Moysés Pinto Neto: Esquecer a esquerda

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“Desde 2013, lulismo descaracterizou-se — mas seus apoiadores tornaram-se, paradoxalmente, cada vez mais sectários. Precisamos do contrário: propor transformações muito efetivas na vida da maioria, sem exigir credenciais”

Por Moysés Pinto Neto


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Vejo que há um redemoinho que suga a maior parte das energias políticas para falsas questões. Por exemplo, a questão da esquerda. “Quem é de esquerda? Qual a esquerda legítima? Como unir a esquerda?” E se o problema não for a resposta, e sim a pergunta? E se, em vez de construir um campo de força dentro da dinâmica política, está-se pensando o que precisa ser feito em termos de “quem pode frequentar o meu clube?”

Vou fazer um comentário bastante arriscado, mas me parece que é bem possível pensar que a mudança no cenário político, com a crise atual, se dá a partir da virada do primeiro lulismo para um segundo, sobretudo a partir de 2013, com as manifestações, e 2014, com as eleições. No primeiro cenário, a esquerda discursava como centro, no máximo centro-esquerda, mas promovia efetivas transformações sociais. Qual foi o principal símbolo do sucesso do lulismo? O Bolsa-Família, política que muitos nem associavam à esquerda. O Bolsa-Família foi defendido de um modo muito simples e banal: todo mundo precisa comer, independentemente de qualquer coisa. Isso convence qualquer um. E assim foi com uma série de outras questões. Continuar lendo

TEXTO-FIM

A crise do governo e a ausência da esquerda

Moreira Franco, Alexandre de Moraes e Marcela Temer colocam Planalto na defensiva. Mas faltam um projeto de país e uma narrativa consistente sobre o cenário político. Direita ameaça ocupar espaço

Por Antonio Martins | Realização: Gabriela Leite

Não se engane com as aparências: a conjuntura política é e continuará instável com a economia mergulhada em crise, o desemprego e os riscos de convulsão social. O governo Temer apanhou como boi ladrão ontem no Jornal Nacional – por onde se informa (ou desinforma) a maior parte dos brasileiros. A edição levantou, com viés muito desfavorável para o Planalto, os três fantasmas que tiram o sono do presidente: a nomeação de Moreira Franco (“gatinho Angorá” citado 30 vezes na lista da Odebrech) para o ministério; indicação de Alexandre Moraes (envolvido em denúncias de plágio e fraude) para o STF; e o estranhíssimo caso de chantagem contra Marcela Temer, que envolveria seu marido e que está sob censura judical na Folha e no Globo, a pedido da Presidência.

Crises como esta ocorreram outras vezes no governo Temer. Por exemplo, em maio passado, quando o então ministro Romero Jucá foi flagrado tramando o abafamento da Lava Jato. Ou em novembro, quando o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, gravou as pressões que sofreu de Geddel Vieira Lima – e do próprio Temer – para liberar a construção de um empreendiamento imobiliário em área de preservação. No entanto, passado o primeiro susto, o governo golpista recupera-se, recompõe o apoio no Congresso e na mídia e prossegue em sua agenda de retrocessos. Por quê? Continuar lendo

Brasil: ainda estão rolando os dados

Passadas as eleições, toda a velha mídia diz que uma página foi virada, com a vitória dos liberais e conservadores. Veja o que há por trás desta análise apressada

Texto: Antonio Martins | Montagem: Gabriela Leite

Assim que as urnas se fecharam, neste domingo, começou uma operação político-midiática para afirmar que uma página da história do país foi virada. A ampla vitória de candidatos ligados ao governo, na maior parte dos municípios, significaria que já não se pode falar em golpe. Os eleitores teriam confirmado, nas urnas, sua adesão a uma maré liberal-conservadora. Ela é expressa nas importantes vitórias do PSDB e na emergência de figuras como o pastor Crivella, da Igreja Universal. Após as eleições – e aqui está o pulo do gato — deveríamos aceitar como inevitáveis as contra-reformas propostas pelo governo Temer e pelo empresariado: PEC-241 (PEC-55 no Senado). Redução dos direitos previdenciários. Ataque à legislação trabalhista. Todo este raciocínio é manco e interesseiro (– como você verá no começo da tarde).

