É mais um corpo estendido no chão

170717_Manifestação contra a morte do catador Ricardo. Foto Marlene Bergamo, Folhapress 2

Amigos de Ricardo fazem ato no dia seguinte ao assassinato | Foto Marlene Bergamo

Amigos do carroceiro Ricardo — o Negão, executado pela polícia em São Paulo — convidam para celebração na Sé: “que sua morte dê voz e visibilidade às demais vítimas da violência policial no país”

Por Inês Castilho


Missa-manifestação na Catedral da Sé

Quarta-feira, 19.07, às 12 horas
Em memória do catador Ricardo Silva Nascimento, o Negão

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Ricardo Silva Nascimento, o Negão

A execução, por um policial militar, de um conhecido catador de lixo reciclável e morador de rua em Pinheiros, tradicional bairro de classe média na Zona Oeste de São Paulo, no entardecer da quarta-feira, dia 12, comoveu e revoltou os moradores do bairro e amplos setores da população paulistana. No dia seguinte, um ato de protesto reuniu no local uma pequena multidão, que rezou com cartazes de protesto em defesa da vítima.

“Esse não foi um caso isolado. Justiça, já!”, clamavam os manifestantes – moradores do bairro amigos de Ricardo, catadores, cidadãos. A carroça de Ricardo, pintada de branco, recebeu flores, velas acesas e retratos, e foi colocada na esquina das ruas Mourato Coelho e Navarro de Andrade. A silhueta do corpo, desenhada no asfalto, tinha manchas de tinta vermelha. Entre os presentes estava o padre Júlio Lancellotti, pároco da Igreja São Miguel Arcanjo e integrante da Pastoral Católica do Povo da Rua.

Dispostos a garantir que a “a morte do Ricardo dê voz e visibilidade às demais vítimas da violência policial no País”, um grupo de moradores do bairro e representantes de grupos mobilizados pelo acontecimento, além de jornalistas, carroceiros e pessoas que trabalham com o padre Lancelotti, programaram uma nova manifestação. Em encontro realizado no sábado, dia 15, decidiram convidar a população paulistana para a celebração de uma missa em homenagem a Ricardo na Catedral da Sé, às 12hs da próxima quarta-feira, dia 19, com a presença do Padre Julio Lancellotti, moradores do bairro, carroceiros e da população em geral.

“Queremos externar nossa indignação com a morte do Ricardo e ao mesmo tempo também com todas as demais mortes que vêm ocorrendo em circunstâncias semelhantes em todo país”, explica a jornalista Monica Soutelo, uma das organizadoras do ato.

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Velas e flores na manifestação | Foto: Lívia Machado

O CRIME

O crime, a sangue frio e com dois tiros no peito, foi seguido por irregularidades – como a retirada do corpo do local pelos próprios PMs, antes da perícia chegar; a violência contra as testemunhas que gravaram a cena; e o recolhimento das cápsulas das balas pelos policiais.

A polícia foi chamada por uma pizzaria – Pizza Prime, na esquina da Rua Mourato Coelho com Navarro de Andrade – onde Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, conhecido na vizinhança, teria ido pedir um pedaço de pizza e, maltratado pela atendente, a teria ameaçado com um pedaço de pau. Moradores estranham a versão, visto que Negão, como era conhecido, não costumava pedir comida mas sim lixo reciclável no comércio da região.

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O corpo de Ricardo estendido no chão

MISSA E MANIFESTAÇÃO

Na missa das 10h deste domingo na capela da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo, Padre Júlio Lancellotti convidou os presentes a manifestar repúdio à violência praticada contra o povo da rua participando da celebração em memória de Ricardo. “Foi uma ordem que a polícia recebeu, matou o Ricardo como matou o Leandro lá na favela do Moinho e tantos anônimos espalhados pela periferia.”

Padre Lancellotti apontou a importância das pessoas filmarem os abusos que veem na cidade, pois graças às gravações realizadas pelas testemunhas da execução de Ricardo foi possível saber o que ocorreu, rejeitando a versão da polícia. “Uma testemunha diz que filmou a ação do agente, mas teve o celular retirado por outros policiais, que apagaram as imagens. De acordo com o rapaz, os PMs chegaram a apontar uma arma para ele ao exigir o aparelho. Um senhor foi ferido na mão porque teve o celular arrancado. Mas alguns filmes escaparam.”

