A disputa que não aparece em sua tela

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Vigilância, controle da informação, novos monopólios Minissérie de vídeos expõe os riscos a que está submetida a Internet. Assista, neste sábado, a dois episódios e um debate


“EXPLOIT”, EPISÓDIOS 2 E 3, SEGUIDOS DE DEBATE
Com Rafael Zanata e Marina Pita
Sábado, 1º/7, às 18h
Rua Conselheiro Ramalho, 945 — Bixiga — S.Paulo — Metrô S.Joaquim ou Brigadeiro (mapa)
Grátis

Uma guerra silenciosa acontece longe dos PCs, laptops e dispositivos móveis que usamos diuturnamente, e seu resultado interfere diretamente em nossas vidas, online e offline. Este é o tema da minissérie XPLOIT: Internet Sob Ataque, realizada pelos coletivos Actantes/TVDrone em associação com a Fundação Heinrich Böll e apoio da Rede TVT. A série prevê temporada com seis episódios, três deles já disponíveis no youtube.

Com entrevistados como Richard Stallman, cocriador do sistema GNU, James Bamford, jornalista do The New York Times, a advogada Flávia Lefèvre, a jornalista Bia Barbosa, a cientista social Esther Solano e o sociólogo e ciberativista Sérgio Amadeu da Silveira, a série introduz o espectador nas disputas políticas e econômicas com resultados que terão impacto direto em nossos direitos essenciais, dentro e fora do mundo digital. O evento apresentará os dois episódios mais recentes, seguidos de debate com a jornalista Marina Pita e o advogado Rafael Zanata, ambos personagens da web-série.

O episódio 3, “Colonialismo 2.0”, observa que a internet é tratada como um espaço de conhecimento e inovação democrático e distribuído desde o seu surgimento, mas que sua existência conta com uma estrutura física concentrada no chamado Norte global – principalmente nos EUA. Está, portando, sujeita às suas leis políticas e econômicas, em detrimento de uma suposta soberania ou independência que estados, empresas e usuários, fora desse Norte, imaginam desfrutar.

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Assombrada num museu em Nova York

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Em seu novo livro, Berenice Bento narra a estranha sensação de visitar o Museu de História Natural e sentir-se fulminada pelos olhos dos bichos. Eram “flechas certeiras”, questionando sobre dominação da natureza pelo homem branco

Por Berenice Bento
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“Estrangeira: uma paraíba em Nova Iorque
De Berenice Bento, pela Editora Annablume
Lançamentos: em João Pessoa, na 30ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia, Universidade Federal da Paraíba,
Quinta-feira, 4/8, das 18h30 às 22h
Em São Paulo: domingo, 7/8, às 17h na Blooks Livraria
Shopping Frei Caneca — Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso
Consolação – Telefone: (11) 3259-2291
(A crônica publicada abaixo, “Mausoléu-Museu”, é parte da obra e foi cedida pela autora)

Berenice Bento, doutora em sociologia e professora da Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN, é autora de vários livros, como O que é Transexualidade e A Reivenção do Corpo. Mas Estrangeira é seu primeiro livro de crônicas. “Uma tentativa de ‘desdomesticar’ a minha escrita, tão marcada pelo viés acadêmico”, diz.

As crônicas de Estrangeira foram escritas durante sua estada em Nova Iorque (out.2013-nov.2014) para fazer um pós-doc sobre a reformulação do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM 5) da Associação de Psiquiatria Norte-Americana (APA) a respeito da transexulidade – que deixou então de ser considerada “transtorno de identidade de gênero”. Continuar lendo

Como o Facebook tenta colonizar a internet

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Movimentos indianos reagem, com indignação, a ideia supostamente tentadora: assegurar acesso dos mais pobres à rede — mas só nos canais selecionados pela firma de Zuckerberg…

Por Gabriela Leite | Imagem: Pawel Kuczynski

O Facebook está prestes a sofrer um revés, graças aos ativistas pela liberdade da internet. A Índia definirá, nos próximos dias, se vai banir do país o Free Basics, atrevida iniciativa de Mark Zuckerberg, dono da rede social gigante. O projeto consiste em uma parceria com operadoras de telefonia móvel de países em desenvolvimento para fornecer internet gratuita a pessoas pobres, porém apenas a um número limitado de sites e conteúdos filtrados pela empresa de Zuckerberg — Facebook obviamente incluso. Desde dezembro, o serviço está bloqueado no país asiático, e acontecem fervorosas discussões sobre seu futuro e o que será da liberdade da internet para os indianos. O órgão local que regula as telecons, TRAI (Telecon Regulatory Authority of India), decidirá nos próximos dias se Free Basics será ou não permitido.

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“O Free Basics, do Facebook, é um primeiro passo para conectar um bilhão de indianos a empregos, educação e oportunidades online, e no final das contas a um futuro melhor. Mas o Free Basics está em risco de ser banido, desacelerando o progresso para a igualdade digital na Índia.” — outdoor pede para pessoas fazerem ligações para apoiar a iniciativa do Facebook

O que está em jogo, na Índia e em outros países onde o Free Basics já opera, é a neutralidade da rede. Garantida pelo Marco Civil da Internet, no Brasil, ela diz respeito ao conteúdo disponível: nenhum site deve ter privilégio de navegação, nenhuma operadora pode oferecer pacotes com apenas alguns sites disponíveis. Continuar lendo

Como descolonizar o Brasil, no século XXI

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Decisão judicial que desprezou religiões africanas não é fato isolado. Para situá-la, é preciso examinar “colonialismo”, um processo cultural muito mais profundo que julgamos

Por Luã Braga de Oliveira

Recentemente, no dia 28 de Abril de 2014, fomos surpreendidos com uma decisão judicial absolutamente controversa. O juiz Eugênio Rosa de Araújo, titular da 17ª Vara Federal, recusou-se a dar ganho de causa a uma ação movida pelo Ministério Público Federal. A ação pedia a retirada de uma série de vídeos do Youtube que ofendiam o Candomblé, a Umbanda e seus praticantes. Assistindo ao vídeos, torna-se difícil aceitar a defesa de que aquele conteúdo não ofendia as religiões supracitadas e seus praticantes.

Porém, a tese defendida pelo juiz rompeu de maneira muito mais brusca os limites da sensatez. Segundo Eugênio Rosa de Araújo, as religiões afrobrasileiras em questão sequer cumpriam os requisitos que, segundo ele, configuravam uma manifestação religiosa como uma religião. Para ele, para algo ser considerado uma religião seria necessário : Ter um Deus a ser venerado (assim, com “D” maiúsculo), ter um livro sagrado e possuir um sistema hierárquico.

Como candomblecista, proveniente de uma família com diversos praticantes de religiões afrobrasileiras, me senti pessoalmente ofendido. Entretanto, me senti mais ofendido enquanto cidadão e ser pensante. Primeiramente, devido ao galopante desconhecimento do Candomblé e da Umbanda desfilado pelo juiz. Além destas terem um rígido sistema hierárquico, possuem um respeitável portfólio de deuses a serem venerados. Em segundo lugar, pela constatação do estágio pouco avançado em que nos encontramos para a superação dos elos que nos prendem a nosso passado colonial e escravista. Estes elos manifestam-se recorrentemente nas atitudes e nos discursos dos indivíduos na sociedade. Entretanto, ultimamente eles tem se manifestado de maneira assustadora e preocupante nas altas esferas políticas – e agora jurídicas –, colocando a perder os singelos passos que demos em direção a pluralização de direitos básicos outrora restringidos a determinados setores da sociedade. Continuar lendo