“Debaixo de tanta pele corre sangue africano”

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Autor de um som próximo ao samba-soul, Wesley Nóog diz que caminhamos para uma antropofagia brasileira, dada a riqueza cultural do país

Por Keytyane Medeiros | Imagem Catraca Livre

Depois de vencer as escadinhas de barro que avançam por trás de uma escola municipal do Capão Redondo, chego ao CEU da região. A unidade ainda é nova, com apenas quatro meses de existência, e na noite de sábado (31/08) recebeu o cantor elétrico e performático Wesley Nóog. O show apresentou algumas músicas de seu novo CD, Soul Assim, e canções mais consagradas como “Nega, Neguinha”, “Pixaim” e “Povo Brasileiro”.

Apesar de ser contra rótulos ou divisões musicais, Wesley faz um som que se aproxima do samba-soul, tem notas afro-brasileiras evidentes e letras inteligentes. Sobre a cultura de periferia, o artista é bastante enfático ao dizer que “o CEU ainda é um elemento inusitado dentro da comunidade, não há um apropriação de fato desse espaço”.

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Campeonato de poesia incentiva surgimento de novos artistas

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Criado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o Zona Autônoma da Palavra estimula adolescentes a criarem e permite o surgimento de novos poetas

Texto e fotos por Thiago Borges, do Periferia em Movimento

Mariana Lima Silva, de 17 anos, sempre gostou de poesia. A cada texto que encara, tenta encontrar alguma rima escondida. E não é de hoje que escreve os próprios versos, mas sem coragem de declamá-los em público. “Sou muito tímida”, justifica a jovem estudante, que mora no Valo Velho, zona sul de São Paulo.

Na semana que passou, Mariana rompeu o muro da vergonha. Ficou sabendo pela professora do curso de teatro que frequenta, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, que haveria um campeonato de poesia – e resolveu participar. Continuar lendo

Futebol e periferia: entre alienação, identidade e luta

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Estéticas das Periferias debate futebol de várzea, torcidas organizadas, mercantilização do esporte, cobertura jornalística e ação política por intermédio do jogo de bola

Por Paulo Motoryn | Imagem Autônomos

Muito se diz que o futebol é um dos grandes fatores de alienação do povo. O efeito catártico do esporte e o fanatismo da população brasileira sempre foram encarados como entrave ao desenvolvimento de um pensamento crítico e politizado. Na periferia de São Paulo, onde se adiciona ao assunto um forte aspecto da cultura de várzea, iniciativas dos moradores levantam um questionamento: é possível tornar o futebol um elemento de luta social?

O tema foi discutido em uma roda de conversa no Museu do Futebol, que fica no Estádio Pacaembu, como parte da programação do 3º Encontro Estéticas das Periferias, no último sábado (31/08). Mais de 50 pessoas compareceram ao Auditório Armando Nogueira, em um debate com a moderação do documentarista Carlos Carlos, que exibiu o filme “Fut Mídia S/A” (2005) logo antes do bate-papo.

O documentário trouxe ao debate questões relevantes. Ao confrontar visões completamente antagônicas de jornalistas sobre a relação do futebol com a mídia e o mercado publicitário, ilustrou a conversa com críticas à cobertura jornalística do tema nos grandes veículos de comunicação, em grande parte despolitizadas e privilegiando o entretenimento à informação.

Também crítico à total absorção do futebol profissional pelo mercado, o escritor e cineasta Akins Kintê, diretor do filme “Várzea” (2010), participou do evento com camiseta de uma das torcidas organizadas do São Paulo, a Independente, e justificou: “as [torcidas] organizadas podem ter um papel nesse processo de lutar contra os mandos e desmandos da Globo e das confederações”.

A inserção do futebol na concepção neoliberal de sociedade e o papel da mídia corporativa não foram os únicos temas discutidos. Marco Pezão, um dos fundadores do Sarau da Cooperifa e fotógrafo de futebol de várzea desde 1995, valorizou a prática amadora do esporte na periferia como um fator fundamental de luta e identidade cultural. E ainda recitou poesia sobre o assunto em que um dos versos era repetido como mantra: “Nóis é ponte e atravessa qualquer rio”.