O padre adiantou o lançamento do programa Olhos da Rua, “para que quem vir algum ataque a catador ou morador de rua, seja do Rapa, seja da GCM ou da PM fotografe, filme e mande pra um número que vamos divulgar, de modo que nós todos possamos cuidar desse fenômeno que se espalha pelo mundo”. Com o crescimento da desigualdade, a população de rua está aumentando no mundo inteiro, lembra: “em São Paulo são mais de 20 mil, em Nova York 60 mil, em Los Angeles 40 mil. Em Roma o número também é grande, e o Papa Francisco criou uma lavanderia para atender os pobres e moradores de rua, um refeitório, hospedarias.”

TEXTO-FIM

Yanomamis: imagens que salvam

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Mulheres e crianças durante apresentação do estudo ISA/Fiocruz sobre contaminação de mercúrio pelo garimpo ilegal na TI Yanomami, região do Papiú

Povo indígena pede ajuda para fortalecer centro de audiovisual, usado nas lutas e reivindicações de suas comunidades no Amazonas

Por Inês Castilho | Imagem: Marcos Wesley / ISA

Os Yanomami da região amazônica sofrem há décadas com as invasões de suas terras pelo garimpo ilegal. Hoje, enfrentam a grave contaminação por mercúrio e outros metais pesados usados pelos garimpeiros em suas aldeias: algumas chegam a ter mais de 90% das pessoas contaminadas, conforme estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Instituto Socioambiental (ISA) realizado em 2016.

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Davi Kopenawa: “O ouro vem parar na avenida Paulista”

“Estamos tomando água poluída, de mercúrio. O povo yanomami vai sumir”, denunciou pela segunda vez na ONU, em abril, seu líder político e xamã Davi Kopenawa, autor de A queda do céu. Investigações indicam que o volume de negócios gerado pela venda do ouro ilegal foi de R$ 1 bilhão, entre 2013 e 2014, e vem sendo negociado na Ouro Minas DTVM, uma das principais distribuidoras de ouro no país, na sede da empresa, em São Paulo, e na filial em Rondônia, com o envolvimento de políticos e empresários. “Alguém financia os equipamentos, o combustível, os aviões, a alimentação dos garimpeiros”, diz o procurador Fábio Brito, do MPF de Roraima.

Sua arma de luta são as imagens. A campanha de financiamento coletivo Núcleo Audiovisual Xapono 2017 foi criada para fortalecer o “centro de produção, formação, discussão, reivindicação, luta e imaginação de e para os povos indígenas e yanomami” do Amazonas, em particular do rio Marauiá.

O Núcleo Audiovisual Xapono foi criado em 2016 por uma parceria entre a Associação Yanomami Kurikama, Rios Profundos, Fábrica de Cinema e Escola Xapomi. Graças à contribuição de mais de duzentas pessoas via campanha de financiamento coletivo, foi possível comprar equipamentos e realizar uma oficina de três semanas de introdução à produção e linguagem audiovisual.

Agora, querem consolidar o trabalho de produção, exibição e discussão audiovisual. “Queremos fazer do Núcleo Audiovisual Xapono um centro de produção, formação e discussão sobre vídeo e cinema como ferramentas de produção de narrativas de reivindicação, luta e imaginação, de e para os povos indígenas”, sustentam.

A meta da campanha é de 40 mil reais, incluindo a compra de equipamentos para ampliar os meios de produção do Núcleo Audiovisual Xapono e a realização de duas oficinas: a primeira durante 4 semanas, entre agosto e setembro, e a segunda de 3 semanas, em dezembro, com os profissionais Renato Batata, professor convidado do curso de Comunicação e Multimeios da PUC-SP, e Rodrigo Siqueira Arajeju, roteirista e diretor dos filmes Índio Cidadão?, Índios no Poder e Tekoha – som da terra, este em parceria com Valdelice Veron Kaiowa.

Parque Augusta, luta coletiva a um passo da vitória

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Um quarteirão livre de prédios no centro de S.Paulo, com a Mata Atlântica conservada, Um espaço público e autogestionado que começa a ser desenhado hoje, em fórum de debates durante todo o mês de julho

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Fórum Parque Augusta
Abertura hoje, 4 de julho, às 19 horas
Matilha Cultural, na rua Rego Freitas, 542 — São Paulo
Veja ao final programação completa
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Começa hoje o Fórum Parque Augusta, um mês inteiro de debates cujo objetivo é criar um sistema de autogestão para a implantação do Parque Augusta, uma área verde de 24 mil m² com reminiscências de Mata Atlântica no centro de São Paulo. O terreno, tombado pelo Patrimônio Histórico em 2004 e que abrigou o colégio feminino de elite Des Oiseaux e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, fica na região da rua Augusta, entre as ruas Caio Prado e Marquês de Paranaguá. O Fórum, aberto ao público, conta com a participação de “pesquisadores, acadêmicos, antiacadêmicos, especialistas e desespecialistas”, conforme os organizadores. Na abertura haverá uma apresentação do status legal do Parque e das negociações sobre o terreno, do processo coletivo de luta pela área e dos pesquisadores que acompanham o processo.

