Em São Paulo, uma luta emblemática pelo SUS

171031-CS2

Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, paralisada pelos manifestantes, em protesto.

Política privatista do governo Dória ameaça um Centro de Saúde histórico, reconhecido por sua excelência. Usuários e trabalhadores unem-se para defendê-lo

Por Eveline S. Araujo*

Se você paga, não deveria / Porque saúde não é mercadoria”. Com esse slogan ocorreu, nesta segunda-feira (30/10), a primeira de uma série de manifestações públicas previstas pelos usuários e trabalhadores do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza (CSEGPS-USP). Há 92 anos o centro, que tem história singular, presta atenção básica na Saúde em São Paulo. É tido como unidade de excelência. Mas encontra-se sob risco, porque a prefeitura, sob a gestão João Dória, reluta em manter os recursos que garantem sua existência.

A manifestação desta segunda utilizou como estratégia vários bloqueios temporários no trânsito de duas vias importantes da zona oeste da metrópole – Doutor Arnaldo e Teodoro Sampaio. Buscou dois objetivos: alertar a população sobre os riscos de desmonte do SUS e pressionar a prefeitura a manter um convênio essencial ao funcionamento do Centro de Saúde

Criado em 1925 ele está ligado à história do sanitarismo no Brasil. Foi o primeiro Centro de Saúde em São Paulo (chamado, por isso, de “Modelo”) e, para alguns, no país. Está instalado, desde 1931, num alegre casarão, que foi habitado – e mais tarde doado ao serviço público – por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Ligou-se, em 1945, à Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, onde permanece.

Continuar lendo

TEXTO-FIM

A internet não é como você pensava

171025-Xploit

“Xploit”, produção brasileira de baixo orçamento, pode surpreender no Festival de Webséries do Rio ao expor, de modo didático porém incisivo, as ameaças de vigilância e controle que pairam sobre a grande rede

Por André Takahashi

A websérie documentário Xploit Internet sob Ataque trata das questões invisíveis que regem os caminhos da internet. Das leis em tramitação no Congresso Nacional, dos seus direitos enquanto usuário, de como a coleta indiscriminada dos seus dados pessoais afeta a sua vida.
Indicada para concorrer aos prêmios de “Melhor Roteiro de Não Ficção” e “Melhor Série de Documentário” do III Festival Internacional de Webséries do Rio (Rio WebFest 2017) com concorrentes do Brasil e do mundo, Xploit coloca a Internet em uma outra – e preocupante – perspectiva.
Xploit conta a história da origem da rede mundial de computadores e a sua transformação de um repositório de conhecimento e inovação a um espaço de consumo e perseguição política, alvo de ataques constantes por parte de governos e corporações de telecomunicações.

Continuar lendo

Pode a Arte encontrar-se com o Comum?

"Noiva", da fotógrafa colombiana Évelin Velazquez. Ela integra o coletivo Casa Tres Patios, de Bogotá -- um dos "nós" do Colaboratório das Artes

“Noiva”, da fotógrafa colombiana Évelin Velazquez. Ela integra o coletivo Casa Tres Patios, de Bogotá — um dos “nós” do Colaboratório das Artes

Ou: o dia em que conheci o notável Colaboratório das Artes, uma rede de organizações artísticas que busca trocar o egocentrismo pela produção coletiva e o debate permanente

Por Georgia Nicolau


MAIS:
Texto em três partes: leia as duas primeiras abaixo

A dura — e indispensável — construção dos Comuns
Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Comuns: a Holanda constrói com cuidado
No centro do país, uma cooperativa assume ações de assistência antes executadas pelo Estado e enfrenta o desafio de manter o caráter público dos serviços, introduzindo a participação direta dos usuários.

O encontro com a rede Colaboratório das Artes (Arts Collaboratory-AC) foi a grande surpresa de minha participação pelo Instituto Procomum na 16ª Conferência Bienal da Associação Internacional para os Estudos do Comum (International Association for the Study of the Commons- IASC)  entre os dias 10 e 14 de julho deste ano na Holanda. Já tinha ouvido falar da rede e sabia que envolvia centros culturais e artísticos de vários países, mas ignorava que eles se utilizavam do conceito de comum como valor central. Como se espera de um coletivo de artistas, quando cheguei à oficina liderada pela rede notei que haviam mudado o formato e a estética da sala.

A IASC é uma conferência bastante tradicional nos formatos, resquícios de sua origem acadêmica. Os labs de praticantes, como eram chamados os espaços onde os comuneiros apresentavam suas experiências a partir da prática (e não da academia), eram mais dinâmicos, mas ainda assim seguiam o formato expositivo. No encontro da AC, no universo da arte, tudo era bem diferente.

