Vídeo: Convite à desconstrução da PEC-241 (parte 2)

Novo mergulho nas contas públicas demonstra: além de injusta, proposta é ineficaz. Veja como os banqueiros colonizam o Orçamento. Por que as contas do Estado não são iguais às de uma família. E mais: rebatemos as análises simplórias de “O Antagonista” e “Spotnik”

Por Antonio Martins | Edição de Vídeo: Gabriela Leite

[A seguir, o texto do vídeo]

Hoje, vamos continuar desconstruindo a PEC-241, agora de maneira mais aprofundada. Vamos aproveitar também para vasculhar melhor o Orçamento da República – esta peça tão fundamental para os destinos da sociedade, porém mantida tão oculta pelos governos e pelas mídias tradicionais. No programa passado, nós demonstramos a injustiça da emenda constitucional proposta pelo governo. Revelamos que o gasto social cresceu de fato nos governos Lula e Dilma – porém, muito abaixo do que seria necessário para sermos uma sociedade mais justa. Apesar disso, a PEC-241 quer congelá-lo. Comprovamos, também, que a proposta deixa intocado um gasto que pesa muito mais no Orçamento, embora favoreça apenas os banqueiros e a oligarquia financeira. É o pagamento de juros.

Hoje, vamos discutir outro aspecto. Será que a PEC-241, apesar de injusta, é necessária? Este é o argumento sustentado por alguns sites de propaganda da turminha da MBL – O Antagonista e Spotnik, por exemplo. Um pouco envergonhados de terem se tornado governistas, eles afirmam, essencialmente, o seguinte: a) Se devemos, é porque gastamos mais do que arrecadamos; b) Se diminuirmos os gastos sociais, poderemos reduzir a dívida pública. Após um período necessário de sacrifícios, deveremos menos, portanto pagaremos menos juros. Então, com as contas saneadas, voltaremos a investir em Saúde, Educação e outros direitos.

Veremos a seguir que há dois erros grosseiros neste raciocínio. Primeiro, a ingenuidade em relação aos banqueiros. No mundo de fantasia do Spotnik, do Antagonista e da turminha do MBL, é como se os bancos cumprissem um papel benévolo na sociedade. Quando precisamos de dinheiro, eles nos emprestam. Quando economizamos, pagamos as dívidas. Os banqueiros não têm interesses próprios, não elegem deputados e senadores, não cortejam presidentes, não se apropriam de uma parte cada vez maior da riqueza social – sem nada produzir. Nesse mundo mágico, os lucros bilionários e crescentes dos bancos devem ser um presente da Providência Divina à bondade que os bancos fazem a todos nós.

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Breve nota sobre a merenda escolar em São Paulo

1460065823_737538_1460066899_noticia_normalAntropóloga relata seu espanto ao deparar casualmente com pobreza da comida servida aos estudantes e desânimo dos funcionários que deveriam produzi-la

Por Íris Morais Araújo*, editora do site Iricota

Em 2008, por conta de uma pesquisa freelancer, Daniela Perutti e eu almoçamos em duas escolas de São Paulo. A discrepância entre o que comemos nos chocou. No estado, arroz, nuggets e purê de batata em flocos. Eu não me recordo perfeitamente, e não tenho nenhuma anotação para conferir, da refeição da escola municipal. Mas sei que era bem mais fresca e rica, com polenta cozida, legumes e frutas.

A diferença entre as conversas com as merendeiras também nos marcou. A trabalhadora do município detalhou seu trabalho e suas experiências gustativas. Nascida em um engenho em Pernambuco, lembrava-se da quantidade de sabores – até do muçum, peixe em formato de cobra – de sua terra natal, em contraste com a monotonia do pão, o único alimento a que tinha acesso quando migrou para São Paulo. Já a merendeira do estado mal falou: lembro-me apenas da ênfase que deu do pouco que podia fazer para melhorar a qualidade daquela comida pré-pronta.

A política do Estado tornou-se a nós indefensável, pela má qualidade da refeição e pela desvalorização da trabalhadora responsável por produzi-la. Porque é política que empobrece – muito além de escândalos de corrupção – o gosto, o gesto e a fala.

* Antropóloga e professora da UNIFESP-Campus Baixada Santista.

