SP debate estado de exceção, investida da direita e alternativas à esquerda

170605-Tucarena

Salão do Livro Político começa hoje, no teatro da PUC-SP, um dos palcos de resistência democrática na ditadura. Evento trará Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Reginaldo Nasser, Ciro Gomes e muitos outros

Por Célia Demarchi

O Salão do Livro Político, organizado por um grupo de editoras independentes de esquerda, chega à sua terceira edição. Este ano será realizado no Tucarena, teatro ligado à PUC-SP. A Universidade e seu teatro tiveram um papel importante na democratização do país: confrontaram a ditadura abrigando intelectuais perseguidos pelo regime, como Paulo Freire e Florestan Fernandes, como também foram um dos palcos que ousou exercer a democracia nos anos de chumbo — quando escolheram na sua primeira eleição, em 1977, por votos diretos a reitora Nadir Kfouri. Em retaliação, a repressão tentou destruir o teatro, incendiando-o 3 vezes.

Mesmo assim, a chama democrática continuou acesa e brilha até hoje. Como nos anos anteriores, o Salão terá uma programação extensa que perpassa os temas sociais e políticos mais candentes da atualidade. Da gravidade da atual crise política brasileira aos ciclos de poder na América Latina. Da resistência indígena à revolução em curso das mulheres e à questão dos refugiados. Da pertinência de falar sobre Marx e o marxismo hoje à discussão dos 100 anos da Revolução Russa e da primeira greve geral no Brasil. Da proposta de privatização de bibliotecas às perspectivas do mercado editorial. Tudo intercalado com uma diversificada programação cultural.

Entre os convidados já confirmados estão: Dilma Rousseff, Ciro Gomes, Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Amelinha Telles, Eleonora Menicucci, Pedro Serrano, Fabio Luis Barbosa dos Santos e Pedro Fassoni, Rafael Valim, Reginaldo Nasser, Tércio Redondo, Antonio Rago Filho, Lidiane Soares Rodrigues, João Quartim de Moraes, José Arthur Giannotti e Osvaldo Coggiola. Veja todos os convidados aqui. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Mauro Lopes: tempo de plantar

18470898_10155324293734594_1554001140_n

170516-maurolopes

“É tempo de resistência, de tecer redes de solidariedade e partilha, de combinar mobilizações de rua com ações pontuais, vigorosas, de estabelecer novas relações.”

Por Mauro Lopes, do blog Caminho Para Casa


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Não me é possível responder à pergunta “a frio”, como um cientista de laboratório, absorto em planilhas e cálculos. O sangue nas cidades e campos, as mortes, a liquidação da justiça, o desmantelamento da Previdência Social, a selvageria as relações de trabalho, ao ponto de tentarem impingir a escravidão aberta no mundo rural, a humilhação dos pobres, a arrogância violenta dos ricos. É este o campo de batalha sobre o qual se deve pensar em virar a página.

Não devemos nos reduzir ao ódio, mas é impossível pensar sem indignação, sem raiva contra a impostura, os massacres a destruição do país –uma ira santa, como a dos profetas de todos os tempos. Continuar lendo

Priscila Bertucci: Transformar nossos microcosmos

18470898_10155324293734594_1554001140_n

18492804_1626814637359222_1100478358_n

“E somar esforços em torno das lutas que nos unem: contra o machismo, a homolesbotransfobia, o racismo, sexismo e a falta de acessos gerais da população empobrecida”

Por Priscila Bertucci*


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Penso que a corrupção no Brasil – e talvez em grande parte do mundo – seja algo que para além da política: está enraizada no peito, na cultura, na mente e no centro das relações entre as pessoas. E isso vem sendo cultivado há centenas de anos. Acho que a política está sendo, nesse momento histórico do Brasil, um espelho das relações que se dão cotidianamente em muitos e muitos âmbitos: a falta de uma postura ética e de coerência.

Também vejo polaridades espelhadas de um problema muito maior. E estas polaridades criam um fenômeno do “nós” e dos “outros”: são os “outros” no poder que são os corruptos (e não eu), os outros são, os políticos são, eu não… Então, quando nós temos o “nós” e os “outros”, temos divisões que criam tensões, geram agressividades, violências e dramas: tudo isso é o que estamos experienciando na vida privada e no cenário político do Brasil. Como se todos fôssemos absolutamente éticos quando se trata de atacar algo que não nos favorece e, quando nos favorece, vira o chamado “jeitinho brasileiro”.

Continuar lendo

Berenice Bento: Compreender que classe, raça e gênero são indissociáveis

18470898_10155324293734594_1554001140_n

170512-berenice

“Esquerda reduz feminismos, LGBTTI e movimentos negros a ‘pauta identitária’. Não entende que o neoliberalismo precisa de um sistema de valores que lhe dê sustentação; e que há conexão indissolúvel entre a família tradicional e a base do sistema econômico

Por Berenice Bento


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

“Se você está confuso, está no bom caminho”. Li alguma coisa parecida há algum tempo. Tenho certa desconfiança daqueles que têm respostas prontas para tudo que tem acontecido no Brasil. Para quem trabalha no campo das interseccionalidades não basta afirmar: “em última instância…”. Me nego a pensar o mundo a partir de determinismo de qualquer ordem, seja de classe, de raça, de gênero, de sexualidade. E ao fazer isso, também reconheço, que há um campo possível de coligação (pensando aqui com filósofa Judith Butler) das esquerdas.