Na oficina da AC havia painéis e papéis grudados na parede. Entre eles, os princípios éticos da rede (que eram também escritos em meias que eles depois doaram aos participantes), que eles chamam de trabalho em desenvolvimento (work in progress).  Entre eles destaco as que mais me chamaram atenção: imaginação radical, autocuidado, micropolítica, decrescimento, abertura, auto-organização, solidariedade, hospitalidade, estudo. Veja todos aqui. Continuar lendo

Mostra da Cooperifa desafia perseguição à arte

171018_cooperifa
Sueli Carneiro, Sarau das Pretas, Paulo Lins, Wagner Moura e Xico Sá são alguns [email protected] [email protected] para o evento, que acontece a partir deste sábado na Zona Sul de São Paulo

Comemorando os 16 anos de existência da Cooperifa – o sarau de poesia que deu início ao deslocamento da melhor cultura paulistana para a periferia da cidade –, começa dia 21 de outubro a 10ª Mostra Cultural da Cooperifa. Até o dia 29, a mostra leva à Zona Sul de São Paulo artistas consagrados na periferia da metrópole juntos a nomes estrelados da cultura brasileira. É o caso da teórica do feminismo negro Sueli Carneiro, ao lado do Sarau das Pretas, coletivo que celebra a vida com poesia, teatro, contação de histórias e brincadeiras com crianças.

“Vivemos um período de censura à arte e cultura. Nós da Cooperifa resistimos e vamos levar o que há de melhor na periferia e fora da periferia para a Mostra”, afirma o poeta Sérgio Vaz, fundador do coletivo, lembrando os episódios recentes em que exposições em museus ou centro culturais foram atacadas por setores conservadores da sociedade brasileira.

Se no ano passado teve show gratuito do Criolo, desta vez a mostra tem Wagner Moura, Xico Sá e Dexter na mesma programação que apresentará a cantora Fernanda Coimbra, o poeta Akins Kintê e o rapper Cocão.

“É importante trazer gente de fora, mostrar que a periferia se tornou um importante palco da cultura brasileira. Mas a maior parte da programação é, e tem que ser, de nomes que a periferia já conhece e que produzem muito do que é consumido pela periferia”, afirma Vaz.

Confira aqui a programação completa.

Em São Paulo, uma luta em defesa do SUS

171016_passeata HU da USP
Funcionários do Hospital Universitário da USP e população unem-se em defesa de mais uma unidade do sistema público que passa por desmonte com vistas à privatização

Por Raquel Moreno | Imagem: Matheus Steinmeier/Simesp


DIREITO DE RESPOSTA:
Leia, ao final do texto, nota da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM). Citada na matéria, a entidade contesta parte das afirmações nela contidas.

O Hospital Universitário da USP está, aos poucos, sendo estrangulado. O hospital sofre uma redução dramática do seu orçamento, com Plano de Demissão Voluntária e uma política para descaracterizá-lo como Hospital Escola e a melhor referência da comunidade USP para atendimento de funcionários, alunos e professores, além da população do Butantã. O objetivo é bem claro: repassar sua estrutura para a iniciativa privada (OS). A SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), que já controla grande parte das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) na região, está com a boca na botija.

O Coletivo de Moradores “Butantã na Luta” está em campanha contra esse desmonte, colocado em marcha pelo governador Geraldo Alckmin sob a tutela do reitor Antonio Zago – ambos médicos. O movimento “Em Defesa do HU” é formado por moradores da região, alunos, funcionários e professores da USP. Continuar lendo

Hidrocídio brasileiro: a matança das águas

Leito seco do Rio Paracatu, no município de mesmo nome. Principal afluente do São Francisco, o rio tinha quase 500 quilômetros, e uma bacia hidrográfica de área equivalente à do Estado do Rio

Leito seco do Rio Paracatu, no município de mesmo nome. Principal afluente do S.Francisco, o rio tinha quase 500 quilômetros de extensão, e uma bacia hidrográfica de área equivalente à do Estado do Rio

São Francisco, Araguari, Paracatu, Tocantins, Javaés. Os rios brasileiros agonizam. “Não sabemos o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.”

Por Roberto Malvezzi (Gogó)

A cada dia chega a notícia da morte de um rio, ou de que um rio famoso agoniza. Afluentes dos grandes rios brasileiro estão sendo mortos às centenas, aos milhares, num verdadeiro hidrocídio, isto é, a matança das águas.

