Sobre Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é jornalista, pesquisador, mestre em Educação Física e doutorando em saúde coletiva pela Unicamp.

Hannah Arendt e o elogio da ação

Só a ação é prerrogativa exclusive do homem”, escreve a filósofa: “nem um animal nem um deus é capaz de ação, e só a ação depende inteiramente da constante presença de outros”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[Abertura do capítulo  “As esferas pública e privada — O homem: animal social ou político”, da obra “A Condição Humana”. Disponível na internet ou, em versão impressa, na rede de sebos Estante Virtual]

TEXTO-FIM

Aldous Huxley pergunta: “Seres humanos ou meros cidadãos”?

O autor de Admirável Mundo Novo contraria o senso comum e alfineta: A educação e a sociedade industrial buscam apenas “qualidades socialmente valiosas”. Porém, “quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, homens imperfeitos e depois homens indesejáveis”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado?


Trecho da obra Sobre a Democracia e outros Estudos, de Aldous Huxley. Edições em português esgotadas. Disponível em sebos em todo o país (consulte aqui)

“A educação atual e as atuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.

“A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O atual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentámos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.

 

Outras Manhãs: Galeano zomba dos procuradores de Deus

O Corão, que condena o álcool e o adultério na Terra, promete belas virgens e vinho no Jardim das Delícias. A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel

Curadoria e Narração: Alexandre Machado


“Notas do Além”, trecho do livro O Teatro do Bem e do Mal (L&PM pocket). A obra está disponível na internet (aqui) ou, no site da editoras, em versão impressa (R$ 16,90) e ebook (R$ 7)

A tradição islâmica proíbe tomar vinho na Terra, mas o Corão promete vinho incessante no Céu. O Corão, que condena o adultério na Terra, também promete belas virgens e gentis mancebos, disponíveis em quantidade, para o gozo eterno no Jardim das Delícias que aguarda os mortos virtuosos. A tradição católica, amiga do vinho no Aquém, não oferece vinho no Além, onde os eleitos de Deus serão submetidos a uma dieta de leite e mel. E segundo o ditame do Papa João Paulo II, no Paraíso os homens e as mulheres estarão juntos, mas “serão como irmãos”. Por influência da vida ultraterrena ou por outros motivos, há trezentos muçulmanos a mais do que os católicos. Mas quem conhece melhor o Céu não é muçulmano nem católico. O telepastor evangelista Billy Graham, cujas luzes orientam o presidente Bush nas trevas deste mundo, é o único ser humano que foi capaz de medir o reino de Deus. A Billy Graham Evangelistic Association, com sede em Minneapolis, revelou que o Paraíso mede mil e quinhentas milhas quadradas. No fim do século XX, uma pesquisa do Gallup indicou que oito de cada dez estadunidenses acreditam que os anjos existem. Um cientista do American Institute of Physics (College Park, Md) assegurou ser impossível que mais de dez anjos pudessem dançar ao mesmo tempo numa cabeça de alfinete, e dois colegas do Departamento de Física Aplicada na Universidade de Santiago de Compostela informaram que a temperatura do inferno é de 279 graus. Enquanto isso, o serviço de telecomunicações de Israel divulgou o número do fax de Deus (00972-25612222) e o endereço do site dele (www. kotelkam.com).

 

O Livro, por Jorge Luís Borges

Polêmico e genial, o escritor argentino — que morreu há trinta anos, quando nascia a internet — sustenta: “dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[Trechos do ensaio “O Livro”, parte da obra Borges Oral. O texto completo, no original em castelhano, pode ser lido aqui. Borges Oral foi publicado, no Brasil, no volume Oral & Sete Noites, traduzido por Heloisa Jahn e publicado pela Companhia das Letras. Pode ser encontrado aqui]

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Theodor Adorno e o triunfo da ignorância

Em tempos marcados por brutalidade, o filósofo alemão, expoente da Escola de Frankfurt, escreveu: os estúpidos “já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência” — porque “a debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida”.

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[Este é um trecho de Minima Moralia (1951). A obra completa está disponível (em formato digital) aqui. O livro, em português, é encontrado aqui].

As relações privadas entre os homens formam-se, parece, segundo o modelo do bottleneck (gargalo) industrial. Até na mais reduzida comunidade, o nível obedece ao do mais subalterno dos seus membros. Assim, quem na conversação fala de coisas fora do alcance de um só que seja comete uma falta de tato. O diálogo limita-se, por motivos de humanidade, ao mais chão, ao mais monótono e banal, quando na presença de um só “inumano”.

Desde que o mundo emudeceu o homem, tem razão o incapaz de argumentar. Não necessita mais do que ser pertinaz no seu interesse e na sua condição para prevalecer. Basta que o outro, num vão esforço para estabelecer contato, adote um tom argumentativo ou panfletário para se transformar na parte mais débil. Visto que o bottleneck não conhece nenhuma instância que vá além do factual, quando o pensamento e o discurso remetem forçosamente para semelhante instância, a inteligência torna-se ingenuidade, e isso até os imbecis entendem.

A conjura pelo positivo atua como uma força gravitatória, que tudo atrai para baixo. Mostra-se superior ao movimento que se lhe opõe, quando com ele já não entra em debate. O diferenciado que não quer passar inadvertido persiste numa atitude estrita de consideração para com todos os desconsiderados. Estes já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência. A debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida. O expediente formalisto–administrativo, a separação em compartimentos de tudo quanto pelo seu sentido é inseparável, a insistência fanática na opinião pessoal na ausência de qualquer fundamento, a prática, em suma, de reificar todo o traço da frustrada formação do eu, de se subtrair ao processo da experiência e de afirmar o “sou assim” como algo definitivo, é suficiente para conquistar posições inexpugnáveis. Pode estar-se seguro do acordo dos outros, igualmente deformados, como da vantagem própria. Na cínica reivindicação do defeito pessoal pulsa a suspeita de que o espírito objetivo, no estágio actual, liquida o subjetivo. Estão down to earth, como os antepassados zoológicos, antes de se alçarem sobre as patas traseiras”

Jean-Paul Sartre e a obsessão pelo futuro

Que se passa numa sociedade em que, além dos projetos e expectativas, os próprios gestos aparentemente gratuitos “só têm sentido se sua realização final é projetada para fora deles, fora de nós, no ainda-não”?

Curadoria e Narrração: Alexandre Machado

[Trecho de Situações I ]

“Tentai apreender a vossa consciência e sondai-a. Vereis que está vazia, só encontrareis nela o futuro. Nem sequer falo dos vossos projetos e expectativas: mas o próprio gesto que surpreendeis de passagem só tem sentido para vós se projetardes a sua realização final para fora dele, fora de vós, no ainda-não. Mesmo esta taça cujo fundo não se vê – que se poderia ver, que está no fim de um movimento que ainda não se fez -, esta folha branca cujo reverso está escondido (mas poderia virar-se a folha) e todos os objetos estáveis e sólidos que nos rodeiam ostentam as suas qualidades mais imediatas, mais densas, no futuro.

“O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?”

A Sociedade do Espetáculo, por Guy Debord

Em dois trechos de sua obra mais importante, o filósofo marxista rebelde comenta a degradação do “ser” em “ter” e, em seguida, em “parecer”. Ele também fustiga: “O espetáculo é herdeiro de toda a fraqueza do projeto filosófico ocidental”

Curadoria e Narração: Alexandre Machado

[A Sociedade do Espetáculo está disponível aqui]. A seguir, os trechos narrados: Continuar lendo