De que a esquerda institucional está abalada, não há dúvidas. De que será preciso um longo e árduo trabalho de construção de novo pensamento pós-capitalista, também não. A ele nos dedicaremos, com empenho e criatividade, nos próximos anos. Mas por trás da narrativa que desenha uma irresistível onda conservadora há um truque banal. Trata-se de encerrar o jogo quando o placar está favorável ao narrador – mas a partida está apenas começando. Continuar lendo

Para repensar a política, em tempos áridos

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Suely Rolnik e Tatiana Roque convidam a debater novos movimentos, choque com as forças reacionárias e atualidade – e ou reinvenção – da ideia de esquerda


URGÊNCIAS – Para pensar as forças políticas em jogo no Brasil
Uma proposição de Suely Rolnik e Tatiana Roque
Organização: Programa de Ações Culturais Autônomas (P.A.C.A)
Apoio: Instituto Goethe
Sábado 4 de junho, das 10h às 17h (confirme presença aqui)
Local: Rua Lisboa, nº 974, Pinheiros — Metrô Clínicas – S.Paulo (mapa)

A paisagem da sociedade brasileira vem sendo agitada por práticas de invenção que não param de proliferar, em diferentes setores da vida social, colocando em movimento e desestabilizando seus contornos. Essas ações tensionam a atmosfera criada pelas forças reacionárias e reativas que nos assombram desde a fundação do país, mas que parecem ter ganho um novo fôlego.

Como dar conta das experiências e das múltiplas ações que promovem transformações concretas em diversos campos da sociedade brasileira? Os termos e as práticas da esquerda, ou até mesmo a noção de esquerda, ainda são suficientes para descrever a variedade e a singularidade desses vetores de criação? A tradicional oposição entre direita e esquerda ainda nos serve para pensar a relação entre as várias forças em jogo no país? Ou será necessário pensar numa escala que vai de diferentes graus de identificação com o estado de coisas a diferentes graus de reconhecimento de seus pontos de asfixia? De diferentes graus de desejo de conservá-lo e de seu poder de agir a diferentes graus de desejo de criar desvios e de sua potência de agir?

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Zé Celso convida: “dar um Golpe no Golpe”!

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: "Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura"

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: “Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura”

Diretor reencena este fim de semana, em S.Paulo, peça de Antonin Artaud. Quer transformá-la em “Carnaval delicioso”, em “festa de justiça teatral somada a outras Milhares de Manifestações”

Por José Celso Martinez Correa


“PARA DAR UM FIM NO JUÍZO DE DEUS”
De Antonin Artaud e Teatro Oficina

Duas apresentações em São Paulo
Dias 30/4 (sábado) às 21h e 1º/5 (domingo)
Rua Jaceguai, 520 – Bixiga (mapa)

Retorna a SamPã neste fim de semana, depois de passar as duas últimas semanas em Brasília, com o ineditismo de uma peça que re-existe no quente da hora, sintonizada com os acontecimentos tragicômicos da Farsa Política do Golpe.

Nos meus 58 anos de Teatro, raramente viví o Poder Político Cultural do Teat®o tão intenso no prazer de Chanchar a Trágédia Golpista.

Um Público inspiradíssimo, ligado aos acontecimentos de cada dia, que lotava o Teatro da Caixa Econômica, nos fez virar a peça de Artaud, agora com as Máscaras dos Protagonistas armando o Golpe em nome de deus, num Carnaval delicioso.

Nem nos anos 60, com “Rei da Vela”, “Roda Viva”, sentí o Poder do Teat®o revelar uma peça como “pra dar um FIM NO JUIZO de deus” do Momo, do Palhaço de deus: Antonin Artaud, como um Jogo Tão desmistificador da Farsa que estamos vivendo no Brasíl.

Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura.

Queremos fazer neste fim de Semana a peça no Teat®o Oficina, pois nosso desejo de justiça teatral é correr agora todo o Brasil enquanto o Golpe não se consolida, por termos a humilde pretensão de que “pra dar um Fim no Juizo de deus” pode, pelas Gragalhadas, ser um dos pontos somados a todas as outras Milhares de Manifestações.

dar um Golpe no Golpe!

Tarifa zero: Haddad evoca fantasmas da direita

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Olhar mais atento à planilha de custos desmente conta que prefeito usa para desqualificar movimento. Se quer cidade aberta, como a av. Paulista, deveria ter se empenhado no transporte coletivo livre

Por Mauro Lopes, editor do blog Caminho Para Casa

Uma das estratégias mais usadas pela direita para vetar direitos sociais é alardear números tão enormes que as pessoas ficam paralisadas. Milhões! Bilhões! Trilhões! Com este grito, como o pobre cidadão poderá se contrapor? É tanto dinheiro que nem conseguimos mensurar, ter ideia de sua grandeza real e relativa. Foi assim, por exemplo, quando os trabalhadores arrancaram o 13º salário em 1962. O presidente era João Goulart e a direita enlouqueceu dizendo que as empresas iam quebrar uma atrás da outra. A manchete de O Globo na época foi: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”. Hoje a gente ri disso, mas na época foi uma pedreira. Com o Bolsa Família não foi diferente, lembram-se?

