Humor: antídodo à violência e ao conformismo?


Maior forma política da História, a cidade é, também, o lugar em que surge a caricatura. Um seminário em Belo Horizonte debate os sentidos e possíveis papeis rebeldes do humor


MAIS
Veja também o Programa, conheça os Conferencistas e faça sua Inscrição no colóquio

A cidade e o humor

Para Paul Virilio a cidade é a maior forma política da história. É no mercado, local por excelência de encontro e da interseção de caminhos variados, que a caricatura surge na Itália. A cidade é por definição o lugar dos trajetos, lugar da organização do contato. Nessa direção a cidadania é para esse autor a organização dos trajetos entre os grupos, os homens. Se o ar da cidade torna os homens livres, a proximidade provoca a reserva externalizada pelo habitante da metrópole. E de acordo com Simmel, ‘“não é apenas a indiferença” a face interna dessa reserva exterior, mas, mais frequentemente do que nós temos consciência, uma secreta aversão, uma distância e uma rejeição recíprocas que, em caso de contato por razões quaisquer, degenerariam rapidamente em ódio e em conflito. Todo esse agenciamento interior de uma vida de trocas fortemente variadas, repousa sobre uma gama de indiferenças e aversões, sejam momentâneas, sejam duráveis.” (Simmel, p 23-24). Se o homem experimenta esses movimentos de atração e de repulsa, de sentimentos díspares, qual papel o humor desempenharia no agenciamento interior, na ecologia subjetiva (Guattari) do habitante da metrópole?

Seria o humor, dissimulado ou manifesto, uma das dimensões da liberdade de pensamento? Seria um dos meios de contornar ou de desviar-se da alienação? O humor (a ironia, o sarcasmo, a paródia), sua expressão visual (desenho de humor, caricatura), ou sonora (canção satírica), poderia jogar com a riqueza da língua para impedir ou modificar a aparição de relações de violência?

“Se o humor ataca o consenso, o conformismo, a rigidez e o sectarismo, ele instaura a distância face a si, uma distância que o consenso abole” (Sibony, p 184).

O humor e o(s) humor(es)

O humor com frequência associa a imagem com a parábola, ele revela a vivacidade do espírito e a acuidade de uma réplica, ele traduz a rapidez de julgamento pelo jogo de uma sacada, de uma graça ou de uma mistificação, ele reproduz um retrato rápido de situações e de posições, e mais ainda, ele toca em assuntos tabus que com frequência permanecem adormecidos atrás da consciência em vigília.

O humor pode ser indicado como um dos fatores essenciais na redução de situações de tensão. O humor foi com frequência usado para resistir às ordens dos poderosos e aflorou em palavras, canções e desenhos durante o período de ditaduras.

O humor se exprime de diversas formas. Por gestos ou palavras, desenhos ou montagens. A linguagem da caricatura ganha força, segundo seus historiadores e estudiosos (Le Men, Melot, Gombrich), desde que são tomadas medidas restritivas da liberdade de expressão, e da de imprensa. Na França, será a partir das leis de censura da imprensa que a caricatura se lança com força. Trata-se de fazer passar uma mensagem que indica a instabilidade ou a perenidade de todo poder, de toda hierarquia e ainda de lutar contra a interdição de figurar o poder pela imagem. A caricatura visa os discursos que tendem a naturalizar as relações de poder.

O humor diz respeito à comunicação, aos modos de subjetivação; ele aparece como uma relação móvel, efêmera, sutil, ao mesmo tempo que permanece aberto à multiplicidade de sentidos, e atua como estabilizador de sentido na comunicação. Ele permite lutar contra estereótipos. O humor propicia uma adesão do imaginário social que desvela a violência institucional, a exemplo da constituição de regras, tanto como da violência de estratégias sociais, à imagem de códigos de pertencimento e de exclusão.

Seja ele um traço ou uma expressão, silencioso ou sonoro, um grito ou uma canção, o humor não é inocente nem anódino. Ele desafia e interpela os automatismos, os gestos irrefletidos da vida cotidiana (Bergson, Simmel, Benjamin).

O humor pode surgir como um reflexo, mas com frequência ele é fruto de uma escolha. O humorista aposta em uma certa empatia, ainda que passageira, com o espectador, o auditor, o leitor, ele instila a supressão de mecanismos de defesa, pela surpresa, que acaba com um (só)riso.

