O nosso 11 de setembro

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11 de setembro de 1973: o Palácio La Moneda, onde estava o presidente socialista Salvador Allende, é bombardeado pelo Exército chileno sob o comando do general Augusto Pinochet

Um brasileiro que vivia no Chile registrou o dia fatal do golpe que despedaçou a democracia de Allende, em 1973, Aconteceu muito antes do 11 de setembro dos EUA – que ajudaram a instalar a ditadura em Santiago

Por Cid Benjamin

Ontem, 11 de setembro, foi aniversário do sangrento golpe militar que assassinou Salvador Allende e implantou a sangrenta ditadura do general Pinochet.

Na ocasião eu estava no Chile, onde tinha ingressado com documentos falsos para voltar clandestinamente ao Brasil, depois de ter sido trocado, juntamente com outros 39 presos políticos, por um embaixador sequestrado pela guerrilha.

Reproduzo aqui o trecho do meu livro de memórias Gracias a la vida (Editora Jośe Olympio, 2013), em que falo desse dia.

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“No dia 11 de setembro veio o golpe, que, em seu momento inicial, talvez tenha sido o mais violento dentre todos os acontecidos na América Latina.

“Na ocasião, já estávamos há poucas semanas, eu, Isolde e Ani, em outra casa, melhor do que o apartamento em que, até então, tínhamos morado. No dia do golpe, saí cedo para uma reunião política com brasileiros. Na rua, senti um clima estranho. E havia grande movimento de helicópteros e aviões. Perguntei a um transeunte se tinha acontecido algo.

“Los milicos se alzaran”, foi a resposta.

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TEXTO-FIM

Tiziano Terzani: De correspondente de guerra a militante da paz

“O mundo está mudando, e nós também temos que mudar. Nós precisamos parar de fingir que tudo é como antes e que podemos seguir vivendo normalmente, de modo covarde”

Tiziano Terzani era um italiano de Florença que amava a Ásia. Foi um dos jornalistas de maior prestígio internacional, mas ao longo da vida deixou o trabalho como correspondente de guerra para tornar-se um pacifista militante. Baseado em Bangkok, na Tailândia, percorreu o Oriente em função de seu trabalho, tendo coberto eventos dramáticos, inclusive a Guerra do Vietnã. Suas experiências mudaram seus valores e sua concepção de vida.

Desde o fim da Guerra Fria, uma nova ordem mundial se desenha. Em um mundo étnica, cultural e religiosamente diverso, o número de conflitos que emergem a partir das diferenças entre as civilizações que o compõem é preocupante e, por vezes, estarrecedor. Há 10 anos, a humanidade assistia a um dos eventos mais impactantes e evidentes deste estado de desagregação em que se encontram os povos e suas nações. No esteio dos atentados do 11 de Setembro, Tiziano se opunha fortemente às empresas militares dos Estados Unidos e seus aliados no Afeganistão e no Iraque.

Na época, após os fatos e em virtude dos discursos de ódio que viu espocar em todos os meios de comunicação, Tiziano redigiu a uma série de cartas que foram publicadas pelo jornal italiano Corriere della Serra, nas quais questionava o sentido de uma “Guerra contra o Terror” e respondia a outros jornalistas que defendiam a reação americana. Essas cartas, mais tarde, foram reunidas e o jornalista tentou publicá-las. Encontrou as portas das editoras americanas e britânicas “devidamente” fechadas. Diante das negativas, publicou o livro na internet [versão em inglês]. O texto foi posteriormente traduzido a diversas línguas. As cartas são seu legado, um chamado à reflexão e uma defesa da paz.

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“O sangue errou de veia e se perdeu”

Nos balanços do 11 de Setembro, sinais dos desencontros dos Estados Unidos — e de que Immanuel Wallerstein pode estar certo, quando fala em declínio estrutural do país

 

Entre as dezenas de balanços publicados nos últimos dias, dez anos após os atentados da Al-Qaeda contra as Torres Gêmeas e o Pentágono, dois ao menos merecem ser lidos atentamente. Vêm de origens distintas, mas são complementares. Quem os lê não pode deixar de recordar uma hipótese formulada quase solitariamente pelo sociólogo Immanuel Wallerstein, há cerca de dez anos. Segundo ele (veja, por exemplo, neste artigo recente), razões estruturais reduzirão progressivamente o papel e a influência internacional dos Estados Unidos; e tal processo não poderá ser detido por líderes esclarecidos.

O primeiro texto é um longo editorial da revista Economist. Ao longo de três páginas, ele traça um vasto panorama do que mudou no cenário internacional, ao longo da última década. Suas conclusões básicas são: a) do ponto de vista militar, os Estados Unidos estão vencendo a guerra contra os seguidores de Bin Laden. O assassinato do ícone da Al-Qaeda foi apenas um, entre uma série de episódios que debilitaram e desorganizaram a rede terrorista; b) no entanto, o objetivo político principal dos atentados de 11 de Setembro parece alcançado. Além de reconstruir o califado — sua contra-utopia regressiva — Bin Laden pretendia envolver Washington numa série de “guerras sangrantes” no mundo islâmico. Até o momento, ao menos, ele o conseguiu.

Economist demonstra que os ferimentos causados por estas guerras são muito profundos no mundo árabe, mas vão além. No Iraque, após sete anos de lutas extremamente desgastantes, os Estados Unidos estão à beira de uma retirada que deixará no poder um governo próximo a seu principal adversário estratégico na região, o Irã. Na Ásia Central, há o risco de um tropeço ainda mais grave. Washington deslocou o combate ao Talibã do Afeganistão para o Paquistão (onde aviões-robôs perseguem e matam supostos militantes da Al-Qaeda, e onde Bin Laden foi liquidado numa operação que humilhou governo e exército nacionais). Ao fazê-lo, está prestes a converter em inimigo um país muçulmano de 190 milhões de habitantes, de dificílima governabilidade e dotado de arsenal nuclear.

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