Europa: a curiosa exceção portuguesa

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os "socialistas" franceses aprenderão algo?

Antonio Costa (à direita), primeiro ministro português, recebe Benoit Hamon, candidato à presidência da França. Os “socialistas” franceses aprenderão algo?

Um governo à esquerda rejeita as políticas de “austeridade”, amplia seu apoio popular e atrai a atenção dos Partidos “Socialistas” da França e Alemanha. Por que?

Dois pesos pesados da família europeia de partidos “socialistas” prestaram, nos últimos dias, homenagens ao PS português a ao primeiro ministro do país, Antonio Costa. Primeiro, foi a vez do francês Benoit Hamon, que disputará em abril a presidência de seu país. “Fazer minha primeira viagem política a Lisboa foi uma decisão política”, disse ele: “é um país governado pela esquerda, apoiado por uma frente de esquerda, e que abandonou as políticas de ‘austeridade'”. Dias depois, Hamon foi seguido pelo alemão Martin Schulz, que liderará o Partido Social Democrata (SPD) nas eleições parlamentares para formar novo governo, em setembro. Costa é “um excelente amigo”, afirmou, sugerindo que considera a experiência portuguesa uma eventual alternativa à “grande coalizão” que o SPD forma hoje com os conservadores de Angela Merkel. É instrutivo examinar as causas do charme português.

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TEXTO-FIM

Stiglitz: como evitar “a grande queda livre”

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Desempregados fazem fila para sopa, nos EUA, durante a depressão dos anos 1930. Para Siglitz, políticas hoje hegemônicas podem repetir tragédia de então, porque baseiam-se na mesma lógica elistista

Na virada do ano, Nobel de Economia adverte de novo sobre risco de colapso global semelhante ao dos anos 1930. Para escapar, diz, será preciso derrotar políticas como o “ajuste fiscal” brasileiro

Por Antonio Martins

No início de 2010, menos de dois anos após o início da crise econômica global que persiste até hoje, Joseph Stiglitz, Nobel da Economia, publicou O Mundo em Queda Livre (“Freefall”). Ao analisar as respostas políticas adotadas até então contra a crise, ele observou que elas ameaçavam conduzir o planeta a uma depressão semelhante à que foi aberta em 1929. O poder das elites financeiras estava levando os governos a adotar medidas que concentravam ainda mais a riqueza e desmantelavam, em favor da “liberdade dos mercados”, o poder de planejamento e regulação dos Estados. No entanto, tais ações conduziriam a uma redução geral da demanda por bens e serviços que terminaria por levar as economias ao colapso. Stiglitz chamou este fenômeno de “O Grande Mal-Estar” (“The Great Malaise”). Nesta virada de ano, ele acaba de reforçar o vaticínio, num artigo alarmante porém não desesperançado. “Os remédios estão à disposição”, diz. O que falta, ainda, é reunir força política para vencer a hegemonia da aristocracia financeira e implementá-los.

O Nobel de Economia alimenta seu fio de esperança de três fontes. A primeira é o espaço para ações que poderiam reorganizar as economias. Em todo o mundo, há imensas necessidades de infraestrutura há muito represadas. Pense na despoluição dos rios brasileiros, num programa de urbanização das periferias, na reconstrução de uma rede nacional de ferrovias. Estes projetos, sozinhos, seriam capazes de “absorver trilhões de dólares”, sustenta o artigo — e gerar centenas de milhões de ocupações de todos os tipos. Mas não são os únicos. Em toda parte, são urgentes mudanças econômicas estruturai. EUA e Europa precisam completar a transição, de sociedades industriais para sociedades de serviços. A China será obrigada a voltar sua imensa produção para o consumo local, e não mais para as exportações. América Latina e África devem reverter a tendência perigosíssima à reprimarização de suas economias.

