Em defesa da Universidade do Mercosul

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Retrocesso político coloca em risco a Unila, voltada ao intercâmbio cultural, científico e educacional da América Latina. É possível resistir

Uma petição pública em defesa da Universidade de Integração Latino-americana (Unila), mais conhecida como Universidade do Mercosul, foi dirigida ao Congresso contra a emenda do deputado Sergio Souza (PMDB-PR), que a transforma na Universidade Federal do Oeste do Paraná. A medida acabaria com o projeto acadêmico e político da Unila, de integração com nossos vizinhos, já que prevê paridade de professores e alunos com Paraguai, Bolívia, Argentina e outros países da AL.

“Nosso movimento tem o objetivo de defender a manutenção da Lei de Criação da Unila, sua identidade original e sua missão, que é formar sujeitos aptos a contribuir com a integração latino-americana, com o desenvolvimento regional e com o intercâmbio cultural, científico e educacional da América Latina”, afirma a petição, lembrando que a Constituição brasileira estabelece que o país “buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

“A missão da Unila é a de contribuir para o avanço da integração da região, com uma oferta ampla de cursos de graduação e pós-graduação em todos os campos do conhecimento abertos a professores, pesquisadores e estudantes de todos os países da América Latina”, afirma a instituição em seu site. “Como instituição federal pública brasileira pretende, dentro de sua voca­ção transnacional, contribuir para o aprofundamento do processo de integração regional, por meio do conhecimento compartilhado, promovendo pesquisas avançadas em rede e a formação de recursos humanos de alto nível, a partir de seu Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA), com cátedras regionais nas diversas áreas do saber artístico, humanístico, científico e tecnológico.”

A América Latina engloba 21 países: Argentina, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

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Para tentar entender o imbróglio paraguaio

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Em 30 de março, manifestação contra a reeleição

Incêndio no Congresso não foi nem insurreição popular, nem ataque de gângsters neoliberais. Mas Fernando Lugo pode estar entrando em arapuca

O cenário em Assunção permanece turvo e contraditório. O Senado debate, dividido, um projeto que permite a reeleição presidencial, Na sexta-feira, foi tomado e parcialmente incendiado por manifestantes em protesto. O fato foi visto por muitos, nas redes sociais, como início de insurreição.

Horas depois, militantes como Breno Altman sugeriram uma versão contrária. A lei de reeleição seria um caminho para permitir a candidatura do ex-presidente Fernando Lugo, deposto por golpe parlamentar em 2012 e hoje líder nas pesquisas. Para viabilizar a lei, a Frente Guasú, de Lugo, teria se aliado ao Partido Colorado, do presidente Horacio Cartes, eleito em 2013. O Senado teria sido incendiado por marginais a serviço de uma oposição neoliberal descontente, porém sem voto. Continuar lendo

A Venezuela em beco sem saída?

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Fila de um supermercado de Caracas. Foto: JORGE SILVA Reuters

Para Edgardo Lander, critico à esquerda, crise do chavismo é próxima e mobilização social parece adormecida – mas tem raízes profundas e em algum momento pode reemergir

Num momento em que cresce a tensão em Caracas — e multiplicam-se no Brasil as interpretações sobre a crise Venezuelana, vale a pena ler entrevista que o sociólogo Edgardo Lander concedeu ao jornal uruguaio “La Diária”, sobre o estado do bolivarianismo. Destacam-se três pontos: a) Para Lander, o projeto não foi capaz de superar a dependência secular da Venezuela em relação ao rentismo petroleiro. Viveu da genialidade de Chávez e do petróleo a U$ 100. Ambos já não estão entre nós; b) Na trajetória do chavismo, houve uma inflexão negativa, a partir de 2005: o processo, que era bastante aberto e criativo, burocratizou-se e estatificou-se; teria havido forte influência cubana nesta deriva; c) É uma simplificação grosseira achar que “tudo piorou com Maduro”. Mas o novo presidente, de fato, não tem a capacidade de liderança e de unificação de Chávez. Como também não vem das Forças Armadas, sentiu-se obrigado a abrir enorme espaço para elas no governo. Aí estão as causas de mais ineficiência e corrupção

