Mujica, teórico da transição pós-capitalista?

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Em entrevista inédita no Brasil, ele debate causas do fracasso do “socialismo real” e afirma: para superar sistema, é preciso começar pelo choque de valores

Cada vez mais popular tanto nas redes sociais como na mídia tradicional, o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, arrisca-se a sofrer um processo de diluição de imagem semelhante ao que atingiu Nelson Mandela. Aos poucos, cultua-se o mito, esvaziado de sentidos — e se esquecem suas ideias e batalhas. Por isso, vale ler o diálogo que Pepe manteve, no final do ano passado, com o jornalista catalão Antoni Traveria. Publicada no site argentino El Puercoespína entrevista revela um presidente que vai muito além do simpático bonachão que despreza cerimônias e luxos.

Mujica, que viveu a luta armada e compartilhou os projetos da esquerda leninista, parece um crítico arguto das experiências socialistas do século XX. Coloca em xeque, em especial, uma crença trágica que marcou a União Soviética e os países que nela se inspiraram: a ideia de que o essencial, para construir uma nova sociedade, era alterar as bases materiais da produção de riquezas. “Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente. Não se trata de uma constatação lastimosa sobre o passado ou de um desalento. Mujica mantém-se convicto de que o sistema em que estamos mergulhados precisa e pode ser superado. Mas será um processo lento, como toda a mudança de mentalidades, e precisa priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio e produção. Leia a seguir, alguns dos trechos centrais da entrevista: Continuar lendo

TEXTO-FIM

China: o último motor da economia mundial declinará?

Primeiro-ministro tenta reanimar exportadores, mas números continuam sugerindo que país sofre efeitos da retração no Ocidente. Congresso do PC encontrará saídas?

Dois novos sinais acabam de indicar que a queda na atividade econômica na Europa e Estados Unidos está afetando a China; e que, a poucos meses de um novo congresso do Partido Comunista, o governo de Beijing está crescentemente preocupado com o fenômeno. O primeiro-ministro Wen Jiabao viajou no fim-de-semana para a província de Guangdong, o principal polo exportador do país, onde prometeu medidas pontuais para facilitar as vendas externas.  No entanto, estatísticas revelaram que o crescimento das exportações e do conjunto da economia está se aprofundando.

Para continuar gerando um grande número de empregos industriais, num país onde milhões de pessoas emigram para as cidades a cada ano, o governo esperava um aumento de 10% no comércio exterior. As dificuldades para cumprir a meta surgiram já no primeiro semestre, quando as compras e vendas externas subiram 9,2%. Mas os números de julho, que acabam de ser divulgados, soaram o alarme: o crescimento do comércio internacional caiu para 1%, reduzindo para 7,8% a evolução nos sete primeiros meses do ano e tornando quase impossível a meta estipulada para 2012. Em consequência, as previsões para o aumento do PIB no ano caíram para 8% — bem acima da média mundial, mas substancialmente abaixo dos 10%, em média, registrados nas últimas décadas. Continuar lendo

Roubini adverte: crise financeira pode levar a “tempestade” em 2013

Roubini recomenda não entregar nada às mãos dos “mercados”

Economista que primeiro previu terremoto nos mercados sustenta: evitar o desastre dependerá de decisões políticas

Por Antonio Martins

Aonde nos levará a crise financeira que persiste desde 2008, mantém paralisados os países “centrais” do sistema e ameaça, recorrentemente, alastrar-se pela “periferia”? O economista Nouriel Roubini concedeu há cerca de uma semana, à National Public Radio (NPR), dos EUA, entrevista em que aborda o assunto. Vale a pena ouvi-lo. Nascido em Istambul, mas fixado no Ocidente desde a adolescência Roubini é professor na Universidade de Nova York. Foi certamente o primeiro pesquisador a identificar, ainda em meados da década passada, que o estouro da bolha imobiliária norte-americana e a quebra das hipotecas de segunda linha (sub-prime) levariam a uma crise global.

