Lembrança dos ventos no fundo do mar

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A atmosfera é uma camada tão fina que um sopro pode fazê-la desaparecer. A vida é grandiosa, mas mais precária do que lembramos todos os dias. Porque somos tão [email protected]….

Nota de Patrícia Cornils

Coisas do mundo… A primeira vez que me dei conta de que venta no fundo do mar foi quando estava mergulhando ao lado de um atol e, numa rachadura na parede de coral por onde a água entrava, ficamos nos segurando nas pedras do chão e sentindo, como bandeiras estendidas, que ela vinha em rajadas. “A água é como o vento!!”, eu sentia, conforme as rajadas nos empinavam e depois… paravam. Lindo, como um silêncio no movimento. Se eu nunca tivesse lido A Luz é Como a Água, um conto maravilhoso do Garcia Márquez, talvez não tivesse conseguido formular isso tão claramente.

Daí outro dia li este poema da Emily Dickinson (desculpem a má tradução):

I think that the Root of the Wind is Water —
It would not sound so deep
Were it a Firmamental Product —
Airs no Oceans keep —
Mediterranean intonations —
To Current’s Ear —
There is a maritime conviction
In the Atmosphere.

Acho que a Raiz do Vento é Água —
Ele não soaria tão profundo
Fosse um Produto do Firmamento —
Ares não soam Oceanos —
Toadas Mediterrâneas —
A Ouvidos de todo dia —
Há uma convicção marítima
na Atmosfera.

A primeira vez que me dei conta com clareza de como a Terra é frágil foi ao entrevistar Mark Shuttlewoth, criador do Ubuntu, milionário da internet que usou parte de sua fortuna para se tornar o primeiro civil a viajar até a Estação Espacial. A conversa era sobre tecnologia mas no final não resisti. Queria falar sobre o que importa… “Como é a Terra vista de lá?. É mesmo azul?”, foi o que consegui perguntar. “A atmosfera é uma camada tão, mas tão fininha, que parece que um sopro pode fazê-la desaparecer.” A vida é grandiosa mas mais precária do que lembramos todos os dias. Porque somos tão [email protected]….

TEXTO-FIM

“Mulher do pai” e o lugar da mulher no cinema

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Outras Palavras e Coletivo Elviras debatem, nesta segunda-feira, um filme instiga a refletir sobre o papel feminino no audiovisual brasileiro, e a necessidade de ampliá-lo


Cinedebate
MULHERES NO CINEMA
Com exibição do makig of de “Mulher do Pai”
Presença de Cristiane Oliveira (diretora), Heloisa Passos (diretora de fotografia), Samanta do Amaral (colorista) e Isabel Whittmann (do coletivo Elviras)

Segunda-feira, 12/6, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945 — Bixiga — S.Paulo (veja mapa) — Metrô S.Joaquim (700m) ou Brigadeiro (1km)
Grátis — Veja página do evento para detalhes e compartilhar

Primeiro longa de Cristiane Oliveira, Mulher do Pai estreia dia 22 de junho. É um filme encabeçado por mulheres e com uma temática feminina muito presente no roteiro. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória da adolescente Nalu, que, após a morte da avó, precisa cuidar de seu pai cego, mas, ao mesmo tempo, vive o dilema entre ser tecelã como a avó ou buscar uma nova vida longe da comunidade.

Outras Palavras, em parceria com a equipe do longa Mulher do Pai e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema apresentam o Cinedebate Mulheres no Cinema, com exibição do Making Of de 23 minutos do filme. No debate, estarão presentes Heloisa Passos, diretora de fotografia e integrante da Associação Brasileira de Cinematografia e do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Samanta Do Amaral, colorista e integrante do Coletivo das diretoras de Fotografia do Brasil, Cristiane Oliveira, roteirista e diretora, Isabel Wittmann, do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e do podcast Feito Por Elas. Continuar lendo

Jacques e a Revolução, uma obra premonitória

170525_Jacques e a revolução - Ana Luiza Accioly e Katia Iunes - Foto Flávia Fafiães

Em cena, as atrizes Ana Luiza Accioly e Katia Iunes

Criadores e equipe convidam público a colaborar com o financiamento coletivo para a peça de Ronaldo Lima Lins retornar, em nova temporada, no Teatro Ziembinski, no Rio

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Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot
Peça de Ronaldo Lima Lins, dirigida por Theotonio de Paiva
Reestreia dia 9 de julho | Teatro Municipal Ziembinski
End: Rua Heitor Beltrão, s/no – Metrô São Francisco Xavier
Tel. (21) 3234.2003
Dias: 9, 16, 23 e 30 de julho de 2017
Horários: 19h30
Duração: 80 min
Valor do ingresso: 40 (inteira) 20 (meia) 15 (lista amiga)
Para apoiar, acesse aqui 

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Uma nova temporada de um espetáculo teatral, montado com financiamento coletivo, é a proposta da equipe de Jacques e a Revolução, ou Como o criado aprendeu as lições de Diderot. O êxito da peça é o que levou seus realizadores a pedir a colaboração do público para que ela volte aos palcos cariocas, em julho, desta vez no Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca.