Embora pessimista, Lander reconhece a “experiência extraordinariamente rica de organização social, organização de base, movimentos relacionados à saúde, às telecomunicações, ao controle da terra urbana, à alfabetização — que envolveram milhões de pessoas e geraram uma cultura de confiança, de solidariedade e capacidade de incidir sobre o próprio futuro”. Ele acha que esta movimento está hoje adormecido, mas “de todo modo, acho que ficou uma reserva, que em algum momento poderá emergir”.

A entrevista completa será publicada hoje em Outras Palavras.

​Ideias para recuperar a autonomia

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 “Além do PT​”, que será lançado na quarta, 2 de novembro, argumenta que, ao ocupar poder, esquerda afastou-se dos dramas e lutas da população. Também sugere: forças populares precisam fortalecer lutas contrárias à ordem
​Por Tadeu Breda​
A manobra parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 31 de agosto não se tratou de um impeachment, como dizem seus articuladores dentro e fora do Congresso. Foi um golpe — que, no entanto, não representou uma mudança significativa no sentido do governo e da história brasileira. A ascensão de Michel Temer apenas acelerou e radicalizou políticas conservadoras que já vinham sendo adotadas pelo petismo.

Eis uma das principais ideias defendidas por Fabio Luis Barbosa dos Santos em seu ensaio Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, que será lançado pela Editora Elefante no início de novembro. “Michel Temer é muito mais destrutivo do ponto de vista social, mas não podemos dizer que ele impôs uma mudança qualitativa aos rumos do Planalto”, argumenta o autor, que é professor de relações internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Osasco.

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As palavras que a direita teme ouvir

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Sinal dos tempos: “Clarin” argentino pede artigo a jornalista brasileira e depois engaveta-o, Motivo: em tempos de Macri e Serra, ela ousou mencionar a “submissão aos EUA”…

Por Eleonora de Lucena

Fui censurada pelo “Clarín”. O jornal argentino me encomendou um artigo sobre o impeachment. Escrevi e enviei. Pediram para eu “amenizar” trechos. Especificamente não queriam que eu falasse em “submissão aos EUA”. Recusei fazer qualquer modificação no texto. Há duas semanas ele está numa gaveta virtual em Buenos Aires.

Para registro, aí vai o que o “Clarín” não quis publicar.

Um golpe à democracia e à soberania na América Latina

O julgamento de Dilma Rousseff atropela a democracia e expõe de maneira crua o embate de interesses antagônicos na América Latina. De um lado, um projeto de integração regional sem submissão aos Estados Unidos; de outro, a volta das conhecidas “relações carnais” com o império do Norte.

O governo de Michel Temer mostra que quer esvaziar o Mercosul. Repetindo ardis usados internamente no país, manobra para golpear essa construção da união sul-americana que vai muito além de acertos comerciais.

De supetão, dá início a uma onda de privatizações, vendendo um naco do pré-sal brasileiro, onde estão valiosas reservas de petróleo. Tenciona desidratar e esquartejar a Petrobras, ícone de uma proposta independente de desenvolvimento e objeto de desejo de companhias estrangeiras.

Temer anuncia cortes em gastos em saúde, educação e previdência. Planeja desmantelar conquistas trabalhistas obtidas desde meados do século 20. Almeja transferir renda dos mais pobres para os mais ricos: projetos sociais serão podados para garantir o pagamento dos juros estratosféricos pagos à elite.

É a reedição de um enredo já desenhado no Paraguai e em Honduras: um golpe sem tanques que corrói as instituições para minar a independência. Num ritual kafkaniano, políticos acusados de corrupção votam a cassação de uma presidente que todos reconhecem ser honesta.