A criação de um parque público que conserve a Mata Atlântica ali restante é resultado de décadas de disputa entre os movimentos sociais e as últimas gestões municipais, contra a especulação imobiliária. Mobilizações festivas, “vigílias criativas”, ocupações artísticas, festas de rua e aulas públicas foram realizadas pelo movimento Organismo Parque Augusta, até que uma lei criando o Parque foi sancionada pelo prefeito Fernando Haddad, em 23 de dezembro de 2013. Dias depois, em 29 de dezembro, o parque foi lacrado ilegalmente por seus proprietários atuais, as construtoras Setin e Cyrela.

O valor da área estaria na época em torno de 70 milhões de reais, inviável para os cofres públicos. Os proprietários queriam privatizar o terreno, construindo torres em parte deles, e abrir o resto para o público. Diante da rejeição dos moradores da região e coletivos ativistas, cuja demanda é o parque sem prédios, público e sob autogestão, com desapropriação não onerosa do terreno, foi feito um acordo entre o Ministério Público, a prefeitura (já na gestão Dória) e os proprietários para que o terreno seja pago por meio da troca com outras áreas municipais.

“Diante da atual perspectiva de conseguirmos o Parque Augusta definitivamente sem prédios e através de muita pressão feita na atual gestão municipal, conseguimos que o projeto de implantação do parque augusta 100% seja desenvolvido pelo movimento Parque Augusta em conjunto com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente que será a responsável legal-burocrática desse processo”, afirma o Movimento Organismo Parque Augusta, que reúne os ativistas.

A luta
No decorrer da luta, o movimento ajudou a criar a Rede Novos Parques SP, que luta pela preservação e criação de outros parques em São Paulo, como o Parque dos Búfalos, na zona sul da cidade, e foram estabelecidos contatos com movimentos semelhantes dentro e fora do país: receberam a visita de ativistas do Parque Gezi, da Turquia, e entraram em diálogo com movimentos brasileiros como o Ocupe Estelita, de Pernambuco, o Ocupa Golfe, do Rio de Janeiro, e o Santuário dos Pajés, do Distrito Federal.

“O projeto comunitário para o Parque Augusta parte de um consenso fundamental que se estabeleceu a partir das ações que marcaram o desenvolvimento do movimento social pelo Parque Augusta sem prédios: a assimilação de que este parque é e deve permanecer um ícone da luta por uma nova sensibilidade social e urbana, a favor da prevalência da função social da propriedade em detrimento de seu uso privatista (que fomenta a especulação imobiliária e reforça o processo de gentrificação e de desigualdade social), ícone este que inclui a indignação com os rios que foram canalizados e soterrados sob ruas e avenidas durante o século 20, e o fomento à luta por novas formas de autogestão de espaços públicos/comuns (com gestão direta da comunidade plural que frequentam o respectivo imóvel, livre de empresas privadas e também, sempre o máximo que possível, do estado e suas terceirizações corruptíveis)” – afirma o movimento.

Programação

Julho
04/07 – ABERTURA – terça-feira às 19h na MATILHA CULTURAL (rua Rego Freitas, 542)
5 qua. montagem exposição (16h – Tapera Taperá)
6 qui. abertura da expo #parqueprocesso (19h – Tapera Taperá)
8 sáb. lua cheia
11 ter. conferências socius (19h – Tapera Taperá )
12 qua. mesa aberta povo de rua (19h – Tapera Taperá)
13 qui. oficina aberta urbanismo (18h – Tapera Taperá)
13–15. LAB Derivas (16h – na rua e no Tapera Taperá)
15 sáb. cinemata 
18 ter. conferências ambiente (19h – Tapera Taperá)
19 qua. oficina aberta tecnologia e autonomia (19h – Tapera Taperá)
20 qui. oficina aberta reflorestamento e água (19h – Tapera Taperá)
22 sáb. fim de semana em aberto
25 ter. conferências subjetividades (19h – Matilha Cultural)
26 qua. oficina aberta autogestão (19h – Tapera Taperá)
27 qui. oficina aberta arquitetura (19h – Tapera Taperá)
28 sex. última sexta livre
29 sáb. fim de semana rock’n (Parque dos Búfalos)