Também em Natal, Ignorância é Força

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Crônica da sessão em que a Câmara de Vereadores deu razão a George Orwell, ao vetar a formação dos professores em temas de gênero, atribuindo a Karl Marx perigosas teorias, com as quais ele jamais sonhou

Por Berenice Bento

Conforme eu me aproximava da Câmara de Vereadores da cidade de Natal, o som que se espalhava por vários quarteirões do bairro ficava mais nítido. Diante da sede do poder legislativo local, feministas, transfeministas, ativistas LGBTs e estudantes denunciavam, em um pequeno carro de som, o que estava prestes a acontecer lá dentro. Como uma citação de uma cena já conhecida em várias partes do Brasil, seria votado, naquela tarde [10/02], o Plano Municipal de Educação, e já sabíamos (por debates anteriores e pela correlação de forças) que a meta que previa formação de professores nos temas de gênero, diversidade e orientação sexual seria retirada daquele Plano.

Quais os argumentos acionados para não garantir aos/às professores/professoras o direito à formação em temas fundamentais para lidar com questões que atravessam o cotidiano escolar? Para somar-se aos/às vereadores/vereadoras de Campinas que votaram uma moção de repúdio a Simone de Beauvoir, escutamos acusações de que Karl Marx era o responsável por ter criado a perigosa teoria segundo a qual crianças devem ser educadas sem gênero. A “ideologia de gênero”, afirmavam, teve pai e data de nascimento: Karl Marx, por volta dos anos de 1886! A “ideologia de gênero” faria parte de um campo mais amplo de teorias, o “marxismo cultural”, e que teria como objetivo destruir a família tradicional. Faltou apenas, para a certidão de nascimento ficar completa, dizer quem foi a mãe. Continuar lendo

Convite para pensar o Doutorado Informal

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Um encontro debate amanhã, em S.Paulo trajetos para quem  para deseja aprofundar-se no exame de problemas cruciais sem submeter-se a esquedas da Academia

Por Gabriela Leite

É preciso estar dentro da universidade para fazer pesquisa e criar? Alex Bretas e um grupo de estudiosos da educação, que criaram o conceito de Doutorado Informal, acreditam e mostram que não. Na próxima quinta-feira (21/1), em São Paulo, promoverão uma conversa investigativa sobre os princípios do tema, a saber: Curiosidade, Autonomia, Percurso, Entrega e Sabedoria.

A conversa tem como foco a construção coletiva e o conhecimento sobre os cinco princípios que guiam uma aprendizagem autodirigida. “A partir desses cinco princípios, acredito ser possível transformar a educação e a pesquisa brasileiras. Eles são a base do doutorado informal, uma nova forma de construir conhecimento que resgata a liberdade e potencializa a profundidade dos processos de aprendizagem”, escreve Bretas. Continuar lendo

SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade. Continuar lendo

Enem, Educação, Hipocrisia

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Grita contra “feminismo” no exame revela: Brasil consagra Direitos Humanos em dezenas de pactos, mas rejeita-os na prática quando se trata de defender grupos vulneráveis

Por Mariana Vilella, Renata Ferraz e Vanessa Pinheiro

Em 25 de outubro, o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM teve como tema de redação: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Em uma tarde, milhões de jovens brasileiros viram-se instados a refletir e dissertar sobre esse tema, caro à sociedade, dados os alarmantes números da violência doméstica, sexual, psicológica, obstetrícia, dentre outras, que atingem a mulher brasileira. A escolha gerou polêmica.

Muitos mostraram-se contrários ao tema e, ainda, criticaram o MEC por conta de um viés feminista. A hashtag #enemfeminista foi criada e imensamente utilizada por defensores e críticos da prova.

O Enem foi ideológico? Foi de esquerda? Foi correto? As avaliações devem medir critérios como respeito aos direitos humanos ou capacidade de refletir sobre os problema políticos e sociais nacionais?

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São Paulo ensina a pequenez

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Na “reorganização” das escolas do Estado, dois cacoetes das elites: decidir sem debate e oferecer às maiorias o mínimo. Mas Florestan Fernandes inspira a resistir

Por Fernanda Feijó1

O Brasil caracteriza-se por estabelecer políticas sociais de forma autoritária: sempre “de cima para baixo”. Tal fenômeno tem marcado o desenvolvimento do país desde os primórdios da República (se considerarmos que o Império era um regime autoritário em si) até os dias atuais. Podemos perceber a força desse autoritarismo quando falamos mais especificamente de políticas educacionais e dos percursos que as mesmas percorreram ao longo do último século.