Durante dois meses, Jacques e a Revolução foi apresentada com grande sucesso em Lonas e Arenas Culturais – equipamentos disponibilizados pela prefeitura para apresentação de espetáculos culturais nas periferias cariocas. O mesmo sucesso de crítica e público foi alcançado na temporada do Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, no tradicional bairro de Santa Teresa, em maio.

“O financiamento coletivo para a nova temporada do Jacques e a Revolução destina-se a cobrir custos da montagem, reciclagem de material e pagamento de atores e criadores do espetáculo”, explica o dramaturgo Theotonio de Paiva, diretor do espetáculo. “O teatro é público e tem a infraestrutura necessária.” O financiamento é de 8 mil reais, e na página do Catarse é possível conhecer melhor o projeto.

A peça

“É por natureza que a maioria dos seres comanda ou obedece”, propugnava Aristóteles em sua Política. E esta dicotomia – dominados e submissos – capaz de colocar uns acima e outros abaixo, feitores e escravos, patrões e criados, maridos autoritários e mulheres ‘domesticadas’, sexualidades passivas ou ativas, torturadores ou vítimas, continua como uma marca cínica do processo evolutivo civilizatório.”

Assim tem início a crítica da peça Jacques e a Revolução escrita por Wagner Correa de Araújo. E termina: “Quem é mais digno de pena? O que bate ou o que apanha?”…

A peça não se passa em nenhum lugar específico – o mundo está em foco. Desenrola-se através do diálogo entre dois personagens: o patrão, um empresário, e seu empregado Jacques, numa conversa que os coloca em confrontos bem humorados.

Apesar de escrito no início do processo de democratização do país, em 1989, à época da queda do muro de Berlim, o texto dialoga intensamente com os tempos que correm. É como se estivéssemos diante de uma espécie de expressão premonitória das sucessivas crises hegemônicas e representativa dos poderes.

Foi escrita na esteira das comemorações de 200 anos da revolução de 1789, espelhando-se na obra de Diderot Jacques o Fatalista e o Seu Amo, dos anos de aproximação da Revolução Francesa, como em 1971 havia feito o escritor Milan Kundera com Jacques e Seu Amo. O texto guarda proximidade, ainda, na relação entre patrão e empregado, com a comédia política O Senhor Puntila e Seu Criado Matti de Bertolt Brecht.

Para examinar um conjunto de ideias delineadas pelo iluminista francês, a peça reinaugura questões antigas na dinâmica dos últimos séculos da modernidade.
O “tema da viagem”, conforme aparece em Diderot, aqui se concentra num único eixo, no coração de um império econômico, metáfora do próprio sistema. Nessa condição, Jacques e o Empresário passam em revista as suas próprias histórias, ambições e derrotas.

Somos colocados diante de uma dialética envolvendo dominador e dominado, na qual há trânsito e alternância de posições. Quem estava por baixo vê-se por cima e vice-versa.

A direção de Theotonio de Paiva acentua esse jogo de espelhos, numa encenação que exercita o poder da síntese, ao trabalhar com dois naipes de personagens: dois homens e duas mulheres. Essa composição permite revelar mais claramente o jogo presente no próprio texto, favorecendo a construção dramático-narrativa entre atores e público.

A peça recebeu o Prêmio Maurício Távora – 1989 / Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, e foi contemplado com o Viva a Arte!, da Prefeitura do Rio /Secretaria Municipal de Cultura. No decorrer de 2016 foi encenada em diversas Lonas e Arenas Culturais, para público dos bairros cariocas. Em outubro realizou temporada no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, com sucesso de crítica e público.

Ficha Técnica
Direção – Theotonio de Paiva
Elenco – Abílio Ramos, Ana Luiza Accioly, Katia Iunes e Luiz Washington.
Trilha sonora original – Caio Cezar e Christiano Sauer criaram a da peça.
Direção de arte – Marianna Ladeira e Thaís Simões assinam a e Carmen Luz a Direção de movimento – Carmen Luz
Iluminação – Renato Machado
Designer gráfico – Nicholas Martins
Fotos – MarQo Rocha e Flávia Fafiães
Assessoria de Imprensa: Monica Riani
Direção de produção – Katia Iunes
Realização – Todo o Mundo Cia de Teatro
Produção – Nonada – Arte e cultura contemporânea.