Esses dias nos chegou a visão do leito seco do Paracatu, um dos maiores afluentes do São Francisco. No ano passado, em Macapá, me contaram que a pororoca do rio Araguari estava extinta. Esse ano, no Acre, me informaram que o prognóstico científico é de que o rio do Acre seque em dez anos.

Em Miracema, quando estive lá no ano passado, quase atravessamos o rio Tocantins a pé, com a água alcançando no máximo a cintura. Ali mesmo nos contaram que o rio Javaés, que faz a Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo, também tinha secado.

O Velho Chico agoniza a olho nu, com pouco mais de 500 m³/s, e na sua foz o mar avança São Francisco adentro, já salinizando as águas antigamente doces das comunidades ribeirinhas.

Nosso ciclo das águas, que se origina na Amazônia e depois se espalha por todo território brasileiro, chegando até Buenos Aires, Assunção e Montevideo, está sendo estrangulado pelas atividades predadoras que precisam destruir a vegetação para se impor. Ao destruir a Amazônia matamos a bomba biótica que injeta água na atmosfera; ao destruir o Cerrado matamos nossos maiores reservatórios naturais, aquíferos como o Bambuí, Urucuia e Guarani. A riqueza derivada da rapinagem não tem fôlego e também entrará em colapso com o colapso de nossas águas.

Não sabemos exatamente o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.

Mesmo assim não nos conformamos. Como diz uma frase atribuída a Martin Luther King, “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim hoje eu plantaria uma árvore”.

Comuns: a Holanda constrói com cuidado

171013-Holanda2B

No centro do país, uma cooperativa assume ações de assistência antes executadas pelo Estado e enfrenta o desafio de manter o caráter público dos serviços, introduzindo a participação direta dos usuários

Por Georgia Nicolau


MAIS:
Texto em três partes: leia a primeira abaixo

A dura — e indispensável — construção dos Comuns
Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Em junho último participei, representando o Instituto Procomum e o Lab Santista, da conferência bienal da Associação Internacional para os Estudos dos Comuns, que aconteceu na cidade de Utrecht, região central da Holanda.

Entre a programação da conferência, um dos dias foi reservado para uma visita a campo a várias organizações que praticam o Comum pelo país inteiro – em cerca de três horas é possível ir de uma ponta à outra da Holanda. Eram muitas as opções, nove excursões foram oferecidas, com uma diversidade de locais e temas: visitas a sistemas de gestão cooperativa e coletiva de água, de terras, de comida, de moradia, de energia, de patrimônio cultural entre outros. Optei pelo tour que tinha o nome de “Cuidar em comum: iniciativas de cidadãos para cuidados, habitação e alimentos nos Países Baixos centrais”.

A palavra cuidado me atraiu de cara, já que tem sido uma agenda bastante importante para a construção do Instituto Procomum, em várias camadas: como agenda de trabalho, pensando o âmbito do cuidado na concepção de outros mundos possíveis; como agenda interna, pensando a organização a partir do cuidado consigo e com xs outrxs; e individual de cada um de nós. Nunca tinha ouvido falar em uma cooperativa de cuidado e estava bastante curiosa para entender seu funcionamento.

Além da cooperativa de vizinhança, que tem o nome de Apeldoorn-Zuid (Apeldoorn Sul, que é a região onde eles atuam), fomos ainda visitar o projeto Aardehuizen (Earth House) na cidade de Olst, que é o projeto habitacional mais sustentável na Holanda. Composto por 23 casas e um centro comunitário, tudo foi construído pela própria comunidade, usando majoritariamente materiais de sucata, como vigas de madeira recuperadas, fardos de palha e pneus de carro.

O nome do projeto advém do fato de as casas possuírem uma cúpula em formato da terra. Por fim, visitamos a propriedade ecológica chamada Roggebotstaete, criada a partir de um terreno privado que foi doado a uma fundação, estabelecida em 2012, na cidade de Dronten, na região de Flevolândia, que apenas 60 anos atrás era o leito do mar. Roggebotstaete tornou-se uma área de produção natural e sustentável de alimentos, onde o respeito pela natureza e a comunidade são valores básicos. Abrange 52 hectares de florestas, pastagens e reservatórios de água além de animais como vacas, ovelhas e porcos. Continuar lendo

“Como nossos pais”: otimismo de bicicleta

171011_como nossos pais
Mulher e mãe da classe média branca, com um marido que até a ajuda quando ela pede. Para o crítico, o filme de Laís Bodanzky expressa “um certo otimismo duro”, que foge da “falsa libertação”

