Maldição em Sandovalina

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Bombardeada intesamente por agrotóxicos, cidade — que nasceu de um latifúndio — é recordista em câncer de pâncreas e malformações congênitas. No Congresso, avançam projetos ainda mais permissivos a venenos agrícolas

Por Inês Castilho

O município paulista com a maior taxa de morte por câncer do pâncreas é Sandovalina, pequena cidade de pouco mais de 4 mil habitantes na região do Pontal do Paranapanema. É também o segundo maior índice de nascidos vivos com malformações congênitas, conforme dados do Ministério da Saúde de 2000 a 2013, e o motivo é bem conhecido pela população. São “os aviões que passam despejando veneno”, contaminando as águas, pessoas e plantações – como relata Solange Cristina Ribeiro, da área de meio ambiente da CUT-SP.

Os agrotóxicos despejados nas lavouras por aviões de grandes fazendas de cana-de-açúcar e soja da região, carregados pelo vento, vão além dos limites das monoculturas. Daí a contaminação de plantações de mandioca e hortaliças, e a perda de safras dos produtores de seda pela contaminação das amoreiras, onde se alimentam as lagartas que se transformam em bicho-da-seda.

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O orgulho de produzir sem veneno

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Feira Nacional da Reforma Agrária reúne mais de 170 mil em SP em meio a debates, música, centenas de produtores e a celebração de outro modo de estar no mundo

Por Julicristie M. Oliveira*

A II Feira Nacional da Reforma Agrária, que começou quinta-feira, dia 4, e terminou no domingo, dia 7 de maio, no Parque da Água Branca, em São Paulo, ofereceu ampla programação cultural, com shows, debates e presença de militantes, políticos e artistas, mas o verdadeiro espetáculo ficou por conta das trabalhadoras e trabalhadores rurais que expuseram e comercializaram os frutos de sua luta e empenho.

Visitei a feira no sábado, dia 6, quando pude acompanhar a conferência “Alimentação Saudável: um direito de todos e todas” e gastar um bom tempo apreciando os corredores que estavam apinhados de visitantes, de trabalhadoras, de trabalhadores rurais, daquele orgulho de produzir “sem veneno” e de biodiversidades que são a base das diferentes culturas alimentares ali representadas.

De plantas alimentícias não convencionais a pães veganos, a II Feira Nacional da Reforma Agrária parece ter avançado no incorporação do discurso da agroecologia, na crítica aos agrotóxicos e em outras pautas. Escutei atenta a explicação de um trabalhador que expunha suas sementes de milho crioulas ainda na espiga como uma obra de arte, repleta de cores, e de como ano a ano o cultivo mudava suas matizes. Como não admirá-lo? Continuar lendo

Novo impulso na luta contra os agrotóxicos

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Fórum reunindo movimentos, universidades e Ministério Público aprofundará debate sobre venenos agrícolas e mobilização por um novo projeto para o campo

Por Inês Castilho

Os agrotóxicos foram responsáveis por mais de 25 mil pessoas intoxicadas entre 2007 e 2014, no Brasil. Calcula-se que a subnotificação seja de 50 para cada caso, o que soma 1.250.000 pessoas. São responsáveis por mortes, malformações, contaminação de bebês e de leite materno. Por inúmeros casos de câncer. O que mais precisamos saber a respeito desses venenos para a saúde humana, animal e do ambiente?

“É uma questão de misericórdia”, disse o médico Paulo Saldiva, presidente do IEA – Instituto de Estudos Avançados da USP, na audiência pública Exposição aos agrotóxicos e gravames à Saúde e ao Meio Ambiente. “As evidências são mais que suficientes. Trata-se agora de criar um espaço permanente, com reuniões regulares, onde se construa uma narrativa que sensibilize tanto a sociedade quanto os governantes.” Continuar lendo

O veneno do agronegócio

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Na cidade onde agrotóxicos contaminam até o leite materno, Dilma apresentou modelo agrícola como “exemplo para o país”

Por Inês Castilho I Imagem Alana Gandra – Agência Brasil

Ao abrir nesta terça-feira (11/2), numa cerimônia em Lucas do Rio Verde (MT), a safra de grãos 2013-14, a presidente Dilma Roussef não se conteve. Entusiasmada com a perspectiva de uma colheita recorde, de 193,6 milhões de toneladas, lembrou o crescimento de 221% em vinte anos e afirmou que “o agronegócio brasileiro é exemplo de produtividade para o país”.

Será? Ao escolher Lucas do Rio Verde como local da cerimônia de saudação a este modelo, talvez Dilma não soubesse que estava dando um tiro no pé. Como louvar alimentos que envenenam a fonte mesma da vida? Mais: há muito se analisam como ilusórios os números de “produtividade”. O agronegócio gera dólares, mas eles concentram-se nas mãos de muito poucos. A monocultura mecanizada emprega cada vez menos trabalhadores. O uso maciço de pesticidas polui terra e rios, intoxica trabalhadores e comunidades e, exatamente ali, envenena leite materno. Tudo somado, são perdas incomensuráveis para os ultra ricos. Continuar lendo

Monsanto expõe seu calcanhar-de-aquiles

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Cresce, agora nos EUA, movimento pela rotulagem dos transgênicos. Empresa lança vasta campanha sobre “benefícios” de seus produtos, mas não explica por que procura ocultá-los do público

Por Taís González

Nada como um teste prático, sob pressão social, para verificar o que há por trás dos discursos de “respeito ao consumidor” e “responsabilidade social” das grandes corporações. Nos últimos anos, a Monsanto – maior empresa agrícola do mundo e principal desenvolvedora de sementes transgênicas – multiplicou seus investimentos em publicidade. Passou a atuar de modo intenso nas próprias redes sociais. Desdobrou-se para “demonstrar” que seus produtos são benéficos, para a saúde humana e o ambiente.

Agora, estas alegações estão sendo testadas em seu próprio país de origem – os Estados Unidos. Em 5/11, um plebiscito no estado de Washington poderá assegurar, aos consumidores, o direito de ser informados (por aviso na embalagem) sobre a presença de transgênicos em alimentos, bebidas e sementes. Foi convocado por iniciativa popular. A empresa age contra ele, mas enfrenta forte dificuldade. Uma pesquisa recente, do New York Times, revelou que 93% da população defende a rotulagem. Continuar lendo

Para tirar os primeiros venenos do seu prato

Brasileiros ingerem 14 pesticidas ultra-tóxicos, proibidos em dezenas de países. Campanha quer vetá-los e chamar atenção para viabilidade da agroecologia

Por Bruna Bernacchio

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que mobiliza cerca de 70 grandes organizações, está divulgando nacionalmente um abaixo-assinado, que pode ser impresso ou assinado virtualmente, chamando atenção ao uso abusivo, no Brasil, de venenos usados nas lavouras. O alvo principal são 14 tipos de agrotóxicos, que têm em sua composição princípios ativos banidos em dezenas de países. Entre eles estão o Endosulfan (proibido em 45 países), Cihexatina (vedado na União Europeia, Austrália, Canadá, Estados Unidos, China, Japão, Líbia, Paquistão e Tailândia, entre outros), e Metamidofós (proibido, por exemplo, na União Europeia, China, Índia, e Indonésia), (veja lista completa e detalhada).

Nos últimos quatro anos, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e passou a ocupar a posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Enquanto no no mundo a média do uso desses produtos cresceu 93% entre 2000 e 2010 (substituindo, em muitos casos, o veneno químico pelo controle natural de pragas), no Brasil o percentual foi muito superior (190%).

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