Desde a década de 1930, quando a intelectualidade brasileira iniciava o processo de institucionalização das ciências sociais, já se anunciava a importância da educação formal dentro do país, ainda que naquele momento a preocupação maior fosse formar quadros para a elite dirigente do país que pudessem impulsionar o processo de modernização que se colocava em curso. No contexto de centralização política propiciada pela Revolução de 1930, a educação nacional passa, então, efetivamente a ser responsabilidade do Estado. Foi justamente nesse momento, que o Brasil ensaiou o desenvolvimento de um “pseudoestado de bem-estar”, a saber extremamente conservador e autoritário, na qual o Estado realizava reformas sem a participação da sociedade nos processos decisórios. Continuar lendo

Curso: para enxergar História e Cultura indígenas em SP

Centenas de índios protestam em S.Paulo, em outubro de 2013, contra tentativas de frear demarcação de suas terras. Curso demonstrará que presença dos povos originários é marcante também no quotidiano da metrópole

Centenas de índios protestam em SP (2013), contra tentativas de frear demarcação de suas terras. Presença dos povos originários é marcante também no quotidiano da metrópole

Última edição do ano. Investigue neste fim de semana (25 e 26 de outubro) – na redação de “Outras Palavras” e nas ruas do centro – a vasta presença dos índios na metrópole. Saiba como não ser indiferente a ela

Por Antonio Martins

Num texto recente, o linguista e dissidente norte-americano Noam Chomsky notou que os governos e mídia alinhados a Washington precisam efetuar uma operação ideológica especial, para justificar a agressão permanente praticada por Israel contra os palestinos. Implica tratá-los como impessoas (“unpeople”). Só tornando-os invisíveis é possível apoiar Telaviv e considerar-se, simultaneamente, partidário da Democracia e dos Direitos Humanos.

Neste fim de semana, em São Paulo, será possível compreender e debater um fenômeno semelhante: a invisibilização dos povos indígenas brasileiros. Num curso em duas etapas – conceitual no sábado, prática-peripatética, no domingo – o historiador Carlos José Santos abordará a presença dos povos originais no coração metrópole. Além disso (e talvez mais importante), fornecerá elementos para reenxergá-los, invertendo o processo descrito por Chomsky. Autor de diversos livros e artigos sobre a tentativa de dominação simbólica dos oprimidos, também doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Carlos é professor na Universidade Federal de Santa Cruz, em Ilheus-BA. Indígena ele próprio, participa ativamente das lutas pela demarcação da terra tupinambá, na região. Estará acompanhado de quatro líderes deste movimento, o que permitirá, além de tudo, um debate sobre a relação atual entre o Estado brasileiro e os povos indígenas. Continuar lendo

Plano Nacional de Educação aprovado. E agora?

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Lei que sociedade exigiu, e Congresso finalmente votou, combina compromisso com qualidade com abertura à inovação. Mas a batalha decisiva está na implantação das políticas

Por Cleomar Manhas

Se a educação sozinha não pode mudar a sociedade,
tampouco sem ela a sociedade muda.

Paulo Freire

Aprovou-se o Plano Nacional de Educação (PNE) depois de três anos e cinco meses de tramitação.  Até onde nossa vista alcança, foi um projeto que recebeu intensa incidência política, fazendo história. Recebeu cerca de três mil emendas logo em sua primeira parada na Comissão Especial instalada na Câmara dos Deputados para sua análise.

Todas as organizações da sociedade civil voltadas ao tema da educação estiveram presentes e atuantes. Destaque para a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que brilhantemente conseguiu garantir em uma das metas o Custo Aluno-Qualidade, indicador que fará com que a União faça a complementação do Custo Aluno nos locais que não conseguirem atingir o valor mínimo. Destaque ainda para as organizações estudantis como UBES- União Brasileira dos Estudantes Secundaristas e UNE- União Nacional dos Estudantes que lotaram os plenários e fizeram muito barulho bom de se ouvir. Continuar lendo

A Virada Educação e as outras formas de aprender

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Mais de sessenta atividades apresentam sábado, em S.Paulo, modos alternativos de compartilhar conhecimento, relembrando que “educar não é encher baldes: é acender fogueiras”

Por Suzanna Ferreira

No final de 2012 saiu na imprensa uma daquelas pesquisas que nos deixam desanimados. Uma competição de descrença: “Brasil fica em penúltimo lugar do mundo em educação”. Algumas revistas conservadoras escreviam como se quisessem cravar bem fundo a nossa desolação: “Brasil faz feio no ranking da educação”. Mas, o que fazemos com isso?

À procura de inspiração encontrei o livro Volta ao mundo em 13 escolas, inserido justamente no projeto “Educ-ação, uma jornada em busca de inspiração”. Descobri que seus criadores e co-criadores haviam viajado para países como Índia, Argentina, Inglaterra, África do Sul, entre outros, para recolher histórias que enchem os olhos de educadores em todo o mundo. Mas foi aqui no Brasil que começaram a cavar essas pílulas de inspiração. A primeira escola retratada é o Cieja (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos), no bairro do Campo Limpo, em São Paulo, que não fecha os portões e recebe toda a diversidade de alunos. Continuar lendo