Convite à desconstrução da PEC-241

Governo venceu primeira batalha para aprovar congelamento dos gastos públicos. Mas um mergulho no Orçamento da República desmente, uma a uma, suas teses. País não está quebrado. Gasto social cresceu, mas ainda é reduzido. PEC tira da Educação e Saúde, e engorda os milionários

Por Antonio Martins | Edição de Vídeo: Gabriela Leite

[A seguir, o texto do vídeo]

Segunda-feira, 10 de outubro de 2016. Muito bom dia. Este é mais um vídeo experimental de Outras Palavras, hoje com um tema especial. Vamos debater a PEC-241, que entra em votação na Câmara dos Deputados. Mas, para fazê-lo, convidamos você a examinar conosco um documento de extrema importância, nunca debatido claramente pela velha mídia. Trata-se do Orçamento da República. Ele é uma espécie de radiografia das políticas públicas e das ações do Estado brasileiro. Numa democracia verdadeira, sua análise deveria ser matéria básica nas escolas de Ensino Médio. No entanto, ele é tratado ou como um segredo, ou como um saber hermético, acessível apenas para notórios especialistas. É o que está acontecendo neste exato momento

Aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241 é o grande objetivo do governo Temer em 2016. Em alguns aspectos, este governo é mais frágil que às vezes pensamos. Ele já adiou para 2017 a tramitação do aumento da idade mínima para aposentadoria, a Contra-Reforma da Previdência. Ele não sabe ainda por que meios atacar os direitos trabalhistas e a CLT. Ele preferiu concentrar-se na PEC-241, por dois motivos. Primeiro, tratar de um tema menos conhecido pela sociedade.

Segundo, porque por trás desta Proposta está embutida uma narrativa tenebrosa – e manipuladora – sobre a situação do país. Fala-se que estamos quebrados. Argumenta-se que a causa do desastre foram as políticas praticadas a partir de 2003, quando houve uma pequena melhora nas condições de vida da maioria. Conclui-se que, para nos livrarmos do pior, será necessário um período de sacrifícios, no qual as políticas anteriores serão revertidas. Ao final, garante-se, o país estará saneado e novamente pronto para crescer e gerar empregos. Todos estes argumentos são falsos, como você verá, com base nos próprios números oficiais e num conjunto de gráficos e tabelas.

O argumento central do governo Temer e dos economistas conservadores que o apoiam é o aumento da dívida pública. “Um país é como uma família”, disse o ministro Henrique Meireles, em cadeia nacional de TV: “não pode gastar mais do que ganha”. De tanto viver acima de suas possibilidades, o Brasil estaria hoje muito endividado, a ponto de quebrar. Vamos examinar concretamente esta afirmação.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

Chipre: que há por trás do silêncio da mídia

130402-Chipre

Ensaio jornalístico de Roberto Savio revela quais as causas da crise; como oligarquia financeira impôs seus interesses; por que Alemanha pode ter conquistado vitória de Pirro

Por Antonio Martins

Vista pelos jornais comerciais, a crise financeira vivida por Chipre, nas duas últimas semanas, parece um fenômeno tão inesperado e imprevisível quanto a queda de um meteoro na Rússia, em fevereiro. Surgiu do nada; não podia ser evitada; causou um número importante de vítimas; mas não afetou, no fim das contas, a rotina do planeta: será esquecida em breve e não há lições a tirar de sua passagem. Fundador da Agência IPS, participante destacado do movimento por uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, nos anos 1970 e 80, o jornalista ítalo-argentino Roberto Savio percebeu que esta imagem pretendia ocultar algo.

Mas não se limitou a vociferar contra os oligopólios da mídia: foi à luta. Dedicou três dias inteiros da semana passada a uma busca minuciosa de informações. Como ferramentas, usou sua compreensão dos mecanismos financeiros contemporâneos e os infinitos terabytes de informação caótica disponíveis na internet. Produziu um ensaio esclarecedor e alarmante, que Outras Palavras está traduzindo e publicará nos próximos dias. Vele a pena antecipar ao menos três de suas conclusões:

Continuar lendo

Europa em crise (IV): os Bancos Centrais e a oligarquia financeira

No intervalo de apenas duas semanas, o Banco Central Europeu adotou atitudes opostas diante de problemas semelhantes. Veja por que esta assimetria é reveladora

Todos os bancos centrais procuram apresentar-se como órgãos “neutros”. O pensamento econômico ortodoxo sustenta, aliás, que, para poderem proteger as moedas com eficácia, os BCs devem ser “preservados” inclusive da “interferência” de governantes eleitos. Neste caso, a técnica é vista como mais importante que a democracia. Mas… que fazer quando se revela a parcialidade e a interferência política destas instituições supostamente tão soberbas?

É o que está ocorrendo neste exato momento na Europa, diante dos olhos de todos. Na manhã de hoje, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um conjunto de medidas que beneficiam as instituições financeiras privadas. Suspeita-se que as decisões tenham sido tomadas em regime de urgência, para evitar um incidente devastador — por exemplo, a quebra de um grande banco europeu, capaz de se propagar rapidamente na forma de falências em cadeia.

Continuar lendo