No palco, a resistência cultural brasileira

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O lendário João Donato inaugura, nesta quinta, a Tupi or not Tupi

Na inauguração do espaço Tupi or not Tupi, os extraordinários João Donato e Arismar do Espírito Santo reafirmam refinamento e criatividade da tradição músical do país

“Estou na expectativa, bastante animado com o convite do Arismar para tocar nesse novo endereço em São Paulo” – a voz de João Donato soa entusiasmada ao telefone, do Rio de Janeiro.

O novo endereço é a casa de música Tupi or not Tupi, que será inaugurada nesta quinta, 16, com os geniais João Donato e Arismar do Espírito Santo. Uma rara oportunidade de ouvir ao vivo essas duas gerações de músicos de reconhecimento internacional, mágicos da resistente cultura brasileira.

João Donato começou ainda menino dedilhando os 120 baixos da sanfona. Passou pelo trombone e desaguou no piano. Nascido no então território do Acre, tornou-se pianista, compositor e arranjador incomum, com seu estilo de jazz progressivo e fusão com ritmos latinos. Seu guru harmônico, diz ele, é o impressionista francês Claude Debussy (1862-1918). “Durante muito tempo, João Donato foi um mito das internas da MPB. Gênio, desligado, louco, de tudo um pouco”, recorda o crítico musical Tarik de Souza.

Com quase 70 anos de carreira, foi um dos precursores da bossa-nova. Passou pela canção, o tropicalismo, o jazz, a música latina, e tocou com ou para todas as lendas da música brasileira – de Ary Barroso a João Gilberto, Vinícius de Moraes, Johnny Alf e Eumir Deudato –  e internacional  – de Astrud Gilberto e Sérgio Mendes a Mongo Santamaria, Tito Puente e Eddie Palmieri. Nos treze anos que viveu nos Estados Unidos, conquistou o reconhecimento dos melhores do jazz norte-americano. Entre suas composições mais conhecidas estão: “Amazonas”, “Lugar Comum”, “Simples Carinho”, “Até Quem Sabe” e “Nasci Para Bailar”.

Aos 82 anos, gravou no início de 2016 pelo Selo Sesc, em São Paulo, o disco “Donato Elétrico”, com músicas compostas em parceria com instrumentistas jovens, boa parte vinda do conjunto Bixiga 70. Em maio recebe nos Estados Unidos o “Lifetime Achievement Award”, na 20a edição do Brazilian International Press Award, na Flórida, e em seguida faz uma breve turnê pelos Estados Unidos. O ano lhe reserva ainda uma homenagem no Rock in Rio e a gravação de Sintetizamor, primeiro disco com o tecladista Donatinho, filho e parceiro na composição do repertório.

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O multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo

Arismar do Espírito Santo é outro capítulo à parte. Compositor e multi-instrumentista, toca contrabaixo, guitarra, violão, piano e bateria, e sua marca registrada são o ritmo e harmonias inusitadas. Já no primeiro CD ganhou o Prêmio Sharp de Música na categoria instrumental. Em 30 anos de carreira, tocou com João Donato – no Espaço Pierre Cardin, em Paris – e outros gênios da música brasileira como Hermeto Pascoal, Toninho Horta, César Camargo Mariano, Jane Duboc, Raul de Souza, Dominguinhos, Leny Andrade, Naná Vasconcelos, Paulo Moura… e por aí vai.

“A língua materna de Arismar do Espírito Santo é a música. Mesmo quando fala português, é música que ele fala. Ter uma simples conversa com o Arismar é ver-se participando de um fluxo criativo que parece não ter interrupção – qualquer que seja o assunto, ele de repente para em um grupo de palavras, repete, ouve o ritmo, acha um trocadilho, tira uma piada, repete a mesma frase como se fossem instrumentos musicais. Este músico, reconhecidamente um dos mais admirados e respeitados do Brasil e do mundo, não conhece limites para sua criatividade.” O comentário é de Maurício Ayer, músico e especialista em literatura.

Esta é uma oportunidade rara de vibrar com as sonoridades desses dois grandes músicos, juntos e ao vivo.

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