Humor: antídodo à violência e ao conformismo?


Maior forma política da História, a cidade é, também, o lugar em que surge a caricatura. Um seminário em Belo Horizonte debate os sentidos e possíveis papeis rebeldes do humor


MAIS
Veja também o Programa, conheça os Conferencistas e faça sua Inscrição no colóquio

A cidade e o humor

Para Paul Virilio a cidade é a maior forma política da história. É no mercado, local por excelência de encontro e da interseção de caminhos variados, que a caricatura surge na Itália. A cidade é por definição o lugar dos trajetos, lugar da organização do contato. Nessa direção a cidadania é para esse autor a organização dos trajetos entre os grupos, os homens. Se o ar da cidade torna os homens livres, a proximidade provoca a reserva externalizada pelo habitante da metrópole. E de acordo com Simmel, ‘“não é apenas a indiferença” a face interna dessa reserva exterior, mas, mais frequentemente do que nós temos consciência, uma secreta aversão, uma distância e uma rejeição recíprocas que, em caso de contato por razões quaisquer, degenerariam rapidamente em ódio e em conflito. Todo esse agenciamento interior de uma vida de trocas fortemente variadas, repousa sobre uma gama de indiferenças e aversões, sejam momentâneas, sejam duráveis.” (Simmel, p 23-24). Se o homem experimenta esses movimentos de atração e de repulsa, de sentimentos díspares, qual papel o humor desempenharia no agenciamento interior, na ecologia subjetiva (Guattari) do habitante da metrópole?

Seria o humor, dissimulado ou manifesto, uma das dimensões da liberdade de pensamento? Seria um dos meios de contornar ou de desviar-se da alienação? O humor (a ironia, o sarcasmo, a paródia), sua expressão visual (desenho de humor, caricatura), ou sonora (canção satírica), poderia jogar com a riqueza da língua para impedir ou modificar a aparição de relações de violência?

“Se o humor ataca o consenso, o conformismo, a rigidez e o sectarismo, ele instaura a distância face a si, uma distância que o consenso abole” (Sibony, p 184).

Continuar lendo

TEXTO-FIM

Assim o Pentágono vê o mundo em 2030

Filme secreto, usado em treinamento militar, é revelado. EUA preveem que, em 15 anos, metrópoles estarão devastadas e caóticas. E querem preparar-se para guerrar nestas condições extremas

Que as guerras promovidas pelos EUA neste século devastam cidades, inviabilizam países e instalam situações de caos permanente, já se sabia. Porém o site The Intercept, de Glenn Greenwald, acaba de obter uma informação chocante. Este cenário de desumanização brutal é o que o Departamento de Defesa (“Pentágono”) — órgão que coordena as forças armadas norte-americanas — prevê, de forma “inevitável”, para as metrópoles do mundo todo, já em 2030.

A distopia está expressa num vídeo de cinco minutos publicado acima, e revelado ontem graças a um requerimento baseado na Lei de Liberdade de Informação dos EUA. Não se trata de fantasia especulativa, mas de material didático. A peça foi parte de um curso oferecido, no começo deste ano, pela a Universidade de Operações Especiais Conjuntas (JSOU, na sigla em inglês) do Pentágono. Intitula-se Megacities: Urban Future, the Emerging Complexity, ou “Megacidades: o Futuro Urbano, a Emergente Complexidade”. Continuar lendo

“Plano industrial” de Temer é… inviabilizar as cidades

download (5)

Velho incentivo à produção de automóveis, que entusiasma vice, pode vir com dose extra de crueldade: aumentar IPVA dos carros usados, para forçar obsolescência programada

Por Antonio Martins

Ao encontrar-se há uma semana, com dirigentes da Força Sindical e de outras centrais envolvidas no golpe contra Dilma, o vice Michel Temer não escondeu sua preferência. Entre as propostas que ouviu de seus interlocutores, a que mais o entusiasmou foi, segundo relato da Agência Brasil, a “renovação da frota automobilística do Brasil”. O interesse na ideia vinha de antes e cresceu nos últimos dias. O programa econômico de Temer, que vai se tornando cada vez mais claro, inclui privatizações, concessões de serviços públicos, (contra-)reformas da Previdência e das relações trabalhistas. Será preciso temperá-lo com algo que possa ser apresentado à sociedade como capaz de “gerar empregos”. A “renovação da frota” cai como uma luva, dada a importância econômica e simbólica da indústria automobilística. Vale examinar proposta em profundidade – atentando, em especial, para um detalhe “inovador”.