O humor e a auto-derrisão

Para Freud, ir às raízes da infância do homem é mergulhar no inconsciente, “por isso o humorista suspende as inibições” (Freud). Ele trabalha com os mecanismos de defesa (Szafran, p 38). O humor também opera com a auto-derrisão e pode ser profilático na cura do medo de que outras pessoas possam rir de si.

O humor conduz a uma reflexão própria, na forma de autocrítica e de tomada de consciência, na forma de camuflagem da introspeção e exteriorização. O humor oferece a possibilidade de tomar distância em relação a si e ao outro, sem racionalização excessiva. Na auto-derrisão o distanciamento de si implica, primeiro, em uma capacidade de se desdobrar na ação, gesto e palavra reunidos e na relação com o outro. Ela desloca o olhar pois transforma o observado em ator de si, em uma espécie de unificação confortável. Sibony assinala “a perda sofrida e transmutada em perda simbólica que volta como um dom discreto, como o dom de um recuo.” (Sibony, p 165)

A auto-derrisão, a capacidade de rir de si, de autocriticar e de encenar finda por libertar o peso do julgamento do outro, o que permite antecipá-lo. Libera-se assim o corpo e o pensamento do fato real ou imaginário de ser alvo, paralisado pela carga da violência que é matéria do humor.

Em seu artigo sobre o Humor de 1928, Freud indica que com o humor opera-se a uma economia de afetos em uma situação difícil, ele expressa um tom de invulnerabilidade do eu que se afirma pela graça (plaisanterie). Para esse autor o humor tem a mesma raíz que o sonho. Segundo Freud, “aqueles que tem o dom do humor se beneficiam de um superego pleno de bondade e de consolação” (Freud, p , Szafran, p. 408).

Em um estudo consagrado às fontes da vergonha, Vincent De Gaulejac assinala que o humor constitui uma estratégia, um meio de escapar “dos processos de interiorização da vergonha” (Gaulejac: 2008, 267). [1]

“ ele conduz a jogar com as representações sociais, a colocar em cena as artimanhas do poder sem desafiá-lo frontalmente, a desvelar seus recursos de forma deslocada”. [2]

De Gaulejac toma o personagem de Charlie Chaplin para ilustrar “o trabalho de superação da vergonha pelo humor. O vagabundo é mestre, … submetido a múltiplas humilhações. Ele não denuncia a violência e, no entanto, ele não é resignado nem abatido, e é como se a vergonha não pudesse atingi-lo.” (idem, 268) E acrescenta enfim “De Molière a Charles Chaplin, de Cyrano de Bergerac a Coluche, os exemplos são numerosos de criadores que se liberaram da vergonha pelo riso. Eles encontram um meio de restaurar sua imagem e transformar pelo escárnio o desprezo e a estigmatização dos quais foram objeto” (ibidem, 267).

O humor e seus efeitos

Pode o humor se deslocar, sair da espiral de confrontação ou da ascenção da violência insidiosa de uma sociedade centrada nos valores do dogma do mercado? Permitiria afrontar a concorrência ilimitada induzida pela monetarização de si? Permitiria lutar contra as forças que esgarçam os laços sociais no neoliberalismo? Poderia produzir a inversão, a diminuição ou a neutralização da violência sentida e sofrida? Poderia ele contribuir à elaboração do vivido em experiência (W. Benjamin)? Poderia contribuir à elaboração de um eu mais flexível, ao mesmo tempo que inscrito na sociedade? Contribuiria para o prazer de ser contra a identidade rígida, machucada, ressentida ou conformista?

O humor supõe a distância em relação a uma emoção vivida, a uma situação inoportuna, a um discurso vexatório, e a um comportamento discriminatório. Diferentemente do choque, que é uma parada, uma suspensão, uma defesa que impede a elaboração da emoção pela memória, o humor seria uma espécie de jogo, uma exploração da riqueza do sentido, um trabalho lúdico de interpretação, e de imaginação.

Se a violência é uma relação, como se subtrair ao círculo vicioso que ela instaura? Como proceder à crítica da naturalização ou da banalização de relações de violências que opõem lugares e papéis fixos (por exemplo, a oposição vítima-algoz) para os indivíduos?

TEXTO-FIM

Uma ideia sobre “Humor: antídodo à violência e ao conformismo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *