Paulo Kliass: Conservar a unidade, sem esquecer autocrítica

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“Estamos pagando hoje o preço do abandono do trabalho popular e de massas, que foi substituído pela ilusão de ter chegado aos postos da máquina do governo federal”

Por Paulo Kliass


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Estamos a um ano da operação de impedimento de Dilma Rousseff. A consolidação do golpeachment e o período que se seguiu apenas vieram a confirmar uma tendência de aprofundamento autoritário dos grupos que se apropriaram de forma ilegítima do governo federal.

A continuidade da política do austericídio, no entanto, só fez aumentar ainda mais a impopularidade de Michel Temer junto à maioria da população. Além disso, confirmou-se a falácia de que bastaria tirar Dilma para que o espetáculo do crescimento tivesse início. O desemprego é fenomenal, a falência de empresas é generalizada e a crise socioeconômica reduz as margens de manobra do governo no interior de sua própria base aliada no Congresso Nacional.

O sucesso da greve geral de 28 de abril abre uma nova fase na luta contra as medidas de desmonte patrocinado pelo governo ilegítimo. O governo tem recuado a cada dia que passa em sua proposta inicial da “reforma” da Previdência na Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades para votar a “reforma” trabalhista no Senado Federal. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Maurício Ayer: a construção de um pós-desenvolvimentismo

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“É preciso criar novas escolas e universidades, novas estratégias de diálogo e comunicação, novas formas de ocupação do campo e da cidade, maneiras de enfrentar os mecanismos do capital no século 21”

Por Maurício Ayer


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Penso que é preciso atuar com vários horizontes temporais. De imediato, há que ir às ruas – entendidas como todo espaço de encontro/confronto público – para gerar solidariedades e acumular forças. Ao mesmo tempo, quando as oligarquias avançam despudoradas sobre os direitos, cria-se o momento propício para desmascará-las e escancarar os interesses e forças presentes na sociedade, politizar o imaginário, mobilizar os desejos. Isso é fundamental: denunciar e resistir, rasgar ao máximo o véu de normalidade com que se tenta cobrir esses tempos.

Enquanto isso, o campo da esquerda se reorganiza, mas isso leva tempo. 2018 poderá ser, na melhor hipótese, uma retomada parcial de poderes, mas só terá algum significado se houver massas nas ruas mantendo sob pressão qualquer que seja o governo – esperemos que mais à esquerda, mas pode ser à direita. No entanto, não vejo como virar a página se os grupos políticos não construírem (desde já) o(s) seu(s) projeto(s) popular(es) de país – um pós-lulismo, pós-desenvolvimentismo –, capaz de disputar o eleitorado de centro e de vencer eleições no médio prazo. Haverá aqueles entre nós que, por vocação, deverão atuar (desde já) para a construção estratégica de futuros possíveis. Denunciar e resistir intensamente hoje, mas também sonhar e produzir os embriões do futuro que ora não se apresenta. É preciso criar novas escolas e universidades, novas estratégias de diálogo e comunicação, novas formas de ocupação do campo e da cidade, maneiras de enfrentar os mecanismos do capital no século 21.


Maurício Ayer é escritor, tradutor e pesquisador de Literatura