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Economia: o notável exemplo da Bolívia

Trabalhadores celebram Dia da Descolonização, instituído em 2011. Ao descartar, com sucesso, políticas desejadas por mercados financeiros, país revela espaço para alternativas

Trabalhadores celebram Dia da Descolonização, instituído em 2011. Exito na distribuição de riquezas e em reformas estruturais revela espaço para alternativas

Além de rechaçar políticas do FMI, país fez reformas estruturais e evitou concessões a grandes empresas. Sucesso revela como são frágeis ideias conservadoras que dominam debate brasileiro

Por Antonio Martins

Uma vasta onda de conservadorismo econômico varre o Brasil. Neste exato instante, por exemplo, o ministro da Fazenda Guido Mantega batalha por um amplo corte no Orçamento da União para 2014. Reduzir investimentos públicos é, pensa ele, indispensável para “tranquilizar os mercados”, sinalizando que o governo Dilma não adotará políticas que os afetem e recuperando sua “confiança“. Entre os adversários mais fortes da presidente, o cenário é ainda mais devastador. Aécio Neves prega o retorno puro e simples às políticas neoliberais. Eduardo Campos e Marina Silva cercam-se, informa o Valor Econômico, dos principais assessores econômicos de FHC. Preveem, se eleitos, ampliar as concessões que o Executivo faz, há meses, ao mundo das grandes finanças. Não há saída, todos parecem calcular: num mundo em que a crise agrava-se, a única opção de governantes prudentes seria evitar ousadias, não confrontar o grande poder econômico, esperar que passem os tempos de vacas magras. Será verdade?

Uma reportagem na edição de hoje do New York Times sugere desconfiar deste consenso. Trata de um país cuja força para resistir às pressões dos mercados financeiros é, em teoria, incomparavelmente mais reduzida que a do Brasil: a frágil Bolívia, com PIB (US$ 50 bilhões) cerca de 46 vezes inferior ao nosso. Traz revelações surpreendentes. A economia boliviana cresceu 6,5% no ano passado — uma das taxas mais altas do mundo. As reservas internacionais em moedas fortes são, proporcionalmente, quase duas vezes superiores às brasileiras. A dívida pública cai a cada ano. Tudo isso foi alcançado com medidas opostas às esboçadas pelos candidatos brasileiros. Continuar lendo

Xenofobia à moda grega

Afundado em dificuldades econômicas crescentes, governo de Atenas prende milhares de imigrantes africanos e asiáticos — e os mantém em condições desumanas

Pelo menos 6 mil pessoas foram detidas no final de semana em Atenas e nas principais cidades gregas, numa vasta operação policial que reforça os sinais de xenofobia crescente na Europa. Pelo menos 1.600 foram aprisionadas em condições precárias e deverão ser deportadas. Não são acusadas de crime algum — apenas serem estrangeiras sem documentos de permanência no país. Anunciada com alarde na TV, pelo ministro da Ordem Pública, Nikos Dendias, a operação teve nítido caráter racista, segundo denúncia da Anistia Internacional (AI): a polícia escolheu quem prender de acordo com a cor da pele.

As detenções em massa ocorrem em meio a crescentes dificuldades do governo. Ao contrário do que prometeu em campanha eleitoral, a coalizão de centro-direita que venceu as eleições em abril (ler “A Grécia revive uma vitória de Pirro“) não renegociou, as bases do programa de corte de direitos sociais imposto pela União Europeia. Um novo pacote de medidas deverá ser anunciado nos próximos dias. Prevê a demissão de mais 40 mil servidores públicos e uma ampla lista de privatizações.

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Europa: adeus à democracia?

A maneira como a crise financeira vem sendo combatida pelos governos europeus demonstra que a democracia ficou reduzida à mínima expressão do exercício periódico do voto

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

O anunciado “fim da história” liberal capitalista está ficando bem mais tumultuado do que os apologistas do proclamado sistema do “livre mercado” poderiam ter imaginado. E, se for para se falar em “fim”, mais parece que se trata só do início do fim, mais dos centros do poder econômico e político dos últimos dois séculos, especialmente da Europa.

