Comuns: a Holanda constrói com cuidado

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No centro do país, uma cooperativa assume ações de assistência antes executadas pelo Estado e enfrenta o desafio de manter o caráter público dos serviços, introduzindo a participação direta dos usuários

Por Georgia Nicolau


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Texto em três partes: leia a primeira abaixo

A dura — e indispensável — construção dos Comuns
Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Em junho último participei, representando o Instituto Procomum e o Lab Santista, da conferência bienal da Associação Internacional para os Estudos dos Comuns, que aconteceu na cidade de Utrecht, região central da Holanda.

Entre a programação da conferência, um dos dias foi reservado para uma visita a campo a várias organizações que praticam o Comum pelo país inteiro – em cerca de três horas é possível ir de uma ponta à outra da Holanda. Eram muitas as opções, nove excursões foram oferecidas, com uma diversidade de locais e temas: visitas a sistemas de gestão cooperativa e coletiva de água, de terras, de comida, de moradia, de energia, de patrimônio cultural entre outros. Optei pelo tour que tinha o nome de “Cuidar em comum: iniciativas de cidadãos para cuidados, habitação e alimentos nos Países Baixos centrais”.

A palavra cuidado me atraiu de cara, já que tem sido uma agenda bastante importante para a construção do Instituto Procomum, em várias camadas: como agenda de trabalho, pensando o âmbito do cuidado na concepção de outros mundos possíveis; como agenda interna, pensando a organização a partir do cuidado consigo e com xs outrxs; e individual de cada um de nós. Nunca tinha ouvido falar em uma cooperativa de cuidado e estava bastante curiosa para entender seu funcionamento.

Além da cooperativa de vizinhança, que tem o nome de Apeldoorn-Zuid (Apeldoorn Sul, que é a região onde eles atuam), fomos ainda visitar o projeto Aardehuizen (Earth House) na cidade de Olst, que é o projeto habitacional mais sustentável na Holanda. Composto por 23 casas e um centro comunitário, tudo foi construído pela própria comunidade, usando majoritariamente materiais de sucata, como vigas de madeira recuperadas, fardos de palha e pneus de carro.

O nome do projeto advém do fato de as casas possuírem uma cúpula em formato da terra. Por fim, visitamos a propriedade ecológica chamada Roggebotstaete, criada a partir de um terreno privado que foi doado a uma fundação, estabelecida em 2012, na cidade de Dronten, na região de Flevolândia, que apenas 60 anos atrás era o leito do mar. Roggebotstaete tornou-se uma área de produção natural e sustentável de alimentos, onde o respeito pela natureza e a comunidade são valores básicos. Abrange 52 hectares de florestas, pastagens e reservatórios de água além de animais como vacas, ovelhas e porcos. Continuar lendo

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A dura — e indispensável — construção dos Comuns

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Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Por Georgia Nicolau

Entre os dias 10 e 14 de julho deste ano participei da 16ª Conferência Bienal da Associação Internacional para os Estudos do Comum (International Association for the Study of the Commons- IASC) cujo tema, este ano, era “Praticando os Comuns – auto-governança, cooperação e mudança institucional”. Com sedes rotativas, o evento deste ano aconteceu na cidade universitária de Utrecht, na Holanda, e teve como organizadores, além da própria IASC, a Universidade de Utrecht e seus programas de pesquisa Instituições para Ação Coletiva e Instituições para Sociedades Abertas.

Sendo parte da construção do Instituto Procomum, desde ano passado, ando debruçada em textos e reflexões sobre os comuns (os commons, em inglês, e procomún ou común em espanhol). Nesse sentido, a ida à Conferência da IASC foi uma experiência bastante rica para reafirmar algumas ideias surgidas a partir das nossas imersões e conversas, como por exemplo de que o comum ainda é uma agenda, um conceito, bastante ligado à pesquisa acadêmica. Mas temos, cada vez mais, praticantes e comunitários envolvidos nesse debate (os comuneiros). O comum ainda é muito identificado à gestão e governança de recursos naturais (rios, florestas, agricultura). Além disso, percebi que não se trata de um conceito que finda em si mesmo, mas uma lente, um enquadramento possível para compreender o mundo. Abrange, portanto, uma série de pessoas, grupos e pesquisadores atuando nos mais variados campos, os quais, de alguma forma, propõem formas de governança coletiva de um bem seja para preservá-lo, geri-lo ou construí-lo.

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