Exemplo vivo da possibilidade de aliar ação política e futebol, estava também ali presente Matusa, do Autônomos Futebol Clube, um time de várzea de inspiração anarcopunk. Com uma gestão de inspiração anarquista, a autogestão, o Autônomos disputa torneios pela periferia de São Paulo levantando bandeiras contra a homofobia, o racismo e o machismo, por exemplo. “Somos articulados com movimentos sociais da cidade, como o MPL, e acreditamos que o fato de o futebol agregar tanta gente significa uma ótima oportunidade para fazer questionamentos”, afirma Matusa, que comemora a receptividade do Autônomos em comunidades vizinhas: “todo mundo nos trata bem e não tem preconceito com os nossos cabelões e estilo diferente. É um excelente sinal”.

Além da discussão, uma exposição de camisas de futebol de várzea e uma mostra de filmes sobre o tema completaram a programação do Estéticas das Periferias no Museu do Futebol, no Pacaembu.

 

Economia é coisa de periferia

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Foto: Ig

Como moedas solidárias, paralelas ao real, podem provocar aprendizagem, experimentação e desenvolvimento de lógicas não-capitalistas

Por Paulo Motoryn, da Revista Vaidapé

O empreendedorismo não é exclusividade do mundo dos negócios ou da juventude que lota as faculdades de administração por todo o Brasil. Economia não é apenas conversa de intelectual ou que se ouve no mercado financeiro. Mais do que esses espaços tradicionais e fechados, a periferia de São Paulo pode ser um grande laboratório para o aprofundamento em questões essenciais à discussão do desenvolvimento econômico brasileiro.

Foi o que se debateu em oficina oficina promovida no Sesc Belenzinho, durante o Estéticas das Periferias, nesta quinta-feira, 29. No Jardim Maria Sampaio, comunidade de cerca de 20 a 30 mil pessoas na zona sul da capital paulista, o Banco Comunitário União Sampaio traz dois conceitos chave para qualquer discussão que busque superar o modelo econômico vigente: autofinanciamento e sustentabilidade.

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Quando certa literatura deixa as margens

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Lançamento dos livros “Vozes dos Porões” e “Pedagoginga” simboliza a concretização, valorização e o aprofundamento de obras conhecidas — ainda — por poucos, fora das periferias

Por Andressa Vilela

Em tarde de quinta-feira (29), no Centro Cultural São Paulo, descontraída e informal, Alejandro Reyes, autor mexicano, lançava sua obra “Vozes dos Porões: a literatura periférica/marginal no Brasil” ao lado de Allan da Rosa, que escreveu “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem”. Ambos os títulos foram publicados pela Editora Aeroplano, dentro da Coleção Tramas Urbanas, coordenada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda, que mediou a mesa no início do encontro.

Para ela, ambas “estudos profundos”. Vozes dos Porões, segundo ela, o livro mais completo sobre literatura marginal, no qual o autor se debruçou sobre toda a história do tema, transmitindo uma identificação profunda para os leitores. Pedagoginga, por sua vez, questiona o fazer educativo e apresenta uma nova proposta pedagógica, que envolve autonomia dos alunos e compromisso com a cultura afro-brasileira. De acordo com o autor, “é o sonho de alimentar o movimento de educação popular nas periferias de São Paulo”. Continuar lendo

Orfeu Mestiço: a arte dos Amarildos

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Em abertura do encontro Estéticas das Periferias, companhia de teatro e grupos parceiros mostram como a força cultural da quebrada ampliou-se nos últimos anos

Por Juliane Cintra

A premiada montagem do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, inovadora na mistura de estilos musicais e gêneros artísticos, conta a história de um político que, ao receber um telefonema sobre a exumação do corpo de sua esposa desaparecida, retorna a um passado ligado aos anos de chumbo no Brasil. Com texto e direção de Claudia Schapira e coreografias de Luaa Gabaninni, espetáculo inspirado nos mitos órficos evoca ao espaço cênico, projetado pela cenógrafa Daniela Thomas, personagens de várias épocas que acompanharão Orfeu em sua descida aos infernos.

Fragmentos, histórias e memórias. Histórias de Orfeu e Eurídice, de Elisabete e Amarildo. Memórias deslocadas do tempo que se tornam histórias anônimas. Obra de arte, denúncia, tentativa que poderia se dizer estéril, não fosse a resistência, não fosse a expressão da inconformidade. Manifestação esta que é comum quando pensamos em cultura dos becos, guetos, vielas, Cohabs, favelas, subúrbios do país. Narrar o que foi a noite que marcou a abertura do encontro Estéticas das Periferias exige muito mais do que resgatar a sinopse da premiada peça Orfeu Mestiço.

