CRÔNICAS DA CRISE

A oposição ensaia um programa – e já começa a se dividir

“MEU GAROTO!” Armínio Fraga confraterniza em Nova York com o megaespeculador global George Soros. Durante a passagem do economista pelo BC, juros chegaram a 45% ao ano

Como governar um país em convulsão, após o eventual impeachment? Os planos começam a surgir – em linguagem cifrada, naturalmente…

Por Antonio Martins

Nos últimos dias, os defensores do afastamento de Dilma parecem ter resolvido suas dúvidas sobre a melhor forma de defenestrar a presidente. A opção por um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que cassaria o mandato de Dilma e Temer foi, ao menos provisoriamente, abandonada, em razão de dois motivos. É mais lenta e afastaria o PMDB. A estratégia – exposta por Fernando Henrique Cardoso em entrevista ao Estadão no domingo – é restaurar a moralidade apoiando-se em… Michel Temer e Eduardo Cunha. A velha mídia salvará as aparências. As negociações entre PSDB e PMDB avançam rápido.

Mas resta um problema a resolver: como governar o país, após o impeachment? As apostas começaram – em linguagem cifrada, para animar os mercados sem alarmar a sociedade. Vale ler, por exemplo, a entrevista que banqueiro Armínio Fraga concedeu à Folha ontem. Estreitamente ligado ao PSDB, Armínio voltou ao noticiário há seis dias, quando almoçou, horas antes de uma sessão do STF, com o ministro Gilmar Mendes e o senador José Serra. Foi presidente do Banco Central entre 1999 e 2002. No período, as taxas de juros pagas pelo Estado à aristocracia financeira chegaram a 45% ao ano.

Na entrevista, Armínio defende: a) “Orçamento base zero, desvinculado e desindexado”. Tradução: Eliminar os dispositivos constitucionais que obrigam o Estado brasileiro a destinar parcelas mínimas da arrecadação à Educação e Seguridade Social, entre outros; reduzir (sem tocar nos juros) os investimentos públicos em pelo menos R$ 30 bilhões; b) “Reformas tributária, trabalhista e previdenciária, choque de gestão, foco no investimento em infraestrutura”. Tradução: Elevar a idade mínima para aposentadoria; permitir que as leis trabalhistas sejam anuladas, em acordos “livremente” firmados entre sindicatos e empresários; e reduzir os impostos pagos pelas empresas, para atrair investimentos estrangeiros. c) “Com uma eventual troca de governo”, “retirar benefícios” [sociais] para “ao menos estancar a sangria, enquanto se aguardam eleições e uma liderança com mandato para ir mais fundo nas mudanças”.

A receita de Armínio, muito semelhante à que o próprio FHC esboçou há duas semanas, unirá os beneficiários de um eventual impeachment? Nada garante, por enquanto. Afoito, Serra falou domingo ao Estado. Defendeu que Temer, guindado à Presidência, forme um “ministério surpreendente”, no qual “o PSDB será chamado e terá obrigação de participar”. Pode ter avançado um sinal. Um dia depois, o próprio Temer lançou nota afirmando que “não tem porta-voz, não discute cenários políticos para futuro governo e não delegou a ninguém anuncio de decisões sobre sua vida pública”. Hoje, numa espécie de desfeita, encontrou-se com Aécio Neves, rival do Serra entre os tucanos.

Simples expressão de vaidades ou algo mais grave? Se o lulismo está em crise, também a oposição conservadora teria, em caso de impeachment, enormes dificuldades para governar sem consumir-se na fogueira que ela própria está acendendo.

Há uma brecha aqui: a parcela da população hoje favorável ao impeachment não tem ideia do que a aguarda, em caso de derrubada de Dilma. Não é possível explorar esta incerteza? Ou caminhamos sem saída para a política inteiramente esvaziada de sentido e reduzida a espetáculo?

TEXTO-FIM

Uma ideia sobre “A oposição ensaia um programa – e já começa a se dividir

  1. Resumindo o acima exposto no texto: as canalhadas do PMDB e do PSDB estão babando só de pensar em quanto poderão roubar. Só que há um problema: como sempre ocorre em quadrilhas, seus membros acabam se desentendendo por que cada um quer levar mais vantagem que os outros.

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