A independência da Catalunha, segundo o Podemos

Beto Vazquez, assessor político de Pablo Iglesias, defende a autonomia – mas não a divisão da Espanha. Ele provoca: conservadores – espanhóis e catalães – refugiam-se no nacionalismo, para esconder ataque aos direitos sociais

Entrevista a Outras Palavras, 4V e Opera Mundi

TEXTO-FIM

“Não temos medo”, grita Barcelona

A Praça Catalunha estava lotada, ainda que para muitos tenha sido difícil cehgar, já que furgões policiais bloqueavam o acesso em muitas das vias de entrada. Apesar disso, milhares chegaram até as proximidades e caminharam a pé, para se somar a um ato emocionante, em que os aplausos sucederam ao silêncio. Um silêncio arrebatador em alguns momentos quando, por cima das milhares de pessoas, escutaram-se as asas de pombas que sobrevoavam a praça

Com lágrimas nos olhos e visivelmente emocionadas, algumas pessoas ergueram rosas vermelhas. Ondas de aplausos percorreram a praça, começando em um de seus extremos e ocupando todo o espaço até além do perímetro do local. As ruas do entorno estavam fechadas ao tráfego.

Una noia amb una pancarta a l'acte de solidaritat amb les víctimes a plaça Catalunya. FOTO: Elena Parreño

 No momento em que terminava o ato, que durou menos de 15 minutos, uma multidão entoou: “No tinc por” — não tenho medo. Na praça, cheia de estrangeiros, muitos se perguntavam sobre o significado da frase e terminaram entoando-a em uníssono. Unidade e comunhão em uma praça onde houve um momento de tensão, quando um homem gritou contra uma bandeira. Mas rapidamente a multidão o ignorou. “Não há bandeiras”, gritou-lhe um menino.

A equipe do governo municipal, liderada pela prefeita Ada ariano Colau, deslocou-se a pé desde a prefeitura (veja vídeo). O presidente da região, Carles Puigdemont e a presidente do parlamento, Carme Forcadeli, participaram do ato de apoio, junto ao rei Felipe VI e o chefe de governo, Mariano Rajoy, vestidos de luto numa praça abarrotada e emocionada.

Espanha, novos movimentos e poder local

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No terremoto que levou cidadãos aos governos de Madri e Barcelona, falta examinar um aspecto: a “aposta municipalista” — que crê em mudar a política onde o poder é obrigado a se chocar com sociedade

Por Bernardo Gutiérrez | Tradução: Laila Manuelle

“Aconteça o que acontecer nas eleições europeias o sinal verde foi dado nas eleições municipais. Com isso chegará a grande prova de fogo dos movimentos que levantam um ataque institucional”. Assim anunciava Traficantes de Sueños – uma influente cooperativa editorial e livraria de Madri – no curso Ataque aos céus (terceiro round)1, em maio de 2014. O objetivo do curso estava traçado estrategicamente: “Pensar e desenhar uma aposta municipalista que trabalhe questões chave em torno de como construir uma verdadeira democracia”. Noutras palavras, planejar o salto para as instituições a partir do ecossistema do 15M – Indignados, que havia tomado as praças do país em 2011. O desafio: passar do grito “não nos representam” ao “nos representamos”.

O plano municipalista estava em andamento muitos antes do maremoto que o novo partido Podemos causou nas eleições europeias, em 25 de maio de 2014, quando conseguiu cinco eurodeputados. Podemos despertava já alguns receios entre alguns movimentos sociais, por sua pressa em “atacar” as instituições e por sua narrativa agressiva. E por isso, um dia depois das eleições europeias, seguindo o roteiro de uma trajetória prévia, nasceu o livro La apuesta municipalista (A aposta municipalista)2, assinado pelo Observatorio Municipal de Madri.

O livro tem como subtítulo: “la política comienza por lo cercano”, a política começa pelo próximo, numa introdução histórica: “da Ágora grega ao cantonalismo espanhol do século 19 (movimento que propunha organizar a sociedade em confederações de cidades independentes com federação livre), passando pelas comunas e os municípios livres da segunda república espanhola, do Provos holandês (movimento de contracultura da década de 60) aos Verdes alemães (partido fundado em 80) ou as Juntas del Buen Gobierno zapatista”. O livro publicado com licença copyleft (licença livre para baixar, reproduzir e remixar), era mais do que um livro. Era um dispositivo apropriável: o Observatorio Metropolitano de Madri recomendava que cada cidade adaptasse o capítulo 4 (dedicado à Madri) por um capítulo local. “As eleições gerais pareciam inviáveis. As eleições municipais eram mais possíveis: poderiam ser abordadas sem aparatos centralizadores de partidos”, assegura Emmanuel Rodríguez, um dos responsáveis por La apuesta municipalista. Continuar lendo

Madri, cidade okupada

Casa okupada Casablanca

Após grandes mobilizações de 2011, capital da Espanha vive onda de ocupação de imóveis para cultura e arte. Seria exemplo para o Brasil?