O capital, sem inimigos e dançando sozinho à vontade pelo mundo afora, longe de achar o equilíbrio que deveria garantir a justa e “natural” distribuição dos recursos e bens (o trabalho da chamada de “mão invisível”) e levando democracia e liberdade para todos os cantos do globo, está, ao contrário, destruindo tudo — e, primeiro, as velhas democracias europeias.

Quem imaginaria apenas quatro anos atrás uma situação como a atual: “Caídos pelo euro”, reza o título da capa do jornal de Barcelona El Periódico. Na foto: o italiano Berlusconi, o grego Papandreu, o espanhol Zapatero, o português Sócrates e o irlandês Brian Cowen. O euro, a moeda que até parecia destinada para substituir a hegemonia do esgotado dólar, pode até desaparecer — o que ainda não aconteceu porque pensá-lo produz mais medo do que qualquer outra opção.

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O declínio da chanceler alemã

Depois de série de derrotas eleitorais, Angela Merkel pode enredar-se em crise política. Avanço da direita europeia pode ser mais frágil que se pensa

Em 2009, quando ela renovou o mandato de primeira-ministra (“chanceler”, segundo a designação alemã), agora à frente de uma coalizão de direita e centro, sua vitória foi vista, na mídia convencional, como um sinal de modernidade. Em 2010, chamou-se de “realismo” sua pregação, nas reuniões do G-20, em favor de cortes de gastos públicos. No final do mesmo ano, os moralmente conservadores julgaram “corajosa” sua avaliação segundo a qual o multiculturalismo havia “fracassado”; e os imigrantes interessados em viver no país deveriam adotar “a cultura e os valores alemães”.

Um ano depois, para tristeza (e silêncio…) destas vozes, Angela Merkel está em declínio. No ultimo domingo, ela sofreu a sexta derrota seguida, em eleições para renovação dos governos dos Estados alemães — desta vez, na Pomerânia do Oeste. Um novo fiasco deverá ocorrer em Berlim, dia 18/9. Se as eleições para o governo federal fossem hoje (normalmente, elas ocorrerão em 2013), a chanceler teria apenas 36% dos votos.

Seus dramas não param por ai. Começaram a surgir, nas últimas horas, evidências de que o programa ultra-draconiano defendido por Merkel para a Europa em crise pode ser incapaz de coesionar sua própria base parlamentar. Cerca de 20 parlamentares da coalizão governista (além do CDU, os social-cristãos-CSU e o Partido Liberal-FDP) estão anunciando que votarão contra o pacote costurado pela União Europeia para “resgatar” os países em dificuldades.

Costurado sob a liderança de Merkel e do presidente francês Nicolas Sarkozy, o programa exige, dos países “socorridos” cortes drásticos de direitos sociais e serviços públicos. Nem isso contenta os parlamentares rebeldes. Eles querem simplesmente inviabilizar os “resgates”, o que provocaria uma crise imediata do euro, e equivale, em certa medida, à posição da ultra-direita norte-americana, que ameaçou em agosto provocar o default da dívida dos EUA.

Se a rebelião avançar, a chanceler viverá um curioso dilema. Terá de recorrer à oposição, composta pelos social-democratas, Verdes, e Partido de Esquerda. Estes já anunciaram que concordam em apoiar os parceiros europeus mais atingidos pela crise. Porém, exigem, como contrapartida, mudanças no conjunto da política econômica. Frisam, em especial, a criação de um imposto sobre transações financeiras (semelhante ao Tributo Tobin) e a regulamentação do sistema financeiro.

Que faria Merkel, nestas circunstâncias? Negociaria com a esquerda, para escândalo de parte de sua base política? Ou abandonaria a política de “resgate” dos países atingidos, o que comprometeria por completo sua liderança e credibilidade no bloco europeu? Seja como for, o declínio da chanceler revela algo importante. A deriva da política institucional para posições cada vez mais retrógradas, na União Europeia, não são favas contadas. Há brechas a explorar — principalmente em casos como o alemão em que os partidos à esquerda, na oposição, mantém certa fidelidade a seus ideais históricos.