Facebook://www.facebook.com/jacquesearevolucao/

SP debate estado de exceção, investida da direita e alternativas à esquerda

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Salão do Livro Político começa hoje, no teatro da PUC-SP, um dos palcos de resistência democrática na ditadura. Evento trará Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Reginaldo Nasser, Ciro Gomes e muitos outros

Por Célia Demarchi

O Salão do Livro Político, organizado por um grupo de editoras independentes de esquerda, chega à sua terceira edição. Este ano será realizado no Tucarena, teatro ligado à PUC-SP. A Universidade e seu teatro tiveram um papel importante na democratização do país: confrontaram a ditadura abrigando intelectuais perseguidos pelo regime, como Paulo Freire e Florestan Fernandes, como também foram um dos palcos que ousou exercer a democracia nos anos de chumbo — quando escolheram na sua primeira eleição, em 1977, por votos diretos a reitora Nadir Kfouri. Em retaliação, a repressão tentou destruir o teatro, incendiando-o 3 vezes.

Mesmo assim, a chama democrática continuou acesa e brilha até hoje. Como nos anos anteriores, o Salão terá uma programação extensa que perpassa os temas sociais e políticos mais candentes da atualidade. Da gravidade da atual crise política brasileira aos ciclos de poder na América Latina. Da resistência indígena à revolução em curso das mulheres e à questão dos refugiados. Da pertinência de falar sobre Marx e o marxismo hoje à discussão dos 100 anos da Revolução Russa e da primeira greve geral no Brasil. Da proposta de privatização de bibliotecas às perspectivas do mercado editorial. Tudo intercalado com uma diversificada programação cultural.

Entre os convidados já confirmados estão: Dilma Rousseff, Ciro Gomes, Boaventura de Souza Santos, Maria Rita Kehl, Roberto Schwarz, Amelinha Telles, Eleonora Menicucci, Pedro Serrano, Fabio Luis Barbosa dos Santos e Pedro Fassoni, Rafael Valim, Reginaldo Nasser, Tércio Redondo, Antonio Rago Filho, Lidiane Soares Rodrigues, João Quartim de Moraes, José Arthur Giannotti e Osvaldo Coggiola. Veja todos os convidados aqui. Continuar lendo

Existirmos – a que será que se destina?

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Nova peça de Nelson Baskerville sugere, na forma de um jogo teatral denso e imprevisível, que não é suportável viver sem sentido

Por Simone Paz Hernández


MAIS:
A Vida, de Nelson Baskerville
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e (hoje) 2 de junho a 9 de julho
Sextas às 21 | Sábados às 20h | Domingos às 18h
Ingressos: de R$7,50 a R$25,00
(também pela internet)
SESC Santo Amaro
Rua Amador Bueno, 505 (mapa) – São Paulo – Metrô Largo Treze (650m)

Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca”
Milan Kundera

A experiência inicial, como primeira janela ao espetáculo, é de um cenário velado, coberto por tule branco, como névoa em um sonho. A Vida não se deixa ver de forma nítida, porque a vida é nebulosa desde o nascimento.

A impressão é de que só veremos a vida, numa visão completa e panorâmica, depois que ela acabar. Estando dentro dela tudo é muito confuso, rocambolesco e surreal – e sim, é ela que imita a arte.

Mas a vida só é vida graças a uma sucessão de mortes. Neste ponto, precisamos entender que só seguimos vivendo porque deixamos pedaços de nós morrerem; e que para nossa evolução, é preciso desapegar de faces que não nos pertencem mais. Ao mesmo tempo, refiro-me à peça A Vida, do aclamado diretor Nelson Baskerville (Luis Antônio-Gabriela), que brinca de forma astuta com o necessário exercício do teatro e com a morte de cada cena.

No teatro existem os inevitáveis nascimento e morte, que trazem, a cada encontro com o público, a surpresa, o inesperado. É isto o que torna cada apresentação uma “vida” única, sem repetição e sem registros.

Em A Vida, Baskerville não só utiliza esta condição do teatro a seu favor, como potencializa a experiência por meio de um jogo de probabilidades, a partir de uma roleta composta por várias fases e 27 possíveis cenas, resultando sempre numa peça diferente para o público, por contar com milhares de combinações possíveis. Quase um cortazariano Jogo da Amarelinha nos palcos. Porém, em A Vida o principal ator é o acaso ou a sorte, nenhum mortal possui as rédeas da trama, nem o poder de definir o que virá na sequência. Ao não poderem escolher com precisão qual será a próxima cena, giram a roleta para que a magia continue acontecendo.

