lendo

As palavras que a direita teme ouvir

music-censorship

Sinal dos tempos: “Clarin” argentino pede artigo a jornalista brasileira e depois engaveta-o, Motivo: em tempos de Macri e Serra, ela ousou mencionar a “submissão aos EUA”…

Por Eleonora de Lucena

Fui censurada pelo “Clarín”. O jornal argentino me encomendou um artigo sobre o impeachment. Escrevi e enviei. Pediram para eu “amenizar” trechos. Especificamente não queriam que eu falasse em “submissão aos EUA”. Recusei fazer qualquer modificação no texto. Há duas semanas ele está numa gaveta virtual em Buenos Aires.

Para registro, aí vai o que o “Clarín” não quis publicar.

Um golpe à democracia e à soberania na América Latina

O julgamento de Dilma Rousseff atropela a democracia e expõe de maneira crua o embate de interesses antagônicos na América Latina. De um lado, um projeto de integração regional sem submissão aos Estados Unidos; de outro, a volta das conhecidas “relações carnais” com o império do Norte.

O governo de Michel Temer mostra que quer esvaziar o Mercosul. Repetindo ardis usados internamente no país, manobra para golpear essa construção da união sul-americana que vai muito além de acertos comerciais.

De supetão, dá início a uma onda de privatizações, vendendo um naco do pré-sal brasileiro, onde estão valiosas reservas de petróleo. Tenciona desidratar e esquartejar a Petrobras, ícone de uma proposta independente de desenvolvimento e objeto de desejo de companhias estrangeiras.

Temer anuncia cortes em gastos em saúde, educação e previdência. Planeja desmantelar conquistas trabalhistas obtidas desde meados do século 20. Almeja transferir renda dos mais pobres para os mais ricos: projetos sociais serão podados para garantir o pagamento dos juros estratosféricos pagos à elite.

É a reedição de um enredo já desenhado no Paraguai e em Honduras: um golpe sem tanques que corrói as instituições para minar a independência. Num ritual kafkaniano, políticos acusados de corrupção votam a cassação de uma presidente que todos reconhecem ser honesta.

Nos anos 1990, com governos neoliberais, a América Latina experimentou uma combinação de concentração de renda, desindustrialização, privatizações selvagens e perda de soberania. A Argentina viveu com radicalidade esse processo. Nas ruas, o derrotou.

Agora, as mesmas armações daquele tempo tentam ressuscitar no continente. Aproveitam a situação adversa na economia e disseminam um discurso de ódio, preconceito e intolerância. Conquistam, assim, fatias das classes médias, muitas vezes refratárias à ascensão que os mais pobres obtiveram nos últimos anos.
O movimento precisa ser entendido dentro da atual crise capitalista e das mudanças na geopolítica mundial. O capital financeiro busca garantir ganhos na América Latina. Necessita derrubar barreiras de proteção na região _o que é mais viável com governos dóceis, também dispostos a vender ativos a preços baixos.

Enquanto se atolavam na guerra do Iraque e adjacências, os EUA viram a influência da China crescer de forma exponencial no continente sul-americano. O petróleo, os minérios, a água, os mercados internos, as empresas inovadoras _tudo é alvo de interesse externo.

Nesse contexto de disputa é que devem ser analisadas as intenções norte-americanas de instalar bases militares na Argentina _na tríplice fronteira e na Patagônia. O império volta a se preocupar com o que considera o seu eterno quintal.

O impeachment de Dilma é peça chave no xadrez de poder da região. Afastar quem não se submete a interesses dos EUA será uma advertência aos países. O processo, que deixa as instituições brasileiras em farrapos, demonstra, mais uma vez, como a voracidade dos mercados e a força imperial são incapazes de conviver com a democracia.

ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha de S. Paulo. Foi editora-executiva do jornal de 2000 a 2010.

Um concerto em Palmira

160506-Palmyra

Na Síria, em anfiteatro romano onde o ISIS executou ao vivo 25 prisioneiros, orquestra russa toca Bach e Prokofiev. Moscou parece ter compreendido a importância do “soft power”

Em julho de 2015, os ultra-fundamentalistas do ISIS, que controlavam, na Síria, a cidade de Palmira, encenaram uma cena macabra, num anfiteatro construído pelos romanos no século II. Vinte e cinco prisioneiros foram executados, diante das colunas erguidas há dois milênios, por 25 crianças e adolescentes. Em setembro de 2015, a Rússia entrou na guerra contra o ISIS, apoiando com ataques aéreos o exército nacional sírio. Em 23 de março deste ano, Palmira foi reconquistada; e os fundamentalistas, expulsos. Ontem, Moscou celebrou o feito em alto estilo. Exatamente no mesmo local da execução, a orquestra sinfônica Mariinsky, dirigida pelo maestro Valery Gergiev — que é também o principal regente das sinfônicas de Londres e Munique — executou obras de Bach e dos compositores russos Sergei Prokofiev e Rodion Shchedrin.