Por Gabriela Leite

Cada vez mais difundidas nas grandes cidades do mundo, as novas formas de convívio que valorizam compartilhamento e igualdade – e rejeitam competição e hierarquias rígidas – estão assumindo características particulares em Madri. Para realizar atividades culturais e artísticas, e trabalhar em comunidade, grupos de jovens estão ocupando prédios inteiros. Neles, multiplicam-se shows, troca de saberes por meio de oficinas e cursos constantes, apresentações de teatro, produção independente de mídia na forma de sites e documentários. As decisões sobre o uso do espaço são tomadas em assembleias. Continuar lendo

A Espanha prepara o grande protesto

Manifestações prévias à jornada de quinta-feira espalham-se pelo país. Sindicatos e “indignados” do 15-M aparam divergências para lutar juntos contra pacote do governo

Por Pep Valenzuela, correspondente em Barcelona

(Texto atualizado em 18/7. às 11h20)

A Espanha, que surpreendeu o mundo em 2011, com as gigantescas manifestações de indignadospode converter-se outra vez em pólo de criação política. Faltando um dia para uma jornada de protestos convocada pelos sindicatos, para reagir ao ataque maciço do governo contra os direitos sociais, multiplicam-se os sinais de que a ação será, além de imensa, inovadora.

No início da semana, centrais sindicais e indignados sinalizaram, de parte a parte, que vão somar forças em todo o país na quinta-feira, relevando diferenças. Em Madri, uma assembleia extraordinária do 15-M decidiu participar sem ressalvas das marchas de trabalhadores, apesar de o movimento se opor à estrutura hierarquizada dos sindicatos. “As medidas tão bestiais do governo estão revelando que não vale a pena rebelar-se para pouco”, afirmou ao jornal Público uma integrante do Grupo de Moradia do 15-M, que se identificou como Violeta.  Continuar lendo

Migrações: novos fluxos?

Cai o número prisões na fronteira dos EUA e autoridades já apontam fato como tendência permanente. Na Espanha, desemprego é apontado como causa para a saída de milhares de latinos

Por Carolina Mazzi

As apreensões de pessoas tentando cruzar a fronteira entre os Estados Unidos e o México continuam a cair e atingiram os menores níveis desde o governo Richard Nixon (1969-1974). De acordo com a U.S. Border Patrol, a polícia fronteiriça estadunidense, cerca de 320 mil pessoas foram presas enquanto tentavam entrar ilegalmente no país. Já o Departamento de Imigração dos EUA deportou cerca de 390 mil pessoas. Os números fazem com que 2011 tenha sido primeiro ano em que o número de prisões foi menor do que o de deportações.

É o sexto ano consecutivo em que se observa queda no número de detenções. Segundo algumas autoridades, estes índices podem indicar uma tendência permanente. No entanto, as acaloradas discussões em relação às políticas migratórias na campanha eleitoral dos Estados Unidos podem mudar os números. “A questão agora serão as políticas em relação aos 11 milhões de imigrantes que vivem aqui e não mais sobre a entrada deles”, afirmou Demetrios Papademetriou, presidente da Migration Policy Institute, organização de pesquisa não partidária.

Desde o ano passado, estados do sul dos Estados Unidos têm aprovado políticas severas contra os imigrantes ilegais, impedindo-os de trabalhar e até mesmo matricular seus filhos nas escolas.

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Ocupações: saudável início de um debate

O movimento que está questionando políticos e banqueiros irá tornar-se mais forte, examinando a si mesmo

Desde 15 de maio, quando milhares de jovens madrilenhos tomaram a Puerta del Sol e iniciaram uma onda global de manifestações, Outras Palavras dedica amplo esforço e espaço ao tema. Acompanhamos seus desdobramentos na Espanha, sua expansão para a Grécia, Chile, Israel, Estados Unidos. Temos a satisfação agora de publicar três textos em que os próprios participantes dos protestos e ocupações, ou seus apoiadores, lançam observações críticas sobre aspectos do movimento. Quem quer transformar o mundo precisa olhar incessantemente para si mesmo.