Não existe apenas a elite econômica, mas as elites políticas, as elites intelectuais, sexuais e de gênero. Seria coincidência que os direitos trabalhistas e previdenciários estão sendo atacados pelo mesmo Estado que tem atacado os direitos das mulheres, censurado os debates sobre diversidade de gênero, de sexualidade? Será coincidência que aqueles/as que votaram em 17 de abril de 2016, pela abertura do processo de impedimento da presidenta Dilma, vociferam suas declarações de voto em nome da família? Continuar lendo

Felipe Milanez: jovem resistência indígena enterrará velhos ruralistas

18470898_10155324293734594_1554001140_n

14021677_1293189850706340_7493355789608947620_n

Acampamento Terra Livre provou a capacidade política em uma das maiores mobilizações indígenas da história do país. Nessa nova geração, emerge ainda um movimento feminista, que deve chacoalhar o pensamento radical

Por Felipe Milanez*


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

As bombas jogadas pela polícia contra a marcha pacífica dos indígenas, em 25 de abril, não foram suficientes para abafar os gritos de guerra. As fumaças do gás lacrimogênio não tiravam o fôlego de quem corria pelos gramados da Esplanada, transformados num campo de batalha.

E não escrevo de forma retórica: observei os guerreiros com flechas correndo contra a nuvem tóxica, em direção ao Congresso Nacional. Corriam com flechas apontadas contra revólveres e espingardas. Nesse cenário, vi xavante com o olho ardendo, tossindo, mas gritando de forma contínua e intercalada; um guarani chutando as bombas; um jovem pataxó pegando uma bomba com a mão e lançando contra os novos bugreiros uniformizados; um grupo pankararu cantando e dançando o toré com tanta força espiritual que o lacrimogênio virou gelo seco em frente ao Ministério da (in)Justiça.

A força da mobilização vinha de quem sabe suspender o céu. Do carro de som ecoavam cantos xamânicos, cantos de força espiritual e de proteção, cantos para pacificar os inimigos. Eram velhos xamãs marchando ao lado de jovens guerreiras e guerreiros; avôs e avós de braços dados com seus netos e netas.

Essa foi a mais linda, a mais inspiradora e a mais estimulante de todas as 14 mobilizações do Acampamento Terra Livre (ATL), organizado pela Articulação dos Povos Indígenas (Apib), em Brasília, no Abril Indígena. Este ATL 2017 não foi apenas uma das maiores mobilizações políticas dos povos indígenas, com mais de quatro mil lideranças do País todo, mas a mais jovem e inovadora, liderado por uma terceira geração do movimento.

Na segunda marcha, na quinta-feira 27, todos e todas viram quando um pajé lançou um feitiço que desequilibrou o policial montado num cavalo. A juventude riu do policial, e prestou reverência ao velho pajé. Me parece esse um maravilhoso símbolo dessa construção coletiva do movimento indígena, no qual a nova geração assume o protagonismo com um respeito que é raro de ser observado em outros movimentos sociais.

Com bombas, bala e cassetetes, as agressões físicas do governo Temer não intimidaram quem pertence a essa terra. Apenas serviu para mobilizar e engajar ainda mais a jovem resistência reunida em Brasília. “A bala de borracha e o spray de pimenta que são lançados contra nós, ainda está muito longe de ser, de representar, a violência que a gente vive nas terras indígenas. Todos os dias os ataques, todos os dias os assassinatos”, disse Sonia Guajajara, secretaria-executiva da Apib, em entrevista a Daiara Tukano, da Rádio Yandé, num vídeo que bombou de visualizações nas redes sociais. “A luta é nossa e não vamos recuar”, completou, na entrevista disponível na página da Yandé no Facebook.

Terra Livre03.jpg
Bombas contra os indígenas. Só mais um episódio de violência

A Rádio Yandé, aliás, bombou e fez bombar muitas mensagens insurgentes: por Whatsapp desde o campo de batalha, as informações de Daiara, Idjahuri Kadiweu, Anapuaka Tupinamba e Naine Terena eram postadas à distância por Renata Tupinambá, e rapidamente atingiam milhares de visualizações. Que lindo ver indígenas em resistência numa batalha campal, junto de indígenas numa batalha midiática e das narrativas.