A partir dos traumas e dores pessoais de cada ator e do diretor, o texto perambula entre realidade e ficção – nunca saberemos o que é autobiográfico e o que pertence ao plano do delírio – e entre a leveza de sua estética que remete a shows populares de televisão e a cassinos versus o peso das histórias encenadas.

A cada fase, a vida vai ficando mais densa e a carga mais pesada.

Mas o que é o peso, se não o que nos aproxima do verdadeiro? Como bem definiu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser: “O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.”

O mundo superficial do espetáculo encontra-se com as angústias mais cotidianas possíveis, e que, por isso mesmo, nos afetam e socam o estômago. A morte de nossas vontades porque ninguém quer ouvir-nos, a morte do desejo e do corpo por causa de uma violação, a morte de um animal, a morte de um ser querido, a morte de um grande amor. Mortes e mais mortes, a cada segundo, compõem o motor que nos impulsiona.

A Vida é uma verdadeira homenagem ao teatro, por escancarar como ele é uma metáfora da existência humana, onde simplesmente entramos em cena, sem saber o que virá. É também uma homenagem à dor e à delícia de viver, é filosofia para encarar cicatrizes na alma como vitórias, afinal de contas, Vinícius de Moraes já cantava: “porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.

As referências passam por Nietzsche e Violeta Parra, mas A Vida é, sobretudo, um trabalho raro na cena teatral brasileira, por ir na contramão daquilo que estamos cansados de ver: clássicos reencenados e o trabalho muitas vezes vazio de grupos experimentais. Nelson Baskerville volta aos palcos afiado e vanguardista, e encarnando um Tennessee Williams contemporâneo e brasileiro, ao fazer, novamente, a verdade parecer mentira e a arte nos salvar do terrível.

CRISE EM BRASÍLIA — Boulos: é preciso continuar nas ruas

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“Precisamos de eleições gerais, para o povo definir os rumos desse país”, diz ele — que compara decreto de Temer à tentativa de um AI-5

Para líder do MTST, governo abriu um abismo entre seu governo e sociedade; repressão foi brutal e covarde, comandada pelo general Etchegoyen, sobrinho de torturador da ditadura militar. “Não me lembro desde o fim da ditadura militar se isso aconteceu nos últimos 35 anos”, acrescentou. Boulos conclama novas mobilizações: “tem que ter eleições gerais já, para o povo definir os rumos desse país, chamamos todos a ocuparem as ruas”.

 

Mostra apresenta Jerzy Skolimowski, cineasta original

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“A Classe Operária”, com Jeremy Irons, é um dos filmes presentes na Mostra

Sátira ao stalinismo e ao conformismo polonês custou censura e exílio de mais de vinte anos ao cineasta — colaborador de Polansky e Wadja e uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague


“O cinema de Jerzy Skolimowski”
De 24 de maio a 12 de junho de 2017
CCBB São Paulo
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) | 5,00 (meia)
Veja programação completa ao final do post

Ele é pouco conhecido no Brasil, embora tenha colaborado com cineastas poloneses que encontraram grande público por aqui, como Andrzjev Wajda e Roman Polanski – com este, colaborou no roteiro de Faca na água, uma das obras-primas do cinema internacional e tremendo sucesso no país nos anos 1960. Mas agora os paulistanos poderão entrar em contato com a obra de Jerzy Skolimowski, uma das vozes mais originais da Nouvelle Vague polonesa ainda em atividade. A mostra “O cinema de Jerzy Skolimowski” exibirá 19 filmes do cineasta, entre curtas e longas-metragens, a maioria inédita no país, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo entre 24 de maio e 12 de junho.

O impulso de renovação trazido pelos assim chamados cinemas novos nos anos 1960 conjugava invenção formal, engajamento político e afirmação de um estilo particular. Esse impulso se manifestou em toda parte, da Europa ocidental à América Latina, e não foi diferente na Europa do Leste, sobretudo na Tchecoslováquia e na Polônia, de cujo cinema novo Jerzy Skolimowski emergiu como o cineasta mais emblemático e original. Em razão da multiplicidade de seus talentos – de poeta, pintor, roteirista, boxeador, dramaturgo e ator – e da contínua transformação de seu cinema face às circunstâncias práticas e políticas, Skolimowski construiu uma filmografia cujo estilo é de difícil classificação. Seus filmes se caracterizam pela vitalidade das encenações, amparadas no uso da improvisação. Seu cinema é sobretudo físico, movido pelas ações e gestos intempestivos dos personagens, sublinhados pela invenção na montagem.

