Breve nota sobre a merenda escolar em São Paulo

1460065823_737538_1460066899_noticia_normalAntropóloga relata seu espanto ao deparar casualmente com pobreza da comida servida aos estudantes e desânimo dos funcionários que deveriam produzi-la

Por Íris Morais Araújo*, editora do site Iricota

Em 2008, por conta de uma pesquisa freelancer, Daniela Perutti e eu almoçamos em duas escolas de São Paulo. A discrepância entre o que comemos nos chocou. No estado, arroz, nuggets e purê de batata em flocos. Eu não me recordo perfeitamente, e não tenho nenhuma anotação para conferir, da refeição da escola municipal. Mas sei que era bem mais fresca e rica, com polenta cozida, legumes e frutas.

A diferença entre as conversas com as merendeiras também nos marcou. A trabalhadora do município detalhou seu trabalho e suas experiências gustativas. Nascida em um engenho em Pernambuco, lembrava-se da quantidade de sabores – até do muçum, peixe em formato de cobra – de sua terra natal, em contraste com a monotonia do pão, o único alimento a que tinha acesso quando migrou para São Paulo. Já a merendeira do estado mal falou: lembro-me apenas da ênfase que deu do pouco que podia fazer para melhorar a qualidade daquela comida pré-pronta.

A política do Estado tornou-se a nós indefensável, pela má qualidade da refeição e pela desvalorização da trabalhadora responsável por produzi-la. Porque é política que empobrece – muito além de escândalos de corrupção – o gosto, o gesto e a fala.

* Antropóloga e professora da UNIFESP-Campus Baixada Santista.

TEXTO-FIM

SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade. Continuar lendo

São Paulo, “cidade de trilhos”?

escadas

Ao contrário do que afirma secretário dos Transportes, modelo do governo estadual mantém desmonte da rede ferroviária — e aposta num “metrô para ricos”

Por Oliver Cauã Cauê

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o secretário de Transportes Metropolitanos Jurandir Fernandes surpreendeu ao falar na “São Paulo dos trilhos”. Oras, a terra da garoa tem três vezes menos trilhos que há cem anos. Conforme Rolnik e Klintowitz:

Até a década de 1920, o modo predominante de transporte era coletivo e sobre trilhos – bondes e trens. Segundo Mário Lopes Leão (1945), a cidade tinha, em 1933, uma rede de bondes com 258 km de extensão, três vezes maior do que a extensão atual do metrô. O sistema de bondes nessa época era responsável por 84% das viagens em modo coletivo, realizando aproximadamente 1,2 milhão de viagens/dia, em uma cidade que tinha, então, 888 mil habitantes (Vasconcellos, 1999, p.158). Continuar lendo

Os policiais que nos policiam

Com a escolha de um dos líderes do massacre do Carandiru para comandar a ROTA, as palavras de Mano Browm ficam ainda mais atuais: “Adolf Hitler sorri no inferno”

Há alguns dias postei aqui um texto sobre os juízes que nos julgam. Segundo a Lei de Murphy, o que pode dar errado dará, e o que está ruim pode piorar. Ok, Murphy, você venceu. Nas edições da Folha e do Estadão de hoje (textos completos aqui) sai a estarrecedora notícia de que o novo comandante da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), setor mais assassino e racista de uma das polícias mais assassinas e racistas do mundo, agora será comandado pelo tenente-coronel Salvador Modesto Madia.

A notícia chocou até o direitoso Estadão, que explica: “Madia não é qualquer réu no processo. Depois do coronel Ubiratan Guimarães — absolvido da acusação de ser responsável por 102 das 111 mortes –, Madia e outros 28 policiais são acusados de matar 76 presos no Pavilhão 9 do presídio, que ficava no Carandiru, zona norte de São Paulo”.

Muitos comentários poderiam ser feitos sobre esta escolha, que diriam muito sobre a Justiça brasileira, o governo paulista e nossa “democracia”, mas creio que os fatos falam por si só. Não é porque não é surpreendente que deixa de ser revoltante. Em homenagem à escolha, lembro aqui de duas músicas, Diário de um Detento e Haiti, salientando as ainda atuais palavras de Mano Browm: “Adolf Hitler sorri no inferno!”.