Foi um ato de celebração e propaganda meticulosamente preparado. Além dos músicos, um grupo seleto de jornalistas internacionais foi convidado pelos russos, conduzido de avião a Damasco e em ônibus especiais até Palmira. Entre a plateia havia ainda os embaixadores de dezenas de países junto à Unesco. Continuar lendo

Michael Moore: por que apoio Bernie Sanders

160203-MichaelMoore

Para cineasta, elites agem de forma baixa, ao “acusar” candidato de socialista. E pode ser inútil: número crescente de norte-americanos opta por“partilha”, diante da “cobiça”

Tradução: Henri Figueiredo, editor do site Tempus Fugit

Meus caros amigos,

Quando eu era criança, eles disseram que não havia nenhuma maneira deste nosso país de maioria protestante eleger um católico como presidente. Em seguida, John Fitzgerald Kennedy foi eleito presidente.

Na década seguinte, disseram que a América não elegeria um presidente do “Sul profundo”(¹). O último a conseguir isso por si mesmo (e não como vice-presidente) foi Zachary Taylor em 1849. E então nós elegemos Jimmy Carter presidente.

Em 1980, eles disseram que os eleitores nunca escolheriam um presidente divorciado que casou novamente. O país tinha modos muito religiosos para isso, disseram. Bem-vindo, presidente Ronald Reagan, 1981-1989.

Eles diziam que você não poderia ser eleito presidente se não tivesse servido nas Forças Armadas. Ninguém conseguia se lembrar de alguém que não servira eleito Comandante-em-chefe. Ou quem tinha confessado fumar (mas não tragar!) drogas ilegais. Presidente Bill Clinton, 1993-2001. Continuar lendo

Ocidente restringe liberdade na internet: contra o terror?

olho3

França e EUA querem proibir criptografia. Paris planeja acabar com wi-fi público. O verdadeiro alvo podem ser os movimentos sociais e dissidentes

Por Antonio Martins

A onda de ataque às liberdades civis, desencadeada em diversos países ocidentais após os atentados de Paris, ameaça agora atingir a internet. Na França, documentos do ministério do Interior, vazados pelo jornal Le Monde, propõe fechar as redes de wi-fi públicas e proibir o uso do software Tor, que permite navegar na rede sob anonimato. Nos EUA, o presidente Obama encontrou-se ontem (7/12) com Hillary Clinton, pré-candidata à presidência pelo Partido Democrata para debater medidas semelhantes. Ao final da reunião, lançaram um apelo às empresas de tecnologia do país, para que deixem de incluir, em suas plataformas e produtos, mecanismos de proteção à privacidade.

Apresentadas como proteção necessária contra a ação de grupos terroristas, as medidas podem ter um objetivo totalmente diverso. Primeiro, porque grupos como o Estado Islâmico (ISIS) parecem capazes de zombar das restrições ao uso da internet criadas contra eles, segundo revela hoje um texto do New York Times. Horas após os atentados de San Bernardino, em 2 de dezembro, diversos perfis do Twitter lançavam desafios jocosos aos norte-americanos. À medida que eram deletados, outros idênticos surgiam. Segundos depois que a 99ª conta foi suspensa, uma centésima, denominada @IslamicState100, exibia um bolo com cem velas, troféus e fogos de artifício… Em outros casos, como nos atentados de Paris, mostra o mesmo texto, os terroristas sequer usaram ferramentas de criptografia. Continuar lendo

II Guerra: o conflito visto em pôsters soviéticos

cookryniksy_43_god

Em dezenas de cartazes — muitos deles ricos esteticamente — uma narrativa que ficou esquecida após o fim do socialismo primitivo e da URSS 

Por Cauê Seignemartin Ameni

Às 2 da manhã, horário de Moscou, em 9 de maio de 1945, o locutor de rádio Yuri Levitan declarava: “A Alemanha foi totalmente vencida”. Completam-se hoje setenta anos da derrota nazista na II Guerra Mundial — um conflito em que a antiga URSS exerceu papel crucial. Para se ter uma noção, suas baixas foram 30 vezes maiores que as dos EUA e Grã-Bretanha, somados. A URSS perdeu 25,5 milhões de pessoas, enquanto Inglaterra e EUA, cerca de 450 mil cada (num total de 55 milhões de mortes em toda a guerra).

Até meados dos anos 60, ainda se lembrava do papel fundamental do “exército vermelho” na vitória sobre as tropas do III Reich. O esquecimento é tido por historiadores como reflexo da parceria entre o Pentágono e Hollywood. No final do mandato, o presidente Franklin Roosevelt institucionalizou essa relação com a criação do Office of War Information e convidou os cineastas John Ford e Frank Capra a colocarem seus talentos a serviço das ambições militares norte-americanas, traçando uma linha estratégica para disputar a narrativa simbólica no pós-Guerra. Mas se os alemães dominavam o rádio e os Estados Unidos a sétima arte, a URSS era a rainha dos pôsters. Seguem alguns deles: Continuar lendo