Nova política: a estratégia do “Comunalismo”

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Comunidades governadas por assembleias de base, e articuladas em federações, poderiam ser alternativa para a crise da democracia contemporânea?

O esforço para reinventar a democracia e tão necessário e urgente — e temos ainda tão poucas respostas — que vale a pena examinar com atenção todas as trilhas disponíveis. Num artigo recém-publicado pela excelente revista Roar Magazine, baseada em Amsterdã, a antropóloga norte-americana Eleanor Finley fala sobre o “comunalismo” — definido por ela mesma como “a superação do capitalismo, do Estado e da hierarquia social por assembleias e federações municipais, locais e de vizinhança”

O comunalismo, diz Eleanor, é essencialmente um um processo, que esteve associado, ao longo da história da humanidade, a diferentes projetos políticos. Iluminou a Comuna de Paris e os “caracóis” zapatistas. Está presente na prefeitura de Barcelona — onde Ada Colau foi eleita com base na constituição anterior de inúmeras Assembleias Cidadãs — e na resistência curda em Rojava. Mas alimentou também a democracia ateniense e as confederações de índios iroquis, que governaram a região dos Grandes Lagos (EUA) durante 800 anos.

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TEXTO-FIM

Hora de encarar a crise da democracia

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No dia das eleições, vale a pena examinar o que teóricos anticapitalistas — de Trotsky a Zizek escreveram sobre limites da representação política e caminhos para superá-la

Por Pedro Veríssimo Fernandes

Hoje, o inimigo não se chama Império nem Capital.
Chama-se Democracia 

Alain Badiou

De dois em dois anos vamos às urnas eleger nossos representantes, aqueles que falarão por nós nos congressos, câmaras e senado. A conquista desse direito custou um preço muito caro àqueles que não aceitavam não participar da vida pública. Desde as lutas pelo sufrágio universal, à resistência as ditaduras latinas, até as recentes primaveras que tomaram o Oriente Médio.

A democracia, de nascimento longínquo e tão falada, ainda demora a chegar em todos os cantos, e quando chega, cedo ou tarde depara-se com a parceria inseparável  da representação. Talvez devêssemos, então, reformular a frase que abre esse texto e dizer que o verdadeiro inimigo, além de não se chamar império e capital, tampouco se chama democracia, mas o modo que se opera, hoje, a representação.

É importante ressaltar aqui que a concepção de uma democracia representativa foi um “mal necessário” já que as cidades cresciam no território e população, ficando impossível pensar nas praças públicas gregas onde cada um dizia por si. Por isso o que se coloca em questão aqui não é a representação em si, mas o simulacro dela que vivemos hoje, pois como ressaltou Lênin, a ideia aqui não é “anular as instituições representativas e a elegibilidade, mas sim transformar esses moinhos de palavras que são as assembleias representativas em assembleias capazes de ‘trabalhar’ verdadeiramente” (O Estado e a revolução, p.57). Continuar lendo

Plebiscito: cinco perguntas perigosas ao povo

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Basta lê-las para compreender por que a mídia e os conservadores rejeitam a Reforma Política, a Constituinte e mesmo a consulta aos eleitores

Por Antonio Martins

O sociólogo Manuel Castells costuma dizer que o principal instrumento de manipulação usado pelas mídias de massa não é a distorção, mas o ocultamento dos fatosEle se deliciaria com as primeiras páginas de hoje dos três jornais brasileiros mais vendidos.

Reforma Política, Plebiscito Constituinte são, obviamente, as três principais novidades na agenda nacional. Dialogam diretamente com algo que se sente todos os dias, e que as ruas expressaram com clareza, nas últimas semanas: o descrédito do sistema político. Pois bem: nas capas de hoje da Folha, do Estado e do Globo, estas três palavras perigosas estão literalmente banidas. Desapareceram não só da manchete e demais títulos, mas também dos textos. Comparecem, é claro, nas páginas internas, muito menos lidas. Aí são tratados como “descabelada proposta” (editorial do Estado), “proposta impraticável” (artigo de José Serra no mesmo jornal), “cheque em branco” (opinião do ministro da STF Ayres Britto, destacada pelo Globo) ou “populismo danoso” (texto do diretor da sucursal de Brasília da Folha). Exceção que confirma a regra: este último jornal publicou importante artigo de Tarso Genro a favor da Constituinte. Continuar lendo

Chile: rumo a uma Constituinte?

Embalada por imensa mobilização estudantil e por onda de reivindicações locais, sociedade quer construir, de forma direta, projeto de refundação da política

Por Hugo Albuquerque

Adormecido durante anos, pelo entulho autoritário da ditadura Pinochet e por um conservadorismo moral incomum (o divórcio foi aceito apenas em 2004), o Chile parece despertar para uma primavera de democracia direta. No último fim de semana, Santigo acolheu uma inovadora Cúpula Social. Organizada por dezenas de organizações sociais, ela tentará desencadear um processo político provavelmente inédito: a construção autônoma das bases para uma nova Constituição – sem o comando dos partidos políticos.

Nos próximos meses, uma extensa série de reuniões e assembleias em todo o país formulará um projeto de desenvolvimento alternativo. Para tanto, o encontro deste fim de semana definiu dezessete eixos temáticos – entre os quais, educação públicos, saúde, proteção do ambiente, saúde e recursos naturais, democratização das comunicações e relações com os povos originários. Em 2013, depois do debate nacional, uma segunda Cúpula Social definirá as proopostas. Somente então elas serão encaminhadas aos partidos políticos. Além de reivindicar que se posicionem, a sociedade civil almeja algo maior: uma Assembleia Constituinte, para reescrever as leis fundamentais do país. Continuar lendo