Agosto
1º ter. encerramentos • batucada

Tribunal Tiradentes julgará legitimidade do Congresso Nacional

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III Tribunal Tiradentes condenou Lei da Anistia, que protegeu os torturadores, na PUC-SP, em 2014

Deputados e senadores envolvidos em múltiplos crimes de corrupção podem pisar sobre os direitos sociais? Inspirada no Tribunal Russel, iniciativa examinará Legislativo e reafirma postura altiva da CNBB

Por Inês Castilho
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IV TRIBUNAL TIRADENTES

Em16 de agosto de 2017 — Brasília
(a confirmar)
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Qual a representatividade da maioria parlamentar do Congresso Nacional, hoje? Qual sua legitimidade para, em nome do povo brasileiro, impor reformas não discutidas pela sociedade e a desconstrução de direitos estabelecidos pela Constituição de 1988? Essas são as questões que estarão em julgamento no IV Tribunal Tiradentes, a ser realizado em Brasília no próximo agosto.

Organizado pela Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – que tem à frente Carlos Moura, referência da luta pela igualdade racial no Brasil –, a iniciativa pretende ajudar a conscientizar os eleitores sobre a necessidade de que o Parlamento represente de fato a população em nome da qual, numa democracia, legisla sobre as normas de vida coletiva e fiscaliza as ações do governo.

A CBJP solicitará o apoio das Comissões Justiça e Paz de todo o Brasil para a organização de amplo acompanhamento da sessão do Tribunal pela internet, em suas cidades. Várias instituições da sociedade civil e movimentos sociais, como a CNBB e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), estão sendo consultadas para constituir um corpo de entidades apoiadoras. Espera-se que reitores de universidades e diretores de escolas secundárias também estimulem estudantes e comunidades populares a acompanhar a sessão do Tribunal.

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Por um MTST ainda mais esperto

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Integrantes do movimento acampados na Paulista comemoram uma vitória, em 8 de março de 2017

Conhecidos pela radicalidade de sua luta e profundo trabalho de base, sem-teto precisam de recursos para manter e ampliar esforço de formação política. Contribua até amanhã!

Por Inês Castilho

O MTST está pedindo colaboração para sua campanha de financiamento coletivo, no valor de 40 mil reais, com o objetivo de reconstruir o Centro de Formação de militantes em São Paulo. A dois dias do final da jornada, o movimento já arrecadou 75% do total, mas ainda faltam cerca de 10 mil reais para atingir o valor necessário.

O centro de convivência e formação do MTST é um amplo barracão localizado junto à sede, em Taboão da Serra, onde se realizam formações políticas, reuniões, assembleias e cursinhos populares para a juventude. No último período de chuvas, a estrutura e o telhado do barracão ficaram danificados.

Em estudos realizados junto a arquitetos que colaboram com o movimento, chegou-se à conclusão de que a escolha mais ecológica e econômica seria o telhado verde, “É uma alternativa sustentável que une a luta por moradia à luta pelo meio ambiente”, diz Guilherme Boulos, da coordenação nacional.

O movimento

MTST, a luta é pra valer. Com esse grito de guerra, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, 20 anos de luta nas periferias urbanas de 12 estados brasileiros, tem marcado presença nas principais manifestações populares ocorridas no país.

Estavam entre os milhares de manifestantes que marcharam até o Congresso Nacional em Brasília, no dia 24 de maio, em protesto às contrarreformas Trabalhista e da Previdência, e em defesa das eleições diretas antecipadas para a presidência. Em outro exemplo de ousadia e coragem, acamparam durante 22 dias numa das esquinas mais nobres da capital paulista, a da avenida Paulista com rua Augusta. “Queremos a liberação das contratações do programa Minha Casa Minha Vida na faixa 1 (famílias com renda mensal de até R$ 1,8 mil), suspensas desde o começo do governo Temer”, disse Boulos na ocasião. Conseguiram.

O MTST integra a Frente Povo Sem Medo, composta por mais de 30 movimentos nacionais. Luta por moradia digna, pelo direito à cidade e por transformações profundas na sociedade brasileira. É um dos movimentos sociais mais importantes, hoje, de uma esquerda que procura reinventar-se.

