Por que o “Fora, Temer!” já não basta

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Possível prisão da cúpula do PMDB demonstra: presidente é figura secundária, no cenário caótico que conduziu ao golpe. Para restaurar democracia e evitar o Estado Policial, é preciso propor a Reforma Política

Por Antonio Martins


TEXTO EM CONSTRUÇÃO
O rascunho a seguir é o ponto de partida para uma análise de mais fôlego sobre o cenário político atual. Contribuições e críticas são muito bem-vindas. Faça-as no espaço para comentários do post

Trinta horas depois de revelado o pedido de prisão dos senadores Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá, e do deputado Eduardo Cunha, ainda é impossível saber a que interesses serviu o vazamento. Aos do Procurador Geral da República (PGR), que quer tirar de cena a cúpula do PMDB e procurou expô-la à execração pública? Ou, ao contrário, aos próprios dirigentes do partido, interessados em amedrontar a casta política para mobilizar sua solidariedade contra Rodrigo Janot?

Seja qual for a resposta, algo muito relevante emergiu. A ousadia dos pedidos de prisão indica que o terremoto político iniciado pela Operação Lava Jato pode estar muito longe do final. Janot – ao que tudo indica o mentor e coordenador [texto Nassif] dos juízes e procuradores de Curitiba – atinge agora o núcleo central do governo Temer e do PMDB. Talvez também esteja por trás dos vazamentos muito recentes que comprometem o próprio governo FHC e fustigam, portanto, a oposição mais claramente identificada com o neoliberalismo. Se enfrenta tantos oponentes, investindo de maneira inédita contra o Palácio do Planalto e o comando do Legislativo, duas conclusões se impõem.

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TEXTO-FIM

Eclode a primeira crise do “governo” Temer

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Vice acaba de cancelar reunião crucial para montagem do ministério. Por que a queda de Eduardo Cunha mergulha a equipe de Temer, e os próprios rumos de seu período, em grande zona de dúvidas

Por Antonio Martins

Na manhã desta segunda-feira, quando se abre a semana em que Michel Temer assumirá, sem votos, a presidência da República, as TVs e portais atraem a atenção do público para a coerção do ex-ministro Guido Mantega, pela Polícia Federal. É pura marola – o fato relevante é outro.

Ao afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados, na última quinta-feira, o STF deflagrou a primeira grande crise do “governo” Temer. Ela cresceu sem parar, nos bastidores, durante o fim de semana. A ponta do iceberg acaba de surgir. O vice-presidente cancelou há pouco, reunião com os presidentes dos partidos que apoiam seu governo, marcada ainda ontem à noite. Faltando apenas três dias para sua provável posse, pelo Senado, Temer não tem mais certeza alguma sequer sobre a equipe de ministros que anunciará. Continuar lendo

O novo (e frágil) Consenso de Brasília

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“Ajuste fiscal” iniciado por Dilma não visa “acertar contas públicas”, mas mostrar adesão a mito conservador. Caminho pode levá-la ao desastre

Por Antonio Martins | Imagem: Bob Row

Estranha é a matemática dos que alardeiam a necessidade de um “ajuste fiscal”. Nas últimas semanas, afirmou-se que o Orçamento da União, para 2015, contém um “rombo de 100 bilhões de reais”. Defendeu-se a nomeação de Joaquim Levy para o ministério da Fazenda, sob o argumento de ser um “especialista em gastos públicos”, cujo “descontrole” seria responsável pelas agruras econômicas do Brasil. Abriu-se a caça às despesas a cortar – do seguro-desemprego e auxílio-doença pagos pela Seguridade às linhas de crédito dos bancos públicos.

Então, quase em surdina, sem nenhum destaque nas manchetes, o Banco Central promoveu, em duas tacadas, a elevação de 0,75% na taxa de juros paga pelo Estado a seus credores. Em termos reais, já era de longe, a mais alta do mundo. Agora, subiu a 11,75% ao ano – contra 0,23% nos EUA, 0,08% na zona do euro, 1,8% nas Filipinas ou 4,42% na Colômbia. Calcule, você mesmo, o impacto sobre os gastos públicos. Se a dívida pública monta a R$ 2,183 bilhões, a União transferirá em 2015, aos possuidores de títulos de Tesouro – quase todos já fartamente endinheirados –, R$ 256 bilhões (o dobro do suposto “rombo”). Só as duas elevações da taxas de juros mais recentes decretadas pelo BC custarão R$ 16,37 bilhões, cinco vezes mais que os recursos destinados ao ministério da Cultura, em 2014. Continuar lendo

O veneno do agronegócio

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Na cidade onde agrotóxicos contaminam até o leite materno, Dilma apresentou modelo agrícola como “exemplo para o país”

Por Inês Castilho I Imagem Alana Gandra – Agência Brasil

Ao abrir nesta terça-feira (11/2), numa cerimônia em Lucas do Rio Verde (MT), a safra de grãos 2013-14, a presidente Dilma Roussef não se conteve. Entusiasmada com a perspectiva de uma colheita recorde, de 193,6 milhões de toneladas, lembrou o crescimento de 221% em vinte anos e afirmou que “o agronegócio brasileiro é exemplo de produtividade para o país”.

Será? Ao escolher Lucas do Rio Verde como local da cerimônia de saudação a este modelo, talvez Dilma não soubesse que estava dando um tiro no pé. Como louvar alimentos que envenenam a fonte mesma da vida? Mais: há muito se analisam como ilusórios os números de “produtividade”. O agronegócio gera dólares, mas eles concentram-se nas mãos de muito poucos. A monocultura mecanizada emprega cada vez menos trabalhadores. O uso maciço de pesticidas polui terra e rios, intoxica trabalhadores e comunidades e, exatamente ali, envenena leite materno. Tudo somado, são perdas incomensuráveis para os ultra ricos. Continuar lendo

Internação compulsória em debate

Movimentos discutem se as medidas do governo contra a “epidemia de crack” prezam pela saúde dos moradores de rua ou pela higienização das cidades

O “enfrentamento ao crack”, como se uma substância — e não processos históricos de desigualdade e opressão — fosse responsável pelos complexos problemas sociais dos moradores de rua brasileiros, vem sendo uma das bandeiras do governo Dilma. Nesta quarta-feira, a presidente — acompanhada dos ministros da Justiça e da Saúde — lançou novo programa sobre o tema, no qual boas iniciativas como os consultórios de rua convivem com o apoio às majoritariamente nefastas comunidades terapêuticas e com o fantasma cada vez mais concreto da internação compulsória de menores.

Felizmente, a reação a esta saída higienista, segregadora, preconceituosa, regressora das conquistas do movimento antimanicomial e, além de tudo, ineficaz — Bruno Gomes, da ONG É de lei, lembrou, também nesta quarta, que entre 95% e 98% das pessoas internadas compulsoriamente têm recaídas — tem crescido entre os defensores dos direitos humanos e de políticas de saúde marcadas pelo respeito aos direitos do cidadão.

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