Os doze homens suspeitos e a crise da democracia

Dinheiro e chantagens: como o governo Temer tenta comprar a “Reforma” da Previdência. O que isso revela sobre a formação de uma casta política, que se associou ao poder econômico e à mídia para fraudar a voltade popular. Há chances de resgate?

Por Antonio Martins | Vídeo: Gabriela Leite

Uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou, quarta-feria à noite (3/5), a contrarreforma da Previdência proposta pelo governo Temer. A matéria ainda será levada ao plenário da Câmara e ao Senado. Mas os antecedentes da votação de ontem nos ajudam a abordar algo pouquíssimo examinado no Brasil – inclusive pelos partidos de esquerda. A velha democracia está moribunda. Seu mecanismo essencial, o sistema de representação, converteu-se numa farsa. Os supostos “representantes do povo” são hoje uma casta política, que não presta contas à sociedade e vive de favores do grande poder econômico – com a providencial cumplicidade da mídia.

No texto anterior desta série, debatemos a democracia direta – prevista como um princípio na Constituição de 1988, mas sabotada pela casta política. Agora, discutiremos a democracia representativa. As hipóteses essenciais que animam a série são as mesmas: a) a velha democracia morreu; b) abriu-se uma disjuntiva: ou seremos capazes de construir um novo sistema, muito mais aberto à participação popular e à autonomia, ou prevalecerão as ideias dos que pregam abertamente o autoritarismo e a ditadura; c) esta transformação não poderá ser liderada pelos partidos políticos – ela depende de ação da própria sociedade.

Para examinar a crise da representação, vamos partir de fatos reais, recentes e muito relevantes.

* * * Continuar lendo

TEXTO-FIM

Nova política: a estratégia do “Comunalismo”

170306-Comunalismo

Comunidades governadas por assembleias de base, e articuladas em federações, poderiam ser alternativa para a crise da democracia contemporânea?

O esforço para reinventar a democracia e tão necessário e urgente — e temos ainda tão poucas respostas — que vale a pena examinar com atenção todas as trilhas disponíveis. Num artigo recém-publicado pela excelente revista Roar Magazine, baseada em Amsterdã, a antropóloga norte-americana Eleanor Finley fala sobre o “comunalismo” — definido por ela mesma como “a superação do capitalismo, do Estado e da hierarquia social por assembleias e federações municipais, locais e de vizinhança”

O comunalismo, diz Eleanor, é essencialmente um um processo, que esteve associado, ao longo da história da humanidade, a diferentes projetos políticos. Iluminou a Comuna de Paris e os “caracóis” zapatistas. Está presente na prefeitura de Barcelona — onde Ada Colau foi eleita com base na constituição anterior de inúmeras Assembleias Cidadãs — e na resistência curda em Rojava. Mas alimentou também a democracia ateniense e as confederações de índios iroquis, que governaram a região dos Grandes Lagos (EUA) durante 800 anos.

Continuar lendo