No diálogo que travou agora, com a repórter Linda Wertheimer, ele levantou a hipótese de uma “tempestade perfeita” em 2013 — ou seja, um aprofundamento agudo das dificuldades atuais, capaz de se propagar inclusive pelas zonas que hoje encontram-se relativamente preservadas. Três fatos políticos suscitariam o fenômeno, segundo Roubini. São eles: a) uma ruptura desordenada do euro, eventualmente provocada pela insistência dos dirigentes europeus em impor medidas que destroem direitos sociais e reduzem a atividade econômica; b) um mergulho dos Estados Unidos em recessão,  se, ao final do ano, prevalecerem as propostas conservadoras, de um grande corte de despesas públicas; c) uma derrapagem da China, na transição que terá de fazer, passando de uma economia fortemente apoiada em exportações e grandes investimentos para uma ênfase muito maior no consumo interno.
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Da Grécia ao Reino Unido, Europa volta a andar para trás

Grã-Bretanha: o nobre "Chancellor of the Exchequer" afunda na crise e não vê alternativa

Dados confirmam que “austeridade” deprime o continente, mas governantes insistem em prolongar sacrifícios

Paul Krugman, Nobel de Economia, escreveu certa vez que a lógica oculta nas políticas de “austeridade” é idêntica à dos sacrifícios humanos praticados pelos maias. Eles não evitavam nem os eclipses, nem perda de colheitas, mas os sacerdotes argumentavam que sua receita estava certa — apenas não havia sido seguida com a intensidade necessária… Duas estatísticas divulgadas ontem, e as reações das autoridades a elas, dão novas razões à comparação de Krugman.

Na Grécia, o Banco Central anunciou que a queda no PIB será maior que se previa: -5%. Há cinco anos, a produção declina sem parar. Quase todos os ativos do Estado foram vendidos; o desmonte dos serviços públicos degenera até em saque de tesouros arqueológicos; houve redução do salário mínimo, eliminação de direitos, explosão do desemprego. Analistas não-alinhados a estas políticas anteciparam que elas seriam incapazes de reimpulsionar a economia — exatamente porque deprimem a capacidade de consumo da população. Ainda assim, o presidente do BC “advertiu”: o país precisa de “estrita adesão aos ajustes”; eles não pode ser ameaçados pelas eleições do próximo 6/5…

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Como oligarquia financeira mantém Europa submissa

Ângela Merkel (Alemanha) e Nicolas Sarkozy (França), a dupla "Merkozy": imagem de um regime decadente

Estudo revela complexo mecanismo usado para impor, “democraticamente”, medidas condenadas por ampla maioria das sociedades

Na Europa, não faltam recursos financeiros contra a crise: Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE) estão agindo desde a virada do ano para transferir, ao sistema bancário privado, cerca de 3 trilhões de euros, a juros negativos. A atitude é outra em relação aos Estados ameaçados por fuga maciça de divisas. Negam-se recursos. Exige-se, para liberá-los, corte de direitos sociais, privatizações, redução drástica das proteções previdenciárias. Tais medidas são rechaçadas, revelam as sondagens, pela vasta maioria da opinião pública, em todos os países. No entanto, os Parlamentos as adotam sem resistir. Como é possível esta democracia contra as sociedades?

Acaba de sair um texto revelador a respeito. O original, em francês, foi publicado no site Memoire des Lutes, dirigido por Ignacio Ramonet e Bernard Cassen O autor é Christophe Ventura, um jovem colaborador destes antigos editores do Le Monde Diplomatique. Ele descreve os meandros institucionais do processo de chantagem política que garantiu até agora a submissão do continente aos projetos da oligarquia financeira.

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Para entender o encontro dos BRICS

Países emergentes têm mais poder que nunca, mas enfrentam uma contra-ofensiva dos mais ricos. Saberão reagir?

Os chefes de governo do Brasil, Rússia Índia, China e África do Sul encontram-se a partir de hoje em Nova Déli, para a 4ª Cúpula dos BRICS — uma série de reuniões importante para testar a capacidade de articulação do grupo. A pauta é ambiciosa: inclui a possível criação de um banco comum de desenvolvimento, a substituição gradual do dólar, no comércio entre os cinco países, segurança energética, articulação das bolsas de valores e mesmo temas geopolíticos, como a situação do Oriente Médio. O encontro (na foto, a cúpula passada, na China) estende-se pelos próximos três dias e ocorre num momento delicado.

Os BRICS mantiveram-se relativamente imunes, desde 2008, à grande crise financeira e econômica que atingiu o centro do sistema. Juntos, já reúnem 45% da população mundial e 25% do PIB do planeta. Mas precisam encontrar soluções para dois problemas graves. A redução do consumo e os sinais de protecionismo, na Europa e América do Norte, podem afetar mais intensamente suas economias: há semanas, o primeiro-ministro chinês anunciou que o crescimento econômico do país cairá dos atuais 10% ao ano para cerca de 7,5%. Além disso, norte-americanos e europeus — especialmente estes — adotaram nos últimos meses uma política de emissão monetária que a presidente Dilma chamou de “tsunami” e que poderá ter efeitos globais.