As informações sobre a campanha e forma de contribuir podem ser encontradas aqui.

Seriam os evangélicos novos ativistas digitais?

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Forte presença na política brasileira, pentecostais são agora protagonistas nas redes sociais. Despertam controvérsias. Pesquisadora sustenta: nem todos são conservadores, ao contrário do que se pensa

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“Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital”
De Magali do Nascimento Cunha, Editora Prismas
Pré-lançamento, via internet, em 19/06, às 20h, ao vivo, aqui
Lançamentos em agosto e setembro

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A presença dos evangélicos na sociedade e na política aumentou significativamente no país, nas últimas décadas. Nas mídias sociais, sua visibilidade como ativistas políticos surge especialmente a partir de 2010. Contudo, ao contrário do que se imagina, eles não são um grupo uniforme, e sim um segmento formado por uma variedade de grupos, de distintas origens, práticas e doutrinas, com diferentes posturas e projetos no campo político.

Mais abertas à participação pública, as mídias digitais deixam clara esta diversidade, negada pelas grandes mídias – afirma Magali do Nascimento Cunha, professora da Universidade Metodista de São Paulo, que está lançando o livro Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital. “O conservadorismo, marca com que esse segmento religioso foi estabelecido no Brasil a partir do século 19, é intenso nas redes. Mas grupos progressistas também fazem parte do mosaico que compõe a diversidade evangélica no Brasil e encontram nas mídias sociais um espaço de expressão que os tira da periferia do segmento e da invisibilidade que lhes é destinada pelas grandes mídias religiosas e não-religiosas. Estes são os grupos que mais merecem atenção nesta atual dinâmica da presença dos evangélicos na política”, afirma a autora.

Por meio de pesquisa no Facebook e no Twitter, Magali levantou os perfis mais atuantes entre ativistas digitais evangélicos e traçou um quadro com suas características em termos de influência nas mídias. “Não é mais possível ignorar o lugar das subjetividades e de práticas coletivas delas decorrentes, como as religiões, na construção de novas formas de reação às demandas tão diversas e plurais na contemporaneidade. E aí está incluída a esfera política”, afirma.

“A presença de evangélicos e de outros grupos religiosos na arena política é parte da dinâmica democrática, e por isso não deve ser criticada com a alegação de que o Brasil é um Estado laico”. Estado laico não é sinônimo de Estado ateu, lembra ela. “Um Estado laico deve ser espaço de liberdade de crença, o que significa espaço para a manifestação pública dos que têm algum tipo de crença e dos que não têm.”

Do púlpito às mídias sociais. Evangélicos na política e ativismo digital trabalha na interface entre as áreas de mídia-religião-política e pode ser um ponto de partida para novas pesquisas que aprofundem a dinâmica da presença religiosa na esfera pública do Brasil de hoje. Magali do Nascimento Cunha é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) (Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura/MIRE), com estágio pós-doutoral em Comunicação e Política pela Universidade Federal da Bahia.

Sobre golpes e atos falhos

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Eles queriam mesmo era afastar a presidenta. Mas o impiche tão descarado foi, foi se revelando tão deslavado golpe, que de vergonha, tadinhos, se precipitaram a demolir a Constituição

Por Airton Paschoa

Era só esperar 18 que não precisava nem de campanha. A oposição levava por aclamação, e sabia disso. O governo Dilma (reeleito raspando, bom lembrar) caminhava do desastroso pro catastrófico. Então por que o golpe? Demolir a Constituição de 88, sim, mas isso foi pensado a posteriori… até porque o que estão fazendo se podia fazer após a eleição, e com a legitimidade do voto. Medo do Lula? Mas o Lula, na hipótese remota de ganhar depois da catástrofe Dilma e da campanha sistemática de destruição do PT, podia até legitimar a reforma da previdência, da CLT etc., com nova epístola ao povo brasileiro.

O golpe, na verdade, sucesso à parte, foi um grande ato falho. Talvez o maior da nossa história, o mais revelador. Eles só queriam afastar uma presidenta empedernida, politicamente inábil. E, não podendo esperar, pedalaram um impiche. Mas o impiche tão descarado foi, foi se revelando tão deslavado golpe, que de vergonha, tadinhos, se precipitaram a demolir a “Cidadã”.

