O manifesto contra a inquisição na PUC-SP

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Toni Negri, Jacques Rancière, José Miguel Wisnik, Tarso Genro, Marilena Chauí e outros intelectuais denunciam perseguição de professores e obscurantismo na Universidade 

Uma carta disparada semana passada em apoio aos professores Peter Pál Perlbart, Jonnefer Barbosa e Yolanda Gloria Gamboa Muñoz, perseguidos pela reitora Anna Cintra da PUC-SP e o cardeal de São Paulo Dom Odilo Scherer, já conta com o apoio de mais de 1.500 assinaturas. Os professores são acusados de terem atentado contra o “patrimônio moral” da universidade, e estimulado a “indisciplina entre os discentes” ao convidarem o diretor de teatro Zé Celso a apresentar trecho de uma peça, durante a greve de 2012. Entre as assinaturas, há intelectuais de renome internacional e personalidades progressistas, como Antonio Negri, Tarso Genro, Marilena Chauí, Maria Rita Kehl, Michael Hardt, Maurizio Lazzarato, Tomie Othake, José Miguel Wisnik, Ricardo Musse, Vladimir Safatle, Raquel Rolnik e muitos outros.

Confira a carta e assine você também.

A Reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo abriu um processo investigatório contra os professores Peter Pál Pelbart, Yolanda Glória Gamboa Muñoz e Jonnefer Barbosa, sob a alegação de supostamente terem convidado, idealizado, apoiado e divulgado a encenação do diretor de teatro Zé Celso Martinez, ocorrida na universidade em novembro de 2012. Na época, alunos, professores e funcionários protestavam contra a nomeação, pelo Cardeal D. Odilo Scherer, da terceira colocada na eleição para Reitor, quebrando uma tradição democrática de respeito à vontade da maioria, na primeira universidade brasileira a prever um processo eleitoral direto e paritário para a escolha de seus reitores.

A acusação em curso é de que aquela performance artística teria atentado contra o “patrimonio moral e cultural” da instituição, e de terem, os referidos docentes, estimulado a indisciplina entre os acadêmicos. Ora, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo tem como legado a defesa irrestrita da democracia, o pluralismo de ideias, a livre expressão artística, a pesquisa independente e a conexão viva com a sociedade. Prova disso foi a coragem política do então Cardeal D. Paulo Evaristo Arns ao acolher vários professores cassados em outras universidades durante a ditadura civil-militar que perdurou de 1964 a 1985, tais como Bento Prado Jr., Florestan Fernandes, Octavio Ianni e José Arthur Giannotti, como também alunos perseguidos pelos aparatos de repressão ou expulsos das universidades públicas brasileiras por motivos políticos.

A intimação dos três professores da Filosofia é uma clara tentativa de instaurar entre docentes e discentes um clima de intimidação, medo e insegurança. Trata-se de um gesto autoritário, que visa cercear a liberdade de iniciativa e de expressão no âmbito da universidade, sinalizando um rumo de todo inquietante, em desacordo com a autonomia acadêmica e com a liberdade historicamente construída no interior da PUC-SP.

Ao instaurar de forma oficial uma Comissão Sindicante Processante Permanente, que ora se encarrega deste processo, a Reitoria opta por uma lógica inquisitorial incompatível com a democracia brasileira, para não dizer com os novos ventos que sopram no Vaticano. A Universidade que foi um vigoroso bastião de resistência contra a ditadura, sendo duramente invadida pelas forças policiais no ano de 1977, que sofreu, durante os anos de chumbo, vários ataques, como o incêndio criminoso de seu teatro no ano de 1984, que deu abrigo a figuras proeminentes do pensamento no Brasil e arejou a produção intelectual nos trópicos, se vê agora ameaçada na sua vitalidade mesma.

Os abaixo-assinados, radicados em vários países, manifestam sua solidariedade aos professores acusados, o repúdio veemente ao processo em curso, e exigem, além de sua imediata interrupção, a retomada das condições básicas para a pesquisa, a produção e a liberdade acadêmicas na PUC-SP.

TEXTO-FIM

4 ideias sobre “O manifesto contra a inquisição na PUC-SP

  1. Há movimento atual na Igreja Católica cujo objetivo é claramente restaurar o modus operandi da famigerada inquisição e minimizar ou justificar plenamente os crimes cometidos pelos seus idealizadores e colaboradores. O processo é simples e, no âmbito da universidade, pode começar com a seleção de alunos e funcionários, em cujo contrato haverá cláusulas diretas ou indiretas de que sejam bons católicos comprometidos com as doutrinas da Igreja Católica Romana. Daí para uma perseguição basta que o aluno, formando ou funcionário manifeste alguma “heresia”. Julgada dentro do contexto inquisitorial evidentemente sem fogueira ou tortura físicas, abjurações e punições canônicas, mas não sem a tortura psicológica, o isolamento e a queima profissional, que em certos casos poderá produzir uma abjuração.

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