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Protestos: Europa volta às ruas contra oligarquia financeira

Manifestações na Grécia, Espanha, Bélgica e Portugal. União Europeia exige novos sacrifícios. Em Atenas, partidos no poder não querem eleições

A onda de grandes protestos sociais que percorreu boa parte da Europa em 2011 deu sinais de ressurgir nesta sexta-feira (10/2). Uma greve geral, que prossegue hoje, parou a Grécia e provocou os primeiros sinais de divisão no governo do primeiro-ministro não-eleito, Lucas Papademos. Centenas de participantes do movimento 15-M manifestaram-se na Puerta del Sol, em Madri, horas depois de o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy anunciar um decreto-lei que facilita demissões e permite rebaixas de salários. Em Lisboa, as centrais sindicais convocaram uma grande marcha para esta tarde. Um curioso enfrentamento entre bombeiros (nas ruas) e policiais marcou a tarde de ontem em Bruxelas. Há algo em comum, entre todas as mobilizações. Elas enfrentam novas tentativas de cortar direitos sociais para preservar os interesses da oligarquia financeira –uma prática que na União Europeia (UE) parece não ter fim, a assume dimensões cada vez mais dramáticas.

O caso mais extremo é, mais uma vez, o da Grécia. Na manhã de sexta-feira, uma reunião extraordinária de governo, que durou cinco horas, terminou com o anúncio de um corte de 22% no salário mínimo, demissão de mais 15 mil servidores públicos e redução suplementar das aposentadorias.

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Europa em crise (VI): gráficos de uma hipocrisia

Dados oficiais demonstram: Estados estão endividados porque emprestaram aos bancos; “austeridade” e ataque a direitos jamais atingirão raiz do problema

O argumento central dos governos e da mídia conservadora para defender o corte dos serviços públicos e dos direitos sociais é a promoção da “austeridade”. A palavra foi incorporada ao discurso oficial. Apoia-se num preconceito cultivado durante décadas: o de que despesas públicas são sinônimo de ineficiência e corrupção. Esconde dois fatos essenciais:

a) na União Europeia (UE), uma parcela cada vez maior dos gastos dos Estados é empregada para pagar juros;

b) enquanto cobram “austeridade” dos aposentados e usuários de serviços públicos há anos em declínio, estes Estados estão sustentando salários milionários, jatinhos, iates e porsches da oligarquia financeira.

Os gráficos deste post ajudam a compreender o fenômeno. Foram produzidos pela revista Economist, que, embora defenda os mercados financeiros, produz excelente jornalismo — e parece perceber, aos poucos, o caráter anti-civilizatório das políticas praticadas na Europa. O primeiro mostra a evolução do déficit público europeu em onze países-chaves, e na média da UE, antes e depois da crise de 2008.

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99 Rostos do Ocuppy Wall Street

Quem são os ocupantes de Wall Street? O fotógrafo August Bradley tentou responder à pergunta indo ao Zuccotti Park, em Nova York, e fazendo retratos de 99 participantes do movimento. As imagens representam os rostos, os objetivos políticos e os desejos pessoais dos homens e mulheres que construíram o mais importante movimento de resistência à desigualdade social surgido em 2011. São 99 faces dos 99% da população que virou refém do mercado financeiro. Veja a galeria:

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Pobreza americana

Numa animação do “The Guardian”, e num número cada vez maior de ensaios e reportagens, a desigualdade que corrói a antiga “terra da oportunidade” 

Repare na animação acima. A narração é em inglês, mas os dados essenciais estão visíveis nos números e gráficos. Está exposta, com destaque, nas páginas eletrônicas do The Guardian, um dos grandes jornais diários da Inglaterra — e um dos de maior circulação mundial, em língua inglesa. Ela expõe, ao mesmo tempo, dois fenômenos.

O mais explícito é o aumento brutal da desigualdade nos Estados Unidos. Ao assistir à animação, fica-se sabendo, por exemplo, que, entre 1970 e 2010, o rendimento dos altos executivos cresceu, em termos reais, 400% — enquanto os salários dos trabalhadores que não estão em postos de gerência caíram quase 10% (de 31 mil para 28,3 dólares anuais). Também se descobre que 14,5% das famílias norte-americanas são hoje consideradas “completamente inseguras” — ou seja, sujeitas a viver situação de fome.

Enquanto isso, o consumo de carros de luxo cresceu 8,7%; o de produtos das grifes Louis Vitton e Givenchy, 13%; e o dos carros da marca Porsche, 59%. Ao final, o Guardian elogia o slogan de Occupy Wall Street (“We are 99%”)mas frisa: quem está realmente enriquecendo é o 0,01% mais rico. As políticas atuais estão prejudicando 99,99% da sociedade norte-americana.

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