Priscila Bertucci: Transformar nossos microcosmos

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“E somar esforços em torno das lutas que nos unem: contra o machismo, a homolesbotransfobia, o racismo, sexismo e a falta de acessos gerais da população empobrecida”

Por Priscila Bertucci*


Outras Palavras está indagando, a pessoas que pensam e lutam por Outro Brasil, que estratégias permitirão resgatar o país da crise (Leia a questão completa aqui e veja todas as respostas dos entrevistados aqui).

Penso que a corrupção no Brasil – e talvez em grande parte do mundo – seja algo que para além da política: está enraizada no peito, na cultura, na mente e no centro das relações entre as pessoas. E isso vem sendo cultivado há centenas de anos. Acho que a política está sendo, nesse momento histórico do Brasil, um espelho das relações que se dão cotidianamente em muitos e muitos âmbitos: a falta de uma postura ética e de coerência.

Também vejo polaridades espelhadas de um problema muito maior. E estas polaridades criam um fenômeno do “nós” e dos “outros”: são os “outros” no poder que são os corruptos (e não eu), os outros são, os políticos são, eu não… Então, quando nós temos o “nós” e os “outros”, temos divisões que criam tensões, geram agressividades, violências e dramas: tudo isso é o que estamos experienciando na vida privada e no cenário político do Brasil. Como se todos fôssemos absolutamente éticos quando se trata de atacar algo que não nos favorece e, quando nos favorece, vira o chamado “jeitinho brasileiro”.

Se existe um sentimento genuíno de um país diferente, vamos ter que fazer um mergulho interior, cada indivíduo, cada um de nós, no seu tempo, para tratar dessas sobras, ver e resolver nossa ganância e o nosso desejo de superioridade em relação a algo ou alguém. Vejo como uma grande chance: a luz está acesa para vermos (e quem sabe lidarmos com) a sujeira que sempre existiu.

Os movimentos sociais – todos eles que lutam por um país mais democrático e igualitário – têm que se unir. Criar uma onda consistente e coesa a fim de se infiltrar onde o poder político e econômico é materializado por tudo o que representa o patriarcado.

Os esforços devem ser concentrados em acharmos pautas que nos unem, e não brigar pelas nossas diferenças. E acredito que o que nos une é a luta contra o machismo, a homolesbotransfobia, o racismo, sexismo e a falta de acessos gerais da população empobrecida.

E também devemos nos empenhar em transformar nossos microcosmos, nossas relações mais nucleares, para que se crie um terreno fértil de consciência coletiva para que todos possam existir em suas potencialidades. E isso diz respeito à ação, muito para além dos discursos: praticar cotidianamente aquilo que é modelo para uma sociedade justa. E votar, sempre.

*Artista social, identifica-se como gênero queer e é fundador do [SSEX BBOX], projeto de justiça social em várias cidades do mundo.

TEXTO-FIM

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