O nosso 11 de setembro

170911_chilegolpeestadoafp01

11 de setembro de 1973: o Palácio La Moneda, onde estava o presidente socialista Salvador Allende, é bombardeado pelo Exército chileno sob o comando do general Augusto Pinochet

Um brasileiro que vivia no Chile registrou o dia fatal do golpe que despedaçou a democracia de Allende, em 1973, Aconteceu muito antes do 11 de setembro dos EUA – que ajudaram a instalar a ditadura em Santiago

Por Cid Benjamin

Ontem, 11 de setembro, foi aniversário do sangrento golpe militar que assassinou Salvador Allende e implantou a sangrenta ditadura do general Pinochet.

Na ocasião eu estava no Chile, onde tinha ingressado com documentos falsos para voltar clandestinamente ao Brasil, depois de ter sido trocado, juntamente com outros 39 presos políticos, por um embaixador sequestrado pela guerrilha.

Reproduzo aqui o trecho do meu livro de memórias Gracias a la vida (Editora Jośe Olympio, 2013), em que falo desse dia.

___

“No dia 11 de setembro veio o golpe, que, em seu momento inicial, talvez tenha sido o mais violento dentre todos os acontecidos na América Latina.

“Na ocasião, já estávamos há poucas semanas, eu, Isolde e Ani, em outra casa, melhor do que o apartamento em que, até então, tínhamos morado. No dia do golpe, saí cedo para uma reunião política com brasileiros. Na rua, senti um clima estranho. E havia grande movimento de helicópteros e aviões. Perguntei a um transeunte se tinha acontecido algo.

“Los milicos se alzaran”, foi a resposta.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

Duas meninas em Santiago

Michelle Bachelet, a primeira mulher eleita presidente no Chile em 2006, formada em medicina na Alemanha, começou a militar no Partido Socialista, clandestinamente.

Michelle Bachelet, a primeira mulher eleita presidente no Chile em 2006, começou a militar no Partido Socialista clandestinamente.

Quarenta anos depois da ascensão de Pinochet, ex-amigas de infância disputam, em polos opostos, presidência do Chile. Que isso significa?

Por Inês Castilho

Diante daquelas tremendas coincidências que fazem pensar na vida como imitação da arte, o ator, crítico e roteirista Jean-Claude Bernardet costuma observar que a vida é má roteirista. Isso é o que provavelmente diria sobre a história de duas mulheres que se enfrentam nas eleições de 17 de novembro à presidência do Chile – relatada por Eric Nepomuceno em Carta Maior.

Michelle Bachelet e Evelyn Matthei se conheceram em 1958, com 6 e 4 anos de idade. As famílias tornaram-se grandes amigas quando os pais, capitães da Força Aérea, moraram na base de Quintero, em Antofagasta, com outros 60 oficiais, quase inteiramente isolados da população civil. Foi uma longa amizade, enraizada pelo plantio de três árvores na casa onde mora, ainda hoje, uma delas. Continuar lendo

Chile: rumo a uma Constituinte?

Embalada por imensa mobilização estudantil e por onda de reivindicações locais, sociedade quer construir, de forma direta, projeto de refundação da política

Por Hugo Albuquerque

Adormecido durante anos, pelo entulho autoritário da ditadura Pinochet e por um conservadorismo moral incomum (o divórcio foi aceito apenas em 2004), o Chile parece despertar para uma primavera de democracia direta. No último fim de semana, Santigo acolheu uma inovadora Cúpula Social. Organizada por dezenas de organizações sociais, ela tentará desencadear um processo político provavelmente inédito: a construção autônoma das bases para uma nova Constituição – sem o comando dos partidos políticos.

Nos próximos meses, uma extensa série de reuniões e assembleias em todo o país formulará um projeto de desenvolvimento alternativo. Para tanto, o encontro deste fim de semana definiu dezessete eixos temáticos – entre os quais, educação públicos, saúde, proteção do ambiente, saúde e recursos naturais, democratização das comunicações e relações com os povos originários. Em 2013, depois do debate nacional, uma segunda Cúpula Social definirá as proopostas. Somente então elas serão encaminhadas aos partidos políticos. Além de reivindicar que se posicionem, a sociedade civil almeja algo maior: uma Assembleia Constituinte, para reescrever as leis fundamentais do país. Continuar lendo

Bolívia vs. Chile: o velho conflito sul-americano

Evo Morales ameaça levar ao Tribunal de Haia exigência boliviana por uma saída para o mar. Negociações com Santiago — que avançaram desde 2006 — foram congeladas em março

A diplomacia sul-americana escutou com apreensão o pronunciamento do presidente boliviano Evo Morales nesta quinta-feira (15), durante uma coletiva de imprensa realizada em La Paz. O líder aimará anunciou que, em fevereiro de 2012, fará uma visita ao Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas, sediado em Haia, na Holanda. Além de participar da cerimônia de posse dos novos magistrados, Evo pretende obter informações sobre as exigências legais que a Bolívia precisa cumprir para mover, no seio da Corte, um processo judicial contra o Chile. O motivo, que há mais de cem anos gera controvérsia entre os dois países, é a aspiração boliviana de reaver uma saída para o mar.

Durante a Guerra do Pacífico (1879-1883), Bolívia e Peru perderam terras para o Chile. Os bolivianos foram os maiores prejudicados pelo conflito, pois viram os chilenos se apoderarem totalmente de sua região costeira. Eram 400 km de praias, que passaram para as mãos do país vizinho junto com uma extensão territorial de 120 mil km2, rica em guano, salitre e cobre — recursos naturais que motivaram os enfrentamentos. Com o fim das batalhas, La Paz e Santiago firmariam um acordo em 1904 estabelecendo o novo traçado fronteiriço de cada país. Os bolivianos, porém, jamais aceitaram a anexação territorial. Assim, em 1978, cortaram relações diplomáticas com os chilenos. Até hoje, quando querem conversar, o diálogo se realiza entre os respectivos vice-ministros de Relações Exteriores.

Continuar lendo