Nos anos 1990, com governos neoliberais, a América Latina experimentou uma combinação de concentração de renda, desindustrialização, privatizações selvagens e perda de soberania. A Argentina viveu com radicalidade esse processo. Nas ruas, o derrotou.

Agora, as mesmas armações daquele tempo tentam ressuscitar no continente. Aproveitam a situação adversa na economia e disseminam um discurso de ódio, preconceito e intolerância. Conquistam, assim, fatias das classes médias, muitas vezes refratárias à ascensão que os mais pobres obtiveram nos últimos anos.
O movimento precisa ser entendido dentro da atual crise capitalista e das mudanças na geopolítica mundial. O capital financeiro busca garantir ganhos na América Latina. Necessita derrubar barreiras de proteção na região _o que é mais viável com governos dóceis, também dispostos a vender ativos a preços baixos.

Enquanto se atolavam na guerra do Iraque e adjacências, os EUA viram a influência da China crescer de forma exponencial no continente sul-americano. O petróleo, os minérios, a água, os mercados internos, as empresas inovadoras _tudo é alvo de interesse externo.

Nesse contexto de disputa é que devem ser analisadas as intenções norte-americanas de instalar bases militares na Argentina _na tríplice fronteira e na Patagônia. O império volta a se preocupar com o que considera o seu eterno quintal.

O impeachment de Dilma é peça chave no xadrez de poder da região. Afastar quem não se submete a interesses dos EUA será uma advertência aos países. O processo, que deixa as instituições brasileiras em farrapos, demonstra, mais uma vez, como a voracidade dos mercados e a força imperial são incapazes de conviver com a democracia.

ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha de S. Paulo. Foi editora-executiva do jornal de 2000 a 2010.

No Equador, o petróleo contra os índios

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Governo Rafael Correa anuncia nova rodada de licitação de blocos petroleiros, contrariando a opinião de lideranças dos povos originários

Por Luísa de Castro e Marina Ghirotto

No momento em que o valor do barril de petróleo atinge cifras inferiores a US$ 30, o governo equatoriano assinou um contrato com o consórcio chinês Andes Petroleum para exploração de dois blocos de petróleo na província amazônica de Pastaza. Os blocos de número 79 e 83 se sobrepõem à quase totalidade do território indígena Sápara, cultura declarada patrimônio oral e imaterial da humanidade pela Unesco. Além disso, coloca em risco outros dois grupos que se encontram em isolamento voluntário, os Tagaeri e os Taromenane (da nacionalidade Waorani), situados na “Zona Intangível” do Parque Nacional Yasuní, um dos locais mais biodiversos do mundo. Na rota da exploração está também o território do povo de Sarayaku, da nacionalidade Kichwa, internacionalmente conhecido pelo cabo de guerra travado há vários anos com governos anteriores em oposição à instalação da indústria petroleira em seu território. Continuar lendo

Francisco: um passo a mais — em silêncio

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Em sua viagem de maior carga emocional, Papa homenageia humilhados pelo capital e fustiga os que se aproveitam da desigualdade crescente. Como era de esperar, jornais calaram-se…

Por Mauro Lopes

Foi a visita com maior carga afetiva-emocional e aquela na qual ele mais explicitou, com palavras e gestos, o desejo de retorno da Igreja à originalidade dos primeiros tempos — uma Igreja pobre com os pobres.

O ato final da visita talvez não tenha sido compreendido em sua verdadeira dimensão: o Papa escolheu Ciudad Juarez, na fronteira entre o México e o Império e, num gesto profético de denúncia e desafio, abençoou as cruzes que simbolizam os milhares de mexicanos e mexicanas mortos durante o que parecia ser uma travessia para uma vida melhor.

O Papa, como o Cordeiro do livro do Apocalipse, o último da Bíblia, confronta-se com a Babilônia, a Roma dos tempos que escorrem. Não é à toa que fez, no México, a mais dura condenação aos ricos em seu tempo como Papa, ao dizer que eles prestarão contas sobre as fortunas construídas sobre o sangue e o suor e as lágrimas das pessoas; e, no avião de volta ao Vaticano, deixou claro que, para ele, Donald Trump não pode ser qualificado de cristão, por ser alguém que só tem projetos para construir muros a separar (como o muro entre os EUA e o México en Ciudad Juarez), muros de concreto e de ódio.