Denominada Programa de Renovação de Frota e Reciclagem Veicular, ela foi apresentada oficialmente, no final de 2015, ao ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio de Dilma, Armando Monteiro Neto, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria. Não é de autoria de sindicalistas, mas de entidades empresariais como Anfavea (da indústria automobilística), Fenabrave (das revendedoras de carros) e Confederação Nacional de Transportes. Surge num contexto de crise. A produção automobilística brasileira caiu 22,8% em 2015, e deve recuar mais este ano. Pretende enfrentar as dificuldades intensificando a obsolescência programada – com o auxílio da mão do Estado. Continuar lendo

Cidades: que sentido terá a “revolução dos aplicativos”?

130916-katsy

Cena do filme “Koyaanisqatsi”, de Godfrey Reggio

Tecnologias permitirão obter cada vez mais dados sobre vida nos espaços urbanos. Para quê: multiplicar autonomia dos cidadãos ou controlá-los? 

Por Gabriela Leite

Uma nova revolução urbana pode ter começado. Segundo reportagem especial da revista inglesa The Economist, a quantidade de dados que uma cidade produz, combinada com as tecnologias móveis e em rede que permitem compartilhá-los, será tão transformadora quanto foi a eletricidade. Inúmeras inovações já começaram a antecipar este futuro. Podem ser para bem ou para mal.

A ONU calcula que, até 2050, a população mundial urbana será de cerca de 6,3 bilhões de pessoas. Uma parcela sempre crescente dos habitantes urbanos está disposta a compartilhar informações publicamente, como é possível perceber com a popularidade de aplicativos como o Foursquare (que indica o local onde o usuário está e mostra se seus amigos estão por perto). Além disso, prefeituras também concentram dados sobre o que acontece em suas ruas: informações de trânsito, dados sobre fluxos, áreas com mais problemas de segurança etc. Como usar esses dados de maneira que eles façam a experiência de viver em uma cidade ser algo menos caótico, mais sustentável e humano? Continuar lendo

Simplicidades, exposição do pensamento urbano coletivo

tijolo-por-tijolo

Último dia para apoiar, pelo Catarse, projeto que reúne diversas ideias para o Rio de Janeiro. Elas serão apresentadas e discutidas em evento no final de abril

Por Bruna Bernacchio

Você já teve uma ideia pro bairro ou cidade onde você mora? Já compartilhou ela com alguém? Já a imaginou sendo colocada em prática? O Projeto Simplicidades, de um grupo de jovens cariocas, quer fomentar a criatividade para desenvolvimento urbano e a participação maior e propositiva das pessoas no planejamento e construção da sua própria cidade. Para isso, acreditam, só algo simples é necessário: o espírito coletivo.

Como primeira fase do projeto, abriram no ano passado uma “Chamada Criativa” para que projetos ou ideias de soluções e alternativas reais para o Rio de Janeiro fossem enviadas. No site deles é possível conhecer um pouco do que foi enviado. Continuar lendo

Para concretizar o direito à mobilidade noturna

130228-patio metro

Como assegurar transporte público também na madrugada, quando as metrópoles estão vivas? Outras Palavras convida a participar de um debate de relevância nacional

Por Gabriela Leite

Uma petição virtual que pede ampliação do horário do metrô de São Paulo atingiu grande alcance nas redes sociais. Lançada há 20 dias, reuniu quase 83 mil assinaturas. Exige que o transporte subterrâneo funcione 24 horas, todos os dias, para atender aos trabalhadores noturnos, estudantes e a quem queira divertir-se à noite pela cidade. Coloca em foco, de maneira mais ampla, uma contradição de nossas metrópoles. Nelas, milhões de pessoas estão despertas de madrugada — mas têm mobilidade extremamente restrita. É possível superar tal limite, considerando dificuldades técnicas e financeiras? Outras Palavras passará a tratar deste tema e convida os leitores aportar informações e opiniões sobre ele. Continuar lendo