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SP: Estéticas das Periferias começa hoje

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Em cinco dias, mais de 150 atrações, encontro quer ser travessia das várias culturas e linguagens da cidade. Outras Palavras vai participar de cobertura colaborativa

Da Redação

Elementos da mistura cultural da periferia de São Paulo estarão reunidos nos próximos dias, com entrada gratuita. Do Auditório do Ibirapuera à Cidade Tiradentes. Em sua terceira edição, o evento Estéticas das Periferias, idealizado pela Ação Educativa, curadoria de diversos artistas, produtores culturais da cidade e cada vez mais parceiros, começa já na tarde de hoje.

Serão 43 espaços culturais, 40 deles nas periferias e subúrbios. Destaque para os 16 CEUS, 8 Fábricas de Cultura, os roteiros do Ônibus- Biblioteca, CCJ,CFC de Cidade Tiradentes e CC da Penha. Consequentemente, as atividades também se multiplicaram: serão mais de 150 atrações espalhadas por toda a cidade. Hoje tem Treme Terra, Ilú Obá de Min, conversa com Toni C, Sarau do Binho, oficina de literatura com Allan da Rosa, entre outras. Baixe aqui o PDF da programação ou acesse o mapa das atrações no site.

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Na abertura, peça “Orfeu Mestiço”, do Treme Terra, vai interagir com outros grupos musicais

Outras Palavras vai participar da cobertura colaborativa das atividades, junto com outros coletivos de mídia – Periferia em Movimento, Revista Vaidapé, Coletivo Campana -, indivíduos independentes, além da equipe da comunicação da própria Ação. Qualquer um pode participar escrevendo para esteticasdasperiferias@acaoeducativa.org.

Em manifesto, o encontro se expressa:

“‘A vida é diferente da ponte pra cá’, diz os Racionais MC’s.

‘Nóis é ponte e atravessa qualquer rio’, desafia o poeta Marco Pezão.

A ponte é ao mesmo tempo metáfora do encontro e da separação. A Mostra Estéticas das Periferias quer a travessia, de lá para cá, de cá para lá, depende de onde se está.

Buscaremos o fluxo, o encontro, o diálogo. Queremos explorar conexões e conflitos, armas tramas urbanas. Artistas do Centro e da Periferia: Uni-vos!”

Outras Palavras convida a narrar Estéticas das Periferias

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Mostra e debates começam dia 27, em SP. Site participa da cobertura e chama leitores a fazê-lo também

“A vida é diferente da ponte pra cá”, dizem os Racionais MC’s. Uma vida com muita cultura, ignorada pelos grandes meios de comunicação e por quem vive nos centros. É isso que quer mostrar o encontro Estéticas das Periferias, que começa no próximo dia 27, uma terça-feira, e está em sua 3ª edição. Descentralizado, acontecerá em 42 pontos da cidade de São Paulo — 39 deles nas periferias.  O evento não quer apenas mostrar a cultura à margem do centro, mas também discuti-la. Com curadoria coletiva, proposta por diversas organizações, o Estéticas das Periferias deste ano vai debater e refletir sobre processos criativos e percursos para a criação artística. Além disso, também difundirá essa cultura em saraus, shows, exposições, teatro, música, poesia, hip hop, literatura.

Para ajudar a debater sobre este tema essencial, Outras Palavras participará da cobertura colaborativa do encontro. Trabalharemos com os parceiros da Revista Vaidapé, o Periferia em Movimento e a Agência Solano Trindade. Mas, para podermos cobrir toda a diversidade do que vai acontecer nas ruas de São Paulo, chamamos todos os interessados para nos ajudar. Começaremos hoje, dia 20, com uma reunião em nossa redação (que fica da ponte pra lá…), às 18h. Convidamos todos para participarem e pensarem como será feita a cobertura.

Reunião da cobertura colaborativa do Encontro Estéticas das Periferias
Redação de Outras Palavras
Rua Augusta, 1239 – sala 11 – Consolação
20 de agosto, terça-feira, às 18h