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Moysés Pinto Neto: Esquecer a esquerda

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“Desde 2013, lulismo descaracterizou-se — mas seus apoiadores tornaram-se, paradoxalmente, cada vez mais sectários. Precisamos do contrário: propor transformações muito efetivas na vida da maioria, sem exigir credenciais”

Por Moysés Pinto Neto


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Vejo que há um redemoinho que suga a maior parte das energias políticas para falsas questões. Por exemplo, a questão da esquerda. “Quem é de esquerda? Qual a esquerda legítima? Como unir a esquerda?” E se o problema não for a resposta, e sim a pergunta? E se, em vez de construir um campo de força dentro da dinâmica política, está-se pensando o que precisa ser feito em termos de “quem pode frequentar o meu clube?”

Vou fazer um comentário bastante arriscado, mas me parece que é bem possível pensar que a mudança no cenário político, com a crise atual, se dá a partir da virada do primeiro lulismo para um segundo, sobretudo a partir de 2013, com as manifestações, e 2014, com as eleições. No primeiro cenário, a esquerda discursava como centro, no máximo centro-esquerda, mas promovia efetivas transformações sociais. Qual foi o principal símbolo do sucesso do lulismo? O Bolsa-Família, política que muitos nem associavam à esquerda. O Bolsa-Família foi defendido de um modo muito simples e banal: todo mundo precisa comer, independentemente de qualquer coisa. Isso convence qualquer um. E assim foi com uma série de outras questões. Continuar lendo

Casé Angatu: “Nossas vidas opõem-se ao capitalismo”

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“A luta indígena é também a luta por uma nova sociedade que já carregamos naturalmente em nossos corpos, anga (alma) e resistência. É o que podemos oferecer aos movimentos sociais”

Por Casé Angatu


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Nossos anciões ensinam que é bom sonhar, mesmo quando estamos acordados. Estes sonhos oferecem força e horizonte (perspectiva) à nossa luta de resistência, que já dura mais de 500 anos. Uma luta, acima de tudo, ritual e sagrada. É a luta pelo Território onde moram os Ancestrais e as/os Encantadas/Encantados da natureza. Como costumamos dizer: “não éramos e nem somos donos da terras … somos a própria terra”. Esta é a energia vital que nos faz resistir há cinco séculos contínuos de genocídios e etnocídio.

O Índio, em sua natureza profunda, mesmo quando violada pelas tentativas de etnocídio, carrega o sentimento de desejar a terra não como propriedade, mercadoria e para exploração de riquezas. Sentimos que este é um dos significados mais profundos da luta e dos sonhos indígenas, que também podemos chamar de utopia: o desejo pelo Território para nele vivermos e compartilharmos com os de anga (alma) livre.

Nossos corpos, rituais, cosmologias e formas de viver são, em conjunto, natural e espontaneamente uma oposição ao capitalismo e um incômodo ao seu estado, que precisa nos negar direitos e combater. Os donos do poder econômico negam há mais de 500 anos o nosso Direito Congênito e Natural ao Território. Recusam também nossa autonomia enquanto Povos. Mesmo a própria Constituição de 1988, apesar de avançar no sentido de não mais nos encarar como em extinção, em seus artigos 231 e 232 não oferecem garantias definitivas à demarcação de nossos Territórios e à nossa autonomia.

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Paulo Kliass: Conservar a unidade, sem esquecer autocrítica

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“Estamos pagando hoje o preço do abandono do trabalho popular e de massas, que foi substituído pela ilusão de ter chegado aos postos da máquina do governo federal”

Por Paulo Kliass


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Estamos a um ano da operação de impedimento de Dilma Rousseff. A consolidação do golpeachment e o período que se seguiu apenas vieram a confirmar uma tendência de aprofundamento autoritário dos grupos que se apropriaram de forma ilegítima do governo federal.

A continuidade da política do austericídio, no entanto, só fez aumentar ainda mais a impopularidade de Michel Temer junto à maioria da população. Além disso, confirmou-se a falácia de que bastaria tirar Dilma para que o espetáculo do crescimento tivesse início. O desemprego é fenomenal, a falência de empresas é generalizada e a crise socioeconômica reduz as margens de manobra do governo no interior de sua própria base aliada no Congresso Nacional.

O sucesso da greve geral de 28 de abril abre uma nova fase na luta contra as medidas de desmonte patrocinado pelo governo ilegítimo. O governo tem recuado a cada dia que passa em sua proposta inicial da “reforma” da Previdência na Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades para votar a “reforma” trabalhista no Senado Federal. Continuar lendo