A primeira contribuição é um artigo de Immanuel Wallerstein, traduzido por Paulo Cézar de Mello. O grande sociólogo norte-americano, um dos autores da teoria do sistema-mundo, está convencido de que o Occupy Wall Street, agora espalhado por dezenas de cidades norte-americanas, é uma das esperanças para construir uma ordem mundial mais justa e democrática. Em poucas semanas, fez história. Tornou-se legítimo junto a amplos setores da sociedade. Entra agora (precisamente por isso) em nova etapa, mais difícil. Será bom, pensa Wallerstein, evitar dois riscos opostos: ou diluir o movimento, que perderia sua potência rebelde; ou derivá-lo para um culto radical, porém de apoio reduzido.

De Barcelona, nosso correspondente Pep Valenzuela relata algo semelhante. Os indignados tornaram-se populares. Uma pesquisa recente de opinião pública revela que, para 78% dos espanhóis, o movimento “basicamente tem razão”. No entanto, como converter este apoio em pressões efetivas sobre o sistema político institucional? É uma pergunta ainda sem resposta. Em três semanas (20/11), quando toda a Espanha votará em eleições gerais, é provável que surja um governo ainda mais comprometido com “políticos e banqueiros” — os principais alvos das acampadas. Enquanto isso, mostra a reportagem de Pep, o movimento parece aguardar algo, para recobrar a força demonstrada antes das férias do hemisfério norte.

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O paradoxo espanhol

As ocupações de praças, que despertaram a atenção do mundo em maio, podem retomar com força. No entanto, a sociedade votará em peso nos sucessores diretos do franquismo

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

A indignação voltará de forma massiva às ruas de mais de 60 cidades do Estado espanhol no próximo sábado 15 de Outubro (15-O), uma data que já começa a fazer parte do imaginário das lutas sociais neste país. Se alguém tiver dúvida, pode, simplesmente, dar uma olhada á imprensa ou mídia em geral, que já oferece informações, opiniões e (como não?) especulações as mais variadas.

Mas, desta vez, o movimento se confronta não só com o desafio de animar as dezenas e centenas de milhares que encheram as ruas das principais cidades do país. Dos contatos que se foram tecendo ao calor das acampadas, articulou-se uma ampla rede internacional que é a que hoje promove o 15-O como jornada internacional de luta: “Unidos por uma mudança global”.

Espera-se a celebração de passeatas e concentrações em 719 cidades de 71 países (http://15october.net/pt/), desde Tokyo a Nova York, passando por Johannesburg, Buenos Aires, Santiago de Chile, São Paulo, Los Angeles, Helsinky, Copenhagen, Hong Kong, Alaska, Tijuana, entre tantas outras. A difusão do movimento é espetacular.

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Europa: sinais de um outono quente

Espanha e Grécia vivem greves maciças. Livro debate ocupações de praças pela juventude — que lançou chama da resistência

A defesa dos direitos sociais e dos serviços públicos — um dos motes das ocupações de praça pela juventude espanhola, entre maio e junho — começou a contagiar os trabalhadores. Mais de 90 mil pessoas participaram ontem (4/10), em Madri, de uma marcha em defesa da Educação (foto), contra os cortes de verbas ordenados pelos governos nacional e local. Convocado originalmente pelos sindicatos (que iniciaram uma greve geral de três dias), o protesto foi engrossado por estudantes e se converteu na maior manifestação pelo ensino público, em vinte anos. Já na Grécia, a convocação para hoje de uma greve geral foi ampliada nas últimas horas. Soube-se que União Europeia e FMI estão cobrando do governo, para liberar uma parcela do pacote de “ajuda” financeira ao país, a supressão do salário mínimo

Também começam, informa Pep Valenzuela, nosso colaborador em Barcelona, as assembleias do M-15 (referência a 15 de maio), e Democracia Real Ya –, que articularam as mega-mobilizações da juventude na Espanha. As reuniões ainda são pequenas, diz Pep (as férias de verão terminaram há pouco); e a presença, nos movimentos, de distintas visões sobre as eleições gerais deste mês provoca certa confusão. Mas nada indica que o ímpeto do primeiro semestre tenha passado.

A este respeito, a revista virtual de Outras Palavras traz hoje uma entrevista importante. O cientista político Carlos Taibo fala de seu livro recém-lançado sobre os novos movimentos da juventude (El M-15 en sesenta preguntas). Professor titular de Ciência Política na Universidade Autônoma de Madri, Taibo (veja seu site) tem ligações com o marxismo, mas dedicou-se, nos últimos anos anos, ao exame da nova cultura política de autonomia, à busca de formas de democracia direta e à crítica do antigo desenvolvimentismo.

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