Por Airton Paschoa
O filme da Laís Bodanzky é bom retrato de certa condição feminina moderna. Mãe de duas filhas em idade escolar, ralando em casa e fora, a protagonista leva vida de classe média remediada, vida rasteira, como toda vida, sem nada de excepcional, mas o retrato é sensível, fugindo dos clichês.
O marido, por exemplo, é um cara legal, ajuda-a quando pede, diverte-se com as filhas, abre mão do futebol semanal com os amigos, um cara legal, mas… marido, e toda mulher sabe o que é isso.
Ponto louvável do filme é se concentrar na condição feminina, de cuja dureza extrai até otimismo, desde o momento que compreende ela que sua condição de mãe e mulher não muda, tendo o marido um caso com a amiga ou não, tendo ela um caso com o amigo ou não, outro cara legal, outro marido, enfim, separando-se ou não.
A irresolução do filme acerca de tais desdobramentos, que seria de norma resolver em qualquer bom roteiro, a suspensão em que fica o espectador, numa palavra, está apenas a indicar que nada disso interessa de fato, que nada disso alteraria a condição feminina, coisa que, pr’além de resignação, conforma certo otimismo duro, o único possível para as nossas mulheres.
Podemos chamá-lo, inspirado no último quadro do filme, a esse otimismo duro, a esse otimismo possível, a esse otimismo pedestre, de otimismo de bicicleta. Sim, não se trata de cabelos ao vento, de otimismo de moto, mas não se trata também, e viva o filme! de falsa libertação.

Para tramar um feminismo descolonizado e não-burguês

170928-debatesfeministas3

Ciclo de encontros com a boliviana Julieta Paredes debate a hipótese de um Feminismo Comunitário, capaz de superar o individualismo e de compreender que o patriarcado oprime também os homens e a natureza

Por Serpente Coletiva

Fortalecer a atuação de mulheres e seus espaços de resistência ao neoliberalismo e ao patriarcado, a partir das contribuições do Feminismo Comunitário é o objetivo do Ciclo de encontros Feminismo Comunitário: propostas desde o Sul, que acontece de 27 a 30/09, em São Paulo.

O evento promove uma série de atividades abertas e gratuitas com Julieta Paredes, feminista boliviana, uma das criadoras do Feminismo Comunitário de Abya Yala (nome originário da América). Nos encontros, serão discutidos temas como descolonização e desaburguesamento do feminismo; força revolucionária das mulheres latino-americanas quando decretam que são metade dos povos, das comunidades, dos movimentos; saberes ancestrais dos povos originários, como o próprio conceito de comunitário; propostas decoloniais de atuação política; entre outros. E uma festa celebra a alegria das conversas, trocas, reflexões e aprendizados para a construção de outros mundos possíveis. Continuar lendo

A dura — e indispensável — construção dos Comuns

190922-Comuns2

Claramente anticapitalista, ideia de proteger das lógicas de mercado cada vez mais aspectos da vida precisa tornar-se popular. Como fazê-lo?

Por Georgia Nicolau

Entre os dias 10 e 14 de julho deste ano participei da 16ª Conferência Bienal da Associação Internacional para os Estudos do Comum (International Association for the Study of the Commons- IASC) cujo tema, este ano, era “Praticando os Comuns – auto-governança, cooperação e mudança institucional”. Com sedes rotativas, o evento deste ano aconteceu na cidade universitária de Utrecht, na Holanda, e teve como organizadores, além da própria IASC, a Universidade de Utrecht e seus programas de pesquisa Instituições para Ação Coletiva e Instituições para Sociedades Abertas.

Sendo parte da construção do Instituto Procomum, desde ano passado, ando debruçada em textos e reflexões sobre os comuns (os commons, em inglês, e procomún ou común em espanhol). Nesse sentido, a ida à Conferência da IASC foi uma experiência bastante rica para reafirmar algumas ideias surgidas a partir das nossas imersões e conversas, como por exemplo de que o comum ainda é uma agenda, um conceito, bastante ligado à pesquisa acadêmica. Mas temos, cada vez mais, praticantes e comunitários envolvidos nesse debate (os comuneiros). O comum ainda é muito identificado à gestão e governança de recursos naturais (rios, florestas, agricultura). Além disso, percebi que não se trata de um conceito que finda em si mesmo, mas uma lente, um enquadramento possível para compreender o mundo. Abrange, portanto, uma série de pessoas, grupos e pesquisadores atuando nos mais variados campos, os quais, de alguma forma, propõem formas de governança coletiva de um bem seja para preservá-lo, geri-lo ou construí-lo.

Continuar lendo