Como os velhos ruralistas sentados no poder usurpado irão calá-la se os indígenas que a fazem não dependem de um centavo de anúncio do governo? A lógica da comunicação da Yandé é diferente da lógica da imprensa que divide em anúncios inescrupulosos o bolo do golpe, que se presta a propagandear contra direitos da classe trabalhadora, a favor da reforma trabalhista e do fim da Previdência: a Yandé é o novo jornalismo, descolonial, situado, comprometido. Informa o Brasil desde o ponto de vista do indígena – e não desde o ponto de vista da Casa Grande, do Capital, da linha de cima do racismo, da bolha do confinamento racial do jornalismo brasileiro.

Esse estúpido cenário de guerra produzido pelo autoritarismo do atual governo ao menos serviu para ilustrar, em imagens que giraram o mundo, que vivemos em um Estado de Exceção. Tal como explica Sonia, os povos indígenas vieram a Brasília “dizer o que é uma democracia”. E foram recebidos com covarde truculência.

As bombas que ecoaram na Esplanada assustaram muitos jovens e representaram um rito de iniciação. Foi a primeira vez que Piray, jovem Awa Guajá classificado de “recente contato” pela Funai, saiu do Maranhão. Ele veio para mostrar que aqueles “isolados” ou de pouco contato, também devem ser ouvidos e respeitados.

Geraldino Patté, do povo Laklãnõ/Xokleng, também saiu pela primeira vez do sul do Brasil. Ele sabe muito bem de toda a história da violência dos bugreiros contra seu povo, dos contos de atrocidade do Martinho Bugreiro. E agora, com sua irmã que cursa mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina, investigam e denunciam a tentativa de construção de usinas hidrelétricas no seu território. Ele postou uma linda foto sua no Facebook, segurando uma lança: “A batalha é grande, mas eu não desistirei dessa luta. Orgulho de ser indígena. Orgulho de ser Laklãnõ/Xokleng”.

De repente, nesse encontro, eu estava numa roda de conversa entre Geraldino e Auricélia Arapium, que é uma intelectual orgânica do movimento Em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns, liderança indígena, estudante de direito da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém. De norte a sul, era uma luta por direitos, para denunciar o racismo institucional, o apagamento da história. São indígenas que estão conseguindo furar o confinamento racial das universidades brasileiras, e repensando a nossa história para projetar um novo futuro.

Nessa nova geração, emerge ainda um movimento feminista que deve chacoalhar o pensamento no Brasil: são as xinguanas organizadas no movimento Yamarikumã, as mulheres de Roraima, os movimentos com apoio da ONU Mulheres, rodas de debate e plenárias das mulheres. Telma Taurepang, uma das mulheres que lideram essa onda feminista indígena, anunciou a convocação da primeira Marcha das Mulheres Indígenas, que vai acontecer em 8 de março do ano que vem. Anotem na agenda.

terraLivre02.jpg
Idjahuri Kadiweu e Anapuaka Tupinambá: os índios fazem notícia

Políticos indígenas como o vereador xinguano Mutuá Mehinaku, do povo Kuikuro, de Gaúcha do Norte, que é mestre em linguística pelo Museu Nacional da UFRJ, estão assumindo o poder institucional com o intuito de transformar a representação e radicalizar a democracia: “Temos que ocupar esse espaço da política. Chega de falarem por nós, nunca nos representaram. Somos nós que temos que estar no parlamento nos representando a nós mesmos”, me disse Mutuá.

Quem sabe um dia, em vez de grileiros e ruralistas, os eleitores e as eleitoras do estado do Mato Grosso contribuam para o Brasil elegendo como deputados brilhantes intelectuais indígenas, como Mutuá, para ajudar a construir um país mais igualitário, justo e democrático.

O encontro teve luta em múltiplos sentidos: a luta na Esplanada, a luta intelectual na organização de comissões, de debates, a luta política com deputados, senadores, e a recusa em receber ministros ruralistas do governo Temer. Encontros que cruzavam realidades de Norte a Sul, povos geograficamente distantes mas politicamente muito próximos, epistemologicamente vizinhos, lado a lado a enfrentar o genocídio. Do Xokleng no sul do Brasil, aos povos que vivem no Tapajós e na bacia do Juruena, todos e todas trocavam informações, ideias e estratégias para enfrentar o barramento e morte de seus rios de vida.

Várias lideranças que encontrei e conversei cursam mestrado, falam a língua, aprendem na universidade e valorizam cada vez mais o conhecimento da aldeia. Sabem também que a luta ensina, aprendem com o movimento indígena e com as vozes mais antigas das aldeias. Esse encontro talvez tenha marcado a emergência de uma terceira geração do movimento indígena.

E o que é muito interessante, comentou comigo Ailton Krenak, grande liderança do primeiro movimento nos anos 1980, e que não esteve dessa vez em Brasília, é que todas essas gerações se reconhecem, com empatia, que não é comum, como ocorre muitas vezes que uma nova vem desqualificar os velhos. “Há alguma herança no sentido cultural, que distingue esse movimento indígena de outros movimentos. E essas vozes não vão ser caladas. Não vamos nos calar, nem imobilizar nossa capacidade de luta ante a força bruta dos aparatos de proteção do Estado dominado pelo Capital sem fronteiras”.