Para entender a fundo os sentidos de Bem Viver

marchaindigena (1)Um dos pensadores mais empenhados em superar ideologia do “desenvolvimento” debate, em três cidades brasileiras, alternativas à lógica capitalista de estar no mundo para acumular

Por Tadeu Breda

Mais: veja tudo sobre o lançamento nesta página do Facebook

No final de janeiro, a Editora Autonomia Literária e a Editora Elefante lançam O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos, escrito pelo político e economista equatoriano Alberto Acosta. Graças ao apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, haverá três lançamentos: dia 26 de janeiro, em São Paulo; dia 27 de janeiro, no Rio de Janeiro; e dia 28 de janeiro, em Mariana-MG, palco do que talvez seja a maior catástrofe socioambiental da história do país. Todos os eventos contarão com a presença do autor.

Nascido em Quito em 1948, Alberto Acosta é um dos fundadores da Alianza País, partido que chegou à Presidência do Equador em 2007 após a vitória eleitoral de Rafael Correa. Foi ministro de Energia e Minas no primeiro ano de mandato, mas deixou o cargo para dirigir a Assembleia Constituinte que incluiu pela primeira vez em um texto constitucional os conceitos de plurinacionalidade, Direitos da Natureza e Buen Vivir. Continuar lendo

Breve nota sobre o impasse do capitalismo e a bifurcação à frente

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O que Ignacio Ramonet, Immanuel Wallerstein e Thomas Piketty sugerem acerca dos impasses contemporâneos e o espaço existente para mudar o mundo

Por Rennan Martins

O avanço da direita liberal-conservadora, iniciado após Pinochet, Thatcher e Reagan, foi de tamanho ímpeto que, na atualidade, a ascensão de um genuíno social-democrata, a saber, Rafael Correa, se dá num projeto político alcunhado Revolución Ciudadana. O espectro do debate político-econômico foi tão puxado pra direita, que propor um Estado de bem-estar social é revolucionário.

Correa, que tem mandato até 2017, já fala em emenda constitucional no tocante a reeleição. Tem consciência da dificuldade que é enfrentar a reação, cada vez mais inescrupulosa e virulenta. Continuar lendo

Drogas: repressão mundial pode cair até 2016

Manifestantes uruguaios reivindicam legalização da maconha. Pressões sociais poderão influenciar ONU?

Manifestantes uruguaios reivindicam legalização da maconha. Pressões sociais poderão influenciar ONU?

Documentos vazados e declarações públicas revelam: às vésperas de uma revisão das políticas proibicionistas, cada vez mais países opõem-se a elas

Por Gabriela Leite

A legalização da maconha no Uruguai pode ser apenas o primeiro rombo, numa barragem ameaçada por águas revoltas. Um documento restrito da ONU, vazado em dezembro pelo jornal britânico The Guardian escancarou: os Estados Unidos terão grande dificuldade para manter, nos dois próximos anos, o consenso global que lideram, em favor da proibição do uso de certas plantas psicoativas e seus derivados.

Os documento revelado pelo The Guardian tem enorme relevância e ajuda a entender a dinâmica das legislações repressoras. A cada década, a Assembleia Geral da ONU revisa, em sessão especial, as determinações de sua Convenção Única Sobre Drogas Narcóticas. Celebrada em 1961, este evento tornou-se a base das legislações nacionais antidrogas. Ao longo dos últimos 50 anos, suas orientações foram mantidas, sem que se abrisse nenhum debate relevante. O país que mais pesou para esta postura imobilista foram os EUA — envolvidos oficialmente, desde 1971, numa “guerra contra as drogas”. Às vésperas da próxima revisão, marcada para 2016, o consenso está ruindo. Continuar lendo