Pois agora o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad resolveu tomar emprestada a tática da direita para vetar a discussão sobre a Tarifa Zero. Hadadd fez mais que isso: resolveu aliar-se ao governador neofascista Geraldo Alckmin na questão dos aumentos dos transportes, tem sido conivente com a repressão criminosa ao Movimento Passe Livre e às manifestações de rua e, se não bastasse, partiu para ridicularizar um movimento social. Para desqualificar o direito social reivindicado, ele afirmou recentemente numa agressão sem precedentes aos movimentos sociais partida de alguém de esquerda: “Tem tanta coisa que podia vir na frente, podia ser almoço grátis, jantar grátis, ida pra Disney grátis.” – veja aqui a entrevista. Continuar lendo

Bando hostilizou João Pedro Stédile em Fortaleza

Líder do MST reagiu com altivez e serenidade. Mas ato — que merece resposta imediata — é outro sinal de que a crise política pode transbordar a institucionalidade e se converter em algo monstruoso

Por Valter Pomar*

Na noite de 22 de setembro de 2015, no aeroporto de Fortaleza, João Pedro Stédile foi vítima de uma agressão.

Os detalhes da agressão foram filmados e divulgados, através das redes sociais, pelos próprios agressores.

Quem assiste aos cerca de 6 minutos do vídeo divulgado percebe que faltou pouco para a agressão virar um linchamento. Continuar lendo

O Brasil sob a lógica do condomínio?

 

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Christian Dunker, Maria Rita Kehl, Paulo Arantes e Vladimir Safatle debatem hoje, em S.Paulo, regressões que ameaçam reduzir país a um Fla-Flu mesquinho. “Outras Palavras” participa

E se a polarização sem diferença real, a que a sociedade brasileira parece ter recuado nos últimos meses, revelar algo mais profundo sobre a formação do país? E se, ao nos descobrirmos espectadores de um Fla-Flu político que esconde os problemas reais, ao invés de desnudá-los, pudermos reverter este destino? Outras Palavras participa esta noite, em São Paulo, de um debate em que estarão em foco estas perguntas cruciais. O psicanalista Christian Dunker lançará, na Quadra dos Bancários (próxima ao Metrô Sé — veja detalhes ao final), seu novo livro: O Brasil entre muros. Debaterão com ele os filósofos Paulo Arantes e Vladimir Safatle e a psicanalista Maria Rita Kehl. Antonio Martins, editor do site, fará a mediação.

Dunker falará sobre sua original interpretação da lógica de condomínio enquanto sintoma social do Brasil contemporâneo. Numa entrevista recente, à jornalista Eleonora de Lucena, ele afirmou: “Parece que o problema do Brasil é o PT e o PSDB. Isso é um sintoma da impossibilidade de escutar o país. A escuta é de particulares, condomínios. Mas o Brasil é muito maior do que isso”. Acrescentou: agora, “a existência é pensada entre muros. Se eu sair do meu muro, vou sair para brigar, para quebrar o muro do outro. Não é que o outro esteja fazendo algo com o qual não concordo. Ele é de uma dimensão que eu não consigo reconhecer como semelhante à minha. Por isso, aparecem palavras como petralha, metralha, idiota, louco, deficiente mental –categorias entre o moral e psiquiátrico” Continuar lendo

Nipsters: o nazismo usa máscaras na Alemanha

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Ao invés de rechaçar cultura pop, neonazis tentam apropriar-se dela. Consomem como “hipsters”, vestem-se de negro e… agridem violentamente um número cada vez maior de imigrantes

Cauê Seignemartin Ameni

O atual movimento neonazista alemão vem buscando novos recrutas na subcultura dos jovens com barbas, sacolas de pano, óculos antigos e faixas com slogans nazistas. Ao se deparar com o número cada vez maior dos chamados hipster em manifestações anti-imigrantes organizadas pela extrema-direita, a mídia local apelidou-os de “nipsters”, relata longa reportagem de Thomas Rogers para revista Rolling Stones.

Assim como a propaganda foi essencial ao regime do Terceiro Reich, as redes sociais têm sido a principal plataforma do movimento. Os jovens usam intensamente o YouTube, Tumblr, Instagram e outras redes sociais para ganhar mais apoio na Alemanha, disse à revista Patrick Schroeder, um dos líderes do movimento no nordeste da Bavária, onde pretende dar um rosto social e político mais descolado à extrema-direita alemã.

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Violência (1): “Pronto. Santiago Andrade está morto”

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“Nenhuma jornada de lutas do século XX, com milhões de pessoas, valeu-se de violências. Do seu lado, estavam a razão e a vitória. Agora, black-blocs entram no jogo pesado que direita quer impor ao país” 

Por Gilberto Maringoni 

Santiago Andrade foi vítima da estupidez de arruaceiros infiltrados entre manifestantes, no Rio de Janeiro. Foi vítima dos marginais que se autointitulam black blocs. Estes nada têm a ver com democracia, com luta por direitos e muito menos com jovens da periferia que querem um lugar ao sol.

Diante da provocação montada por Eduardo Paes – que brincou com gasolina ao aumentar as passagens de ônibus de um sistema sucateado – os black blocs entraram no jogo pesado que a direita quer impor ao país.

O jogo do caos. Continuar lendo