Então iam admitir a incapacidade congênita de conviver com a democracia? Eis o ato falho histórico. Não queriam nada disso, civilizados que são, e sempre foram, aliás, com a ideia sempre no lugar. Por isso os compreendo, e tenho até pena deles. O que não faz a vergonha! Não era nada disso, nada disso…

CRISE EM BRASÍLIA — Protestos também no Rio

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Policiais militares revistam as pessoas que passam perto da Alerj

Manifestantes rejeitam pacote imposto pelo governo federal, que elimina direitos e eleva contribuição previdenciária

Servidores públicos cariocas protestaram esta tarde diante da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) contra a aprovação do aumento da contribuição previdenciária do servidor público do estado.

Os manifestantes foram reprimidos pela PM e Força Nacional, com bombas de gás lacrimogênio e tiros de balas de borracha, defendendo-se com pedras e barricadas.

Com 39 votos a favor e 26 contra, o projeto aumenta a alíquota da contribuição previdenciária dos servidores de 11% para 14%. A sessão foi presidida pelo deputado Jorge Picciani (PMDB), que recusou todos os pedidos de questão de ordem e apressou a votação.

O projeto aprovado também prevê aumento de 21% para 28% da contribuição dos poderes legislativo, judiciário, Ministério Público e Tribunal de Contas.

A estranha invasão da Unesp em Marília

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Assembleia no campus da Unesp-Marília, há um ano. Policiais parecem interessados em evitar mobilizações como esta

PMs entram no campus, intimidam, insultam e destroem cartazes durante assembleia estudantil. Diante da resistência, retrocedem

Um texto da Diretoria Central da Adunesp

Em meio a uma grave conjuntura política nacional de ataques contra os direitos democráticos assegurados pela Constituição, nas últimas horas do dia 8 de maio, sob o pretexto de estar realizando um patrulhamento ostensivo nas imediações, uma viatura da Polícia Militar invadiu o campus universitário da Unesp de Marília, causando um enorme tumulto envolvendo estudantes, servidores técnico-administrativos e docentes, que estavam ali presentes. De modo absolutamente intimidador, os policiais dirigiram insultos de caráter político-ideológico contra os docentes que tentavam mediar a situação. Por diversas vezes ameaçaram prender estudantes reunidos em razão de uma assembleia, sob o pretexto de estarem fazendo uso de entorpecentes. Cartazes chegaram a ser destruídos pelos policiais, segundo relatos de estudantes.

O reforço de uma segunda viatura chegou a ser acionado. Indagados sobre a ausência de qualquer solicitação formal realizada pela direção da unidade, afirmaram repetidas vezes, e diante da figura do próprio diretor da unidade, que poderiam adentrar o espaço da universidade quando bem entendessem. Sob a alegação de estarem cumprindo ordens de uma instância superior, os policiais recusavam-se intransigentemente a se retirar do local, ainda que inexistisse, naquele momento, motivo algum para a sua presença no Campus. Sob forte manifestação dos estudantes, os policiais impunham como condição para a retirada da viatura o silenciamento dos gritos de protesto e a dispersão dos manifestantes, o que evidentemente não aconteceu. Continuar lendo

A perigosa tentação do meio ambiente sem gente

O caboclo Darci Sant’Ana, condenado por fazer duas roças em seu território ancestral, é símbolo do desrespeito aos direitos do povos tradicionais em nome de uma falsa proteção ambiental

“Somos caboclos, nosso território é a floresta Atlântica, no Alto Vale do Ribeira. Nossa cultura é criminalizada pelas instituições públicas do estado de São Paulo por produzirmos nossa vida.”

Assim afirma a petição pela absolvição de Darci Sant’Ana, vice-presidente da Associação das Comunidades Caboclas do Bairro Ribeirão dos Camargo, em Iporanga (SP), no Alto Vale do Ribeira. Darci é símbolo da criminalização dessas comunidades. Nascido e criado no sítio Sete Quedas, sem estrada e sem luz, que o pai herdou do avô e ele do pai, e onde vive com a mãe ainda viva, Darci foi condenado por ter realizado duas roças coivaras em seu território ancestral.

“A lei é muito clara, ela deixa o direito desses povos fazerem a roça da forma tradicional, que é a roça de coivara, a roça de corte e queima. O SNUC permite isso, a Lei da Mata Atlântica  permite isso”, afirma Raquel Pasinato, coordenadora do Programa Vale do Ribeira do ISA (Instituto Socioambiental).

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