Aécio e uma curiosa forma de cinismo aristocrático

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Como candidato sintetizou, numa frase, um interessante estratagema das elites. Implica fingir desapego ao dinheiro — mas cuidar para que toda a estrutura de desigualdade e privilégios se mantenha… 

Por Leonardo Gomes Nogueira, editor de Supressão dos Costumes Selvagens | Imagem: George GroszOs Pilares da Sociedade (1926)

Aécio Neves diz, com orgulho, que quando foi governador de Minas Gerais teria aberto mão de metade do seu salário. “Eu precisava dar o exemplo”, diz o candidato. Não vou entrar no mérito se isso é verdade ou não. A questão não é essa. A questão é avaliar o que estaria por trás desse discurso, aparentemente, nobre.

O que o candidato está querendo dizer, nas entrelinhas, é o seguinte: se você fosse uma pessoa de bem, desapegada como eu sou, faria o mesmo. Ou ainda: o salário não é tão importante assim, gente! Esqueçam isso! O uso da palavra “exemplo” não é por acaso.

Aécio pode abrir mão da metade ou até integralmente do seu salário. Não tenho dúvida de que ele possa fazê-lo. Pois Aécio, mais do que uma pessoa de bem, é uma pessoa de bens. Ele não depende, nem nunca dependeu de salário pra pagar as suas contas. Ele, como se sabe, é um herdeiro. Continuar lendo

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“Sai, que vou passar por cima. É blindado, é blindado”

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Cena paulistana revela: em automóveis de luxo, projetados para o combate, a nobreza exerce seu poder. Fabricante exalta: é carro “para quem está no controle”

Por Flavio Siqueira Júnior, editor do Brasil de Brinquedo

A foto acima foi tirada no exato instante em que o motorista da SUV gritou: “Sai que eu vou passar por cima. É blindado, é blindado!”

Um segundo depois ele fez o prometido.

O trânsito era o mesmo como em todas as manhãs paulistanas e a Mercedes, sem perceber, ou sem se importar, “ralou” o carro parado na faixa ao lado, ao ultrapassá-lo. O trânsito parou novamente e a Mercedes voltou para a faixa em que estava antes. Errou o palpite da faixa mais rápida. Estavam novamente lado a lado. Assim, o motorista  “ralado” abriu o vidro para avisar do ocorrido. Foi ignorado ou não foi visto. A Mercedes era bem mais alta que seu carro. Continuar lendo

São Paulo: começa ocupação Copa do Povo

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A poucos quilômetros do estádio em que começará Copa do Mundo, milhares de famílias ocupam terreno e reivindicm: dinheiro público precisa assegurar direitos para todos

Pelo MTST

Na noite de 2/5 centenas de famílias organizadas pelo MTST ocuparam um terreno que estava abandonado há anos em Itaquera.

Nos dois dias seguintes, a ocupação recebeu cerca de 2 mil famílias que estavam em condições precárias de moradia na região. São trabalhadores do Jardim Helian, Gleba do Pêssego e Jardim Cibele (comunidades de Itaquera). Mas não só: famílias vieram também de São Miguel, Ermelino Matarazzo e outros bairros da zona leste. Continuar lendo

Como a falsa “austeridade” europeia está contaminando o mundo

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Dois estudos indispensáveis revelam: políticas de corte de direitos sociais e serviços públicos já atingem maior parte do planeta, interessam a um pequeno grupo e ameaçam democracia

Por Antonio Martins

Três dados muito eloquentes sobre o fracasso das políticas de “austeridade fiscal” estão sendo divulgados no início desta semana. Em Portugal, tornaram-se públicos os planos do governo para reduzir em 10% o valor das aposentadorias. Na Espanha, missão do FMI, em visita ao país sugeriu o que chamou de “ambicioso pacto social”: os trabalhadores na ativa aceitariam cortar seus salários, também em 10%, para tornar a produção nacional “mais competitiva”. Ataques aos direitos sociais vêm se sucedendo pelo menos desde 2011, no Velho Continente, mas a cada dia parecem mais inúteis — ou, o que é mais provável, visam outros objetivos, que não os declarados. Números divulgados hoje revelam que a economia italiana viveu, entre abril e junho, o oitavo trimestre seguido de recessão, algo nunca antes visto na história daquele país… Engana-se, porém, quem julga que a obsessão por tais políticas é característica apenas da Europa.

Em março deste ano, duas organizações internacionais voltadas ao exame crítico das políticas econômicas (Initiative for Policy Dialogue e South Center) publicaram conjuntamente o relatório A Era da Austeridade [The Age of Austerity]. Ele pode ser lido aqui e revela que: Continuar lendo

Sonegar, esporte global das elites

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Novos dados revelam: em todo o mundo, nunca as grandes corporações e milionários pagaram tão poucos impostos

Por Inês Castilho

O escândalo da sonegação de impostos pela Rede Globo está chamando atenção da opinião pública – talvez por incluir cenas de novela mexicana. Pastas repletas de documentos comprometedores contra a emissora foram surrupiadas, numa bolsa, por uma funcionária da Receita Federal. Rumores sugerem que auditores fiscais foram eliminados fisicamente, por saberem demais (veja mais a respeito em Outras Mídias). Mas, embora menos parecido a lances de novelas, a redução constante da contribuição financeira dos milionários e das grandes corporações para a manutenção dos serviços públicos, é uma epidemia mundial.  Continuar lendo