Baixo Centro: lançamento irreverente em São Paulo

130121-sambanoarouche

Centenas participam da festa que apresentou e começou a arrecadar fundos para festival. Um estratagema esperto dribla leis repressivas e garante venda de comida e bebida na rua

Por Gabriela Leite

A tarde do último domingo antes do aniversário de São Paulo foi de festa. Centenas de pessoas reuniram-se no centro da cidade para curtir música, comida caseira e cerveja barata e aproveitar em conjunto as ruas do Largo do Arouche. Era o samba do BaixoCentro para anunciar a abertura da chamada pública que organizará os eventos do festival, a acontecer em abril.

O samba — que não pediu permissão à prefeitura para acontecer — reuniu as pessoas atrás do Mercado das Flores. Para contornar as leis proibicionistas que não permitem venda de comida e bebida na cidade, eram vendidas pulseirinhas a preços populares, e estas podiam ser trocadas pela comida e bebida. Continuar lendo

Vídeo-guerrilha em três cidades brasileiras

No escurecer desta quinta-feira, ocupação artística grandiosa porém efêmera questiona uso do espaço urbano e integração entre arte e metrópole

Por Gabriela Leite

É sobre as paredes dos prédios, com o escurecer do dia, em uma das ruas mais movimentadas e boêmias de São Paulo que começará, amanhã, a exposição Vídeo Guerrilha. Vídeos e imagens de artistas brasileiros e internacionais serão projetados, tomando as construções antigas e em degradação da rua. Já é o terceiro ano em que a intervenção urbana é realizada no centro de São Paulo, e dessa vez as cidades do Rio de Janeiro e Brasília também estão incluídas. E os locais não são escolhidos à toa: no site do evento, descreve-se o seguinte objetivo: “Fixar a Rua Augusta e a Lapa como pólos de arte e cultura urbana do Brasil, ajudando a melhorar a sua imagem”.

A exposição abriu as inscrições para artistas no começo do semestre. Aceitava produções artísticas como animações, motion design, vídeo-arte, gravuras, desenhos, fotos etc. Serão 30 artistas nacionais e internacionais, e a lista está disponível neste link. Grandiosa e efêmera, a intervenção trás questionamentos importantes, como o do uso do espaço urbano e sua ocupação, assim como a integração entre arte e cidade. Continuar lendo

Entre papos e tragos, surge outra cidade

Clique na foto para ver galeria

 

Crônica da noite em que Graziela Kunsch dialogou em São Paulo sobre a colonização das metrópoles e os experimentos que podem revertê-la

Por Bruna Bernacchio

“Um encontro excepcional com a artista Graziela Kunsch para uma conversa sobre utopias experimentais. Como se dá, no cotidiano e na atualidade, a transformação das cidades onde vivemos? Onde podemos encontrar pistas de uma outra cidade se formando, de um espaço diferente sendo produzido? Que diferentes projetos de cidade estão em conflito? Como artistas e arquitetos podem colaborar com movimentos sociais na construção de um outro imaginário urbano?” dizia o convite na rede.

E assim apresentava a convidada: “Além de seus projetos em performance e vídeo, Graziela Kunsch assume os papéis de ativista, curadora, editora, crítica e professora como formas de sua prática artística”. Continuar lendo

Morre Neil Smith, que cunhou o termo “gentrificação”

Geógrafo era referência para pesquisadores e grupos que lutam pelo direito à cidade. Tradução ao português do conceito criado por ele é primária

Por Gabriela Leite

Um dos estudiosos que ajudou a identificar a segregação social disparada nas metrópoles a partir dos anos 90 faleceu neste sábado. O geógrafo Neil Smith, nascido na Escócia, era professor de Antropologia e Geografia na City University of New York. Referência para pesquisadores e relacionado com grupos que lutam pelo direito à cidade, focou seus estudos em como as lógicas de mercado influenciam nos espaços urbanos. Sua morte, com 58 anos, é uma grande perda para os estudos da questão urbana e foi registrada pelo blog da professora Raquel Rolnik.

Continuar lendo