Primavera Brasileira ou golpe de direita? (final)

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Perguntas e respostas sobre um movimento que está mudando a cena do país – e cujo futuro, aberto, será decidido também por você

8. Por que o Brasil estará diante de uma encruzilhada, nos próximos meses? Que papel jogará a mobilização social ?

Por Antonio Martins | Imagem: Ninja


Leia também:
1. É possível falar em “Primavera Brasileira”?
2. Há no ar uma tentativa de golpe antidemocrático?
3. Como foi possível converter manifestações autônomas por direitos em territórios de preconceitos e violência?
4. Por que a tentativa de capturar os protestos é frágil e pode ser vencida?
5. Que temas permitem retomar uma pauta de direitos e transformações?
6. Que são as Assembleias Populares e como elas podem preparar uma nova fase da mobilização?
7. Que revela a postura de Dilma e como os movimentos podem tirar proveito dela?

Alcançar a redução simultânea da tarifa de ônibus nas duas maiores metrópoles do país, além de diversas outras capitais e grandes municípios, é provavelmente um feito inédito. Para tanto, centenas de milhares de brasileiros venceram as bombas da polícia e as botas de chumbo da passividade. Ao pagar a passagem com desconto, dezenas de milhões estão refletindo que “é possível”… Mas os vinte centavos conquistados
são ínfimos, diante da importância que a vitória poderá assumir nos próximos meses. Ela introduz, no período de turbulências que o Brasil tende a atravessar, a potência rebelde das mobilizações sociais. Continuar lendo

EUA: Estado dá aos muito ricos mais que às crianças

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Estudo chocante revela resultado das isenções de impostos

Um estudo do site CEPR revela algumas das distorções que passaram a marcar o sistema tributário norte-americano, após sucessivas concessões aos mais riscos. Já em 2013, o Tesouro oferece a cada integrante do grupo de 1% das pessoas mais ricas do país benefícios anuais equivalentes a 29,8 mil dólares — quase três vezes os subsídios destinados a cada criança (US$ 12,3 mil).

O documento do CEPR (em inglês) está abaixo: Continuar lendo

Rap, Emicida e a alma lavada das quebradas

Em cada letra e cada show, a lembrança de violências e humilhações que perduram — e um sinal de que, ainda que prendam o artista, esta ordem vai mudar

Por Joseh Silva

Para quem mora na periferia, lidar com policiais é traumático. Por volta dos dez anos de idade comecei a entender a lógica desta instituição: “eu dito as regras e foda-se”. As batidas na quebrada sempre foram rotineiras e tenho muitas lembranças das ações tomadas, sempre com muita violência, na maioria dos casos na frente de todos. Agredia-se aos olhos da comunidade, para servirem como exemplo. Todas as semanas isso acontecia, pontualmente.

Quando eu via um conhecido tomando uma tapa na cara somente por olhar para o policial, sentia raiva dos homens de farda. Ficava imaginando como era tomar um tabefe, de mão aberta, enquanto se está com as mãos para trás — aliás, que posição ameaçadora, não? Depois que as viaturas saíam só se ouviam os choros dos familiares que, em muitos casos, presenciavam as agressões. Continuar lendo

STF pode liquidar resistência às cotas raciais e sociais

Afro-raggae: presente hoje em Brasília

Julgamento, a partir das 14h, será acompanhado por mobilização de alunos cotistas e Banda Afro-reggae, e acompanhado pelo cineasta Spike Lee

Pode terminar esta tarde, em Brasília, um episódio emblemático de resistência das elites brasileiras a medidas democratizantes que atingem seus privilégios. O plenário do Supremo Tribunal Federal julgará três Ações Diretas de Inconstitucionalidade que procuram anular as políticas de cotas sociais e raciais nas universidades. Foram impetradas por um partido político (naturalmente, o DEM…), pela Confederação dos donos de escolas privadas (a Confenen) e por um estudante branco que se julgou prejudicado.

Hoje, a confirmação das cotas é considerada certa: diversos ministros do STF já se manifestaram por sua constitucionalidade. Mas há apenas três anos, quando as ações começaram a chegar ao tribunal, o cenário era outro, lembra o blog Mamapress. Os jornais ironizavam a nova política, afirmando que “não iria dar certo; atrairia o ódio racion norte-americano; dividiria o país entre pretos e brancos”; “formaria profissionais que não seriam aceitos no mercado”. Colunistas como Demétrio Magnoli e editores como Ali Kamel eram chamados para constantes pronunciamentos a respeito.

A provável vitória de hoje é mais um sinal de que o país vive mudanças culturais importantes e rápidas, impulsionadas também por uma atitude altiva das periferias. Para pressionar o STF a enterrar as políticas antidiscriminatórias, caravanas de alunos quotistas de vários estados estão desde ontem em Brasília. Um ato ecumênico diante do tribunal será animado pela Banda Afro-Reggae (na foto). O cineasta Spike Lee (diretor de MalcolmX e Faça a Coisa Certa) anunciou que estará presente e registrará o julgamento. Ele prepara novo filme, intitulado Go, Brazil, go, em que destaca a importância internacional do país para novos padrões de igualdade e diálogo inter-étnico. Tais mobilizações continuam a ser ignoradas pela mídia tradicional, num sinal de que parte das elites deixou a histeria, mas ainda não se sente à vontade num país menos desigual.

Kabengele Munanga: vida e ideias de um pensador anti